10.8.26

OPINIÃO: O crime é perguntar


É provável que o nome Jason Arday pouco lhe diga, mas a academia britânica está em polvorosa com o caso de proporções ainda não completamente apuradas. Resumindo, surgiram dúvidas sobre o currículo e possíveis casos de plágio na tese de doutoramento de Arday, que, em última análise, levaram à demissão - sem admissão de culpa - daquele que tinha sido o mais jovem professor negro da Universidade de Cambridge. O académico admitiu ter cometido alguns erros ao longo da carreira, mas recusou o grau de gravidade de um caso que se tornou num debate sobre racismo ou favorecimento de pessoas racializadas, num meio académico branco e privilegiado. Mas o que realmente me interessa no caso é a história do jornalista Jack Grove, especializado em Ensino Superior, do londrino "Times".

Grove interessou-se pelo tema de Jason Arday e tentou contactar o professor via correio eletrónico, para o ouvir sobre as acusações de plágio que subiam de tom online. Trabalho básico de milhares de jornalistas diariamente. Não conseguiu, mas meses depois foi contactado pela polícia britânica a informá-lo que estava a ser investigado por assédio e que não deveria voltar a contactar Jason Arday, devido à saúde mental do professor, que teria sido afetada pelas questões dirigidas por email. A investigação ao jornalista a fazer o seu trabalho demorou quatro meses, num caso que agora foi considerado pelas próprias autoridades como um erro.

Mais do que uma questão pontual, é sintoma de um constante desprezo do trabalho jornalístico, considerado obsoleto por muitos tecnoligarcas, que não gostam de ser questionados. Este sentimento anti "legacy media" alastrou para muitos grupos envoltos em bolha, que de forma egocêntrica se julgam arrogar ao direito de não serem questionados, por a isso não estarem acostumados. E a pergunta é a base do trabalho jornalístico, principalmente quando incomoda e melindra, porque é daí que nasce o esclarecimento.

·         Luís Pedro Carvalho – Jornal de Notícias - 10 de agosto, 2026