Em menos de um mês, mais de 60 mil pessoas aderiram ao
Cartão Porto., que é uma espécie de bilhete dourado (exclusivo dos residentes
na Invicta) para viajar de graça em toda a Área Metropolitana do Porto. A
promessa de uma mobilidade sem peso na carteira está a encantar uma considerável
franja da população, considerando que o concelho tem pouco mais de 273 mil
habitantes e, entre estes, figuram crianças e jovens que já beneficiam de
gratuitidade por via das políticas nacionais. Levantam-se legítimas dúvidas
sobre a eficácia desta iniciativa na redução do trânsito automóvel na cidade,
pois, se é certo que traz mais passageiros ao transporte público, não produz o
efeito imediato de esvaziar as vias da metrópole. Em algumas cidades europeias,
o fluxo de automobilistas continuou a agigantar-se. Também há quem questione
se, ao abdicar da receita - que é sempre fortemente subsidiada - dos títulos de
transportes, o Município não estará a privar-se de verbas essenciais para
melhorar o serviço público de mobilidade. Este argumento parece-me mais débil,
porque aqui reside o pleno exercício da opção política. A Câmara do Porto
escolhe investir e canalizar recursos para esta medida, em detrimento de
outras. A nível nacional, é o que sucede, por exemplo, na saúde com as
consultas gratuitas nos cuidados primários e não será justo dizer que a
resposta piorou, porque já não se pagam taxas moderadoras. A experiência no
Porto deve ser sujeita a uma avaliação aprofundada. No entanto, perspetivo que
a eficácia da medida dependerá, sobretudo, da capacidade de absorver, com
conforto e eficiência, a massa de novos passageiros e de atribuir efetiva
prioridade ao transporte público no trânsito, em detrimento do transporte
privado. O que é impossível fazer sem ter a coragem política de reduzir (e até
banir) significativamente o espaço do automóvel dentro da cidade, com efetivo
sacrifício para milhares de condutores.
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Carla Sofia Luz – Jornal de Notícias -
3 de agosto, 2026
