31.8.26

OPINIÃO: Jornalismo, democracia e monopólios


Pedro Duarte esteve esta semana na Universidade de Verão do PSD a explicar a importância de um "jornalismo livre, independente do poder público, com critérios de rigor e de transparência". O presidente da Câmara do Porto, que é também um dos vice-presidentes do partido, não se limitou, no entanto, a enunciar umas quantas ideias abstratas, que ficam sempre bem e não comprometem ninguém. Queria ir e foi mais longe. Lembrou que o jornalismo é o "antídoto" contra a desinformação das redes sociais e uma das vias para "salvar a democracia".

Tudo isto para enquadrar a importância (e se calhar a urgência) de estudar um modelo de financiamento público ao jornalismo. Não se trata de subsidiar uma atividade social e económica e dessa forma colonizá-la ou domesticá-la, trata-se de encontrar, de uma forma responsável, democrática, instrumentos que contribuam para a sua sobrevivência e, sobretudo, para a sua independência.

Na verdade, não é nada de novo. Os estados, incluindo o português, dirigem todos os anos centenas de milhões de euros para promover e fortalecer um conjunto de atividades económicas e sociais, ou seja, para empresas e instituições em concreto, que considera essenciais ao desenvolvimento do país e à qualidade de vida dos seus cidadãos.

Sucede que o jornalismo não nasce e morre numa redação. No caso particular dos jornais como o JN, por exemplo, há uma série de setores a montante e a jusante, sem os quais seria impossível sobreviver. Num mundo cada vez mais digital, é essencial investir em tecnologia, por exemplo. Mas estão também dependentes de outras atividades mais tradicionais e das suas flutuações, como a da produção de papel, a impressão ou a distribuição.

O jornalismo, como qualquer outra atividade, terá sempre mais riscos, seja na sua viabilidade, seja na sua independência, se o ecossistema de que faz parte for dominado por monopólios, como hoje acontece nomeadamente ao nível da distribuição. E não deixa de ser irónico que, depois de o Governo lançar um concurso para a distribuição de jornais em territórios de baixa densidade, em que assumia precisamente como objetivo promover um mercado concorrencial, que tudo fique na mesma.

Recorde-se, de forma transparente, que o JN faz parte do universo da Notícias Ilimitadas, cujo maior acionista é também o dono da empresa que perdeu, e agora contesta, o concurso para a distribuição de jornais. Mas, nem o JN, nem o seu atual diretor, são a "voz do dono". O que é preocupante, não é que um empresário perca um concurso. É natural que isso aconteça num mercado concorrencial e independente. O que preocupa é que haja indícios de que se tenha tomado uma decisão com base em pressupostos errados e, pior do que isso, que se acabe a reforçar um monopólio.

Rafael Barbosa – Jornal de Notícias - 30 de agosto, 2026