Entretanto, o Mundo mudou de
laboratório. A heroína, que ocupava o centro do debate, já não é a
protagonista. Hoje, as drogas nascem numa bancada, entre reagentes químicos,
algoritmos do mercado clandestino e organizações criminosas que inovam com uma
velocidade que a ciência, muitas vezes, não consegue acompanhar. O narcotráfico
aprendeu a globalização antes de muitos governos, produz moléculas novas antes
que os laboratórios consigam dar-lhes nome, distribui através das redes
sociais, entrega como quem entrega uma refeição e dissolve fronteiras com uma
eficácia assustadora. O verdadeiro perigo talvez já nem seja a droga que
conhecemos.
Medimo-nos sempre pela forma como
olhamos para os mais vulneráveis. Há 25 anos, percebemos que há derrotas que
não se resolvem com algemas, assim como dependências que nunca aceitarão a
gramática do Código Penal. Percebemos que confundir sofrimento com culpa era um
erro histórico, deixámos de perguntar quem merecia castigo para perguntar quem
precisava de ajuda. A fronteira, que hoje parece quase evidente, exigiu então
uma coragem política pouco habitual.
Os desafios de hoje são outros e
múltiplos: toxicologia, vigilância epidemiológica, capacidade laboratorial,
investigação científica, detecção precoce, cooperação internacional. Estado,
investimento e responsabilidade. E liberdade para respeitar as opções
individuais, cuidando das adicções. Se em 2001 fomos capazes de liderar pela
coragem política, em 2026 temos a obrigação de liderar pela coragem científica.
O perigo do desconhecimento das novas substâncias psicoativas não espera pelos
debates parlamentares ou pela lentidão administrativa. Apenas pela vítima
invisível.
Miguel Guedes – Jornal de Notícias -3
de julho, 2026
