5.8.26

OPINIÃO: A culpa é do transporte grátis?


Em menos de um mês, mais de 60 mil pessoas aderiram ao Cartão Porto., que é uma espécie de bilhete dourado (exclusivo dos residentes na Invicta) para viajar de graça em toda a Área Metropolitana do Porto. A promessa de uma mobilidade sem peso na carteira está a encantar uma considerável franja da população, considerando que o concelho tem pouco mais de 273 mil habitantes e, entre estes, figuram crianças e jovens que já beneficiam de gratuitidade por via das políticas nacionais. Levantam-se legítimas dúvidas sobre a eficácia desta iniciativa na redução do trânsito automóvel na cidade, pois, se é certo que traz mais passageiros ao transporte público, não produz o efeito imediato de esvaziar as vias da metrópole. Em algumas cidades europeias, o fluxo de automobilistas continuou a agigantar-se. Também há quem questione se, ao abdicar da receita - que é sempre fortemente subsidiada - dos títulos de transportes, o Município não estará a privar-se de verbas essenciais para melhorar o serviço público de mobilidade. Este argumento parece-me mais débil, porque aqui reside o pleno exercício da opção política. A Câmara do Porto escolhe investir e canalizar recursos para esta medida, em detrimento de outras. A nível nacional, é o que sucede, por exemplo, na saúde com as consultas gratuitas nos cuidados primários e não será justo dizer que a resposta piorou, porque já não se pagam taxas moderadoras. A experiência no Porto deve ser sujeita a uma avaliação aprofundada. No entanto, perspetivo que a eficácia da medida dependerá, sobretudo, da capacidade de absorver, com conforto e eficiência, a massa de novos passageiros e de atribuir efetiva prioridade ao transporte público no trânsito, em detrimento do transporte privado. O que é impossível fazer sem ter a coragem política de reduzir (e até banir) significativamente o espaço do automóvel dentro da cidade, com efetivo sacrifício para milhares de condutores.

·         Carla Sofia Luz – Jornal de Notícias - 3 de agosto, 2026