25.8.26

CRÓNICAS DA TABANCA: Vir e não ver…


O secretário-geral do PS, José Luís Carneiro (eu chamo-lhe o da “Marrafinha”, mas não é por mal…) vem a Nisa na próxima quinta-feira, na iniciativa partidária a que chamaram a “Rota do Interior”. Uma “rota” que toca apenas concelhos de maioria socialista e que não é mais que um exercício de “salta-pocinhas”. O que vem Carneiro fazer ao Alto Alentejo, perguntará o leitor.

Começa a jornada pela tardinha no Festival do Crato, com jantar no intervalo das “melodias de sempre”. No dia 27, logo pela manhã, estará na Câmara de Nisa para observar e juntar-se à novela da Ponte de Cedillo. Aqui ouvirá os autarcas falar da autêntica odisseia que tem sido fazer um desenho e tirar montanhas de selfies desde 2017 como bandeira eleitoral, a enaltecer o feito socialista. Não têm nada a apresentar, a não ser alguns milhões de euros de pagamentos de máquinas, fora das autorizações para o arranque da obra. Que está parada, não avança, uma decepção para a pipi das meias altas que prometeu inaugurá-la em 2025, como a cereja no topo do bolo e trunfo eleitoral.

A ponte de Cedillo tem uma história de mais de 60 anos. Era compromisso de Espanha construí-la como contrapartida por terem implantado uma barragem assente em território nacional. Nunca a fizeram e deixaram que a empresa (espanhola, tá claro) que administra a barragem passasse, também  a “gerir” a passagem como se fossem polícias de uma fronteira fictícia, mas que sempre permitiu, com maior ou menor dificuldade, a passagem de portugueses e espanhóis. Agora, não. Só quando a “senhora Iberdrola” resolve abrir a passagem no coroamento, em tempo de festas. Aboliram-se as fronteiras, mas uma empresa privada gere, a seu gosto, uma passagem internacional e limita as relações de dois povos, dos mais isolados na península ibérica.

Na Câmara – o tempo não dará para mais, além das praxes do costume – José Luís Carneiro não ouvirá falar da urgente necessidade de requalificação das minas de urânio. Ninguém ousará apontar-lhe os malefícios e insegurança devido ao prolongamento do prazo de funcionamento da central nuclear de Almaraz, que há mais de 30 anos devia ter sido encerrada.

Ninguém lhe dirá que a sede do concelho (Nisa) tem deficientes ligações rodoviárias ao IP2, mormente no sentido Barragem do Fratel - Nisa e que urge criar as condições para que todos os habitantes do concelho possam transitar nos dois sentidos sem impedimentos.

Não ousarão questioná-lo  sobre as medidas tem preparadas para , no caso de vir a ser governo, transformar o interior do país, dando-lhe as mesmas possibilidades de trabalho e emprego das regiões do litoral. Tampouco o importunarão com essa coisa “mesquinha” que é a transformação do território e paisagem alentejana, como campo “livre” e sem travões para as culturas sobre-intensivas, os “campos” a perder de vista de painéis solares. Nem falo na saúde, das condições impróprias e precárias a que estão sujeitas as populações alto-alentejanas, envelhecidas pelo peso dos anos e pelo abandono a que foram sujeitas por sucessivos governos do “bloco central”.

Seria uma ocasião, soberana , para perguntar-lhe que medidas vai propor ao governo sobre a Barragem de Póvoa e Meadas, arrastando-se a indefinição quanto à construção da Barragem do Pisão que – é irónico e quase absurdo dizer isto – vai ser contemplada com uma verba da CIMAA para plantar árvores… As mesmas ou menos, até, do que aquelas que foram arrancadas, ilegalmente, antes da aprovação da construção da barragem do Pisão.

E, por último, não ficaria mal, perguntar-lhe, o que pensa da Regionalização.

Todos estes considerandos não esgotam, nem de perto, a panóplia de problemas do concelho e da região, e por isso não ficaria mal ao executivo apresentar ao líder socialista, um documento, uma espécie de caderno reivindicativo e plano de acção.

Conhecendo como julgo conhecer, o “marrafinha”, temo que as representações do folclore e do beija-mão, demorem mais tempo, muito mais, do que a apresentação de problemas e situações reais.

Mário Mendes