Tudo isto para enquadrar a importância (e se calhar a
urgência) de estudar um modelo de financiamento público ao jornalismo. Não se
trata de subsidiar uma atividade social e económica e dessa forma colonizá-la
ou domesticá-la, trata-se de encontrar, de uma forma responsável, democrática, instrumentos
que contribuam para a sua sobrevivência e, sobretudo, para a sua independência.
Na verdade, não é nada de novo. Os estados, incluindo o
português, dirigem todos os anos centenas de milhões de euros para promover e
fortalecer um conjunto de atividades económicas e sociais, ou seja, para
empresas e instituições em concreto, que considera essenciais ao
desenvolvimento do país e à qualidade de vida dos seus cidadãos.
Sucede que o jornalismo não nasce e morre numa redação. No
caso particular dos jornais como o JN, por exemplo, há uma série de setores a
montante e a jusante, sem os quais seria impossível sobreviver. Num mundo cada
vez mais digital, é essencial investir em tecnologia, por exemplo. Mas estão
também dependentes de outras atividades mais tradicionais e das suas
flutuações, como a da produção de papel, a impressão ou a distribuição.
O jornalismo, como qualquer outra atividade, terá sempre
mais riscos, seja na sua viabilidade, seja na sua independência, se o
ecossistema de que faz parte for dominado por monopólios, como hoje acontece
nomeadamente ao nível da distribuição. E não deixa de ser irónico que, depois
de o Governo lançar um concurso para a distribuição de jornais em territórios
de baixa densidade, em que assumia precisamente como objetivo promover um
mercado concorrencial, que tudo fique na mesma.
Recorde-se, de forma transparente, que o JN faz parte do
universo da Notícias Ilimitadas, cujo maior acionista é também o dono da
empresa que perdeu, e agora contesta, o concurso para a distribuição de
jornais. Mas, nem o JN, nem o seu atual diretor, são a "voz do dono".
O que é preocupante, não é que um empresário perca um concurso. É natural que
isso aconteça num mercado concorrencial e independente. O que preocupa é que
haja indícios de que se tenha tomado uma decisão com base em pressupostos
errados e, pior do que isso, que se acabe a reforçar um monopólio.
Rafael Barbosa – Jornal de Notícias - 30 de agosto, 2026