3.8.26

OPINIÃO: A invasão de Ceuta, o cemitério e as notas


Só nos primeiros seis meses deste ano, registaram-se 1271 mortes de migrantes durante a travessia do Mediterrâneo, segundo a Organização Internacional para as Migrações. Um número aquém da tragédia real. A mesma organização alerta para os naufrágios invisíveis, ou seja, os que morrem sem deixar rasto e que não entram nas estatísticas: estima-se que tenham sido outros 1500. O número de vítimas aumenta, apesar da redução do número de chegadas: segundo a Frontex, a agência europeia para as fronteiras, nos primeiros cinco meses do ano, foram 30 mil. Para a esmagadora maioria dos cidadãos europeus, são números abstratos. Não lhes conhecemos os nomes, muito menos as histórias. Falar do cemitério do Mediterrâneo transformou-se numa banalidade. Tirando uns quantos voluntários e algumas notas de rodapé, depois da visita do Papa Leão XIV a Lampedusa, quase ninguém quer verdadeiramente saber.

Vale a pena relembrar esta tragédia, quando o que domina as notícias é a situação em Ceuta, cidade norte-africana que o antigo colonizador manteve em sua posse. Dezenas de milhares de pessoas atravessaram a fronteira entre Marrocos e Espanha em dois ou três dias. Ao que se vai sabendo, com a conivência (e até o empurrão) das autoridades marroquinas e a impotência das espanholas. Vários morreram na tentativa de chegar à terra prometida. E a grande maioria voltou entretanto para trás, tal era a evidência de que, numa cidade de pouco mais de 80 mil habitantes, a única coisa que podiam esperar era Mas nada disto interessa aos extremistas que agora dominam o espaço público e, cada vez mais, o desenho das políticas. Para a extrema-direita, incluindo a portuguesa, está em curso uma invasão. E a solução é fechar fronteiras. Sabem tudo sobre redes sociais, mas faltaram às aulas de História. A fortaleza Europa é um mito. E pagar centenas de milhões de euros a regimes corruptos ou ditatoriais, como o turco e o marroquino, é inútil. Não se consegue tapar o vento com as mãos, mesmo quando estão cheias de notas. um outro tipo de miséria.

Rafael Barbosa – Jornal de Notícias - 2 de agosto, 2026 

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