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1.6.21

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA - Poemas (1) - Sérgio de Sousa Bento

O pequeno saltimbanco
O pequeno saltimbanco
entrou na pista fez piruetas
contou duas anedotas sem palavras

e as pessoas choraram
choraram tanto como se rissem em gargalhadas
toda a gente sentiu o drama
do pequeno saltimbanco

mas as lágrimas foram demais
disseram os diários da manhã nocturna
o público afogou-se
num oceano de lágrimas sinceras

todas pelo pequeno saltimbanco

pelo pequeno saltimbanco
que tinha uma flor vermelha na lapela
e uma cicatriz acentuada na face esquerda
e que contava anedotas sem palavras
e provocava dilúvios nas cidades mortas
nas cidades mortas como a nossa cidade.

Sérgio de Sousa Bento – Lisboa 10 - 1964

* Quadro de Pablo Picasso - Uma família de saltimbancos (1905)

2.5.21

POEMA PARA O DIA DA MÃE

 


Mãe:

Que desgraça na vida aconteceu,

Que ficaste insensível e gelada?

Que todo o teu perfil se endureceu

Numa linha severa e desenhada?


Como as estátuas, que são gente nossa

Cansada de palavras e ternura,

Assim tu me pareces no teu leito.

Presença cinzelada em pedra dura,

Que não tem coração dentro do peito.


Chamo aos gritos por ti — não me respondes.

Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.

Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes

Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:

Abre os olhos ao menos, diz que sim!

Diz que me vês ainda, que me queres.

Que és a eterna mulher entre as mulheres.

Que nem a morte te afastou de mim!


Miguel Torga, in 'Diário IV'

Gravura de Cipriano Dourado (1954)

POEMA PARA O DIA DA MÃE

 
Amor de Mãe,
Sentimento tão puro e verdadeiro
Esse amor que nos ensina a viver
E nos ajuda a crescer!

O amor de Mãe atravessa fronteiras
Vence todas as barreiras!
Amor de Mãe
Esse amor tão grande
Que te faz sorrir, amar e chorar,

Mãe,
Se tantas vezes me dizes “Não”
É porque tens sempre razão.
Se me dizes “Sim”
É por saberes sempre o melhor para mim.

Mãe, quando me olhas e sorris
Tens tanto para me dizer.
O teu olhar terno e sorriso doce
Transbordam de “Amor de Mãe”
E, acredita Mãe, que me faz tão tem!

Se estou doente e triste,
As tuas palavras curam-me as feridas.
Os teus beijos e abraços
Atenuam a minha dor
E só tu consegues isso
Com o teu “Amor de Mãe”.

Amor esse tão forte e pioneiro
De entre todos, o primeiro
O maior e melhor do mundo inteiro.

Por tudo isto e muito mais
Já vale a pena viver
Nem que seja só para sentir
O teu amor de mãe.

* Dedico a todas as Mães, às mães biológicas, às mães do coração e em especial à minha querida Mãe Maria Antónia Estrada Mendes da Conceição.

Ana Paula Mendes Nunes Da Conceição Horta
2 de Maio de 2021


1.5.21

SAUDAÇÃO AO 1º DE MAIO - Poema de Bertold Brecht


PERGUNTAS DE UM OPERÁRIO LETRADO
Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma 
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas
Berthold Brecht

* Foto: Comemorações do 1º de Maio (1974)
Foto de Gérald Bloncourt

16.6.20

Dia Internacional da Criança Africana


POEMA PARA UM DESEJO AFRICANO 
Um dia
Da terra nua do deserto
Nascerá uma flor
No braço de uma criança
Saltaremos as barreiras
Do silêncio imposto.

Dizemos não
Ao comércio da guerra
À fome e à miséria.

Um dia
O amor desaguará
Calmamente
Deste rio que somos nós.
Joaquim Maurício

1.6.20

NISA: Hoje é o Dia Mundial da Criança (I)

                                                     O Direito das Crianças  
Toda criança no mundo
Deve ser bem protegida
Contra os rigores do tempo
Contra os rigores da vida.

Criança tem que ter nome
Criança tem que ter lar
Ter saúde e não ter fome
Ter segurança e estudar.
Não é questão de querer
Nem questão de concordar
Os direitos das crianças
Todos têm de respeitar.

Tem direito à atenção
Direito de não ter medos
Direito a livros e a pão
Direito de ter brinquedos.
Mas criança também tem
O direito de sorrir.
Correr na beira do mar,
Ter lápis de colorir…

Ver uma estrela cadente,
Filme que tenha robô,
Ganhar um lindo presente,
Ouvir histórias do avô.
Descer do escorregador,
Fazer bolha de sabão,
Sorvete, se faz calor,
Brincar de adivinhação.

Morango com chantilly,
Ver mágico de cartola,
O canto do bem-te-vi,
Bola, bola,bola, bola!

Lamber fundo da panela
Ser tratada com afeição
Ser alegre e tagarela
Poder também dizer não!
Carrinho, jogos, bonecas,
Montar um jogo de armar,
Amarelinha, petecas,
E uma corda de pular.
Ruth Rocha

5.5.20

Celebramos, pela 1ª vez, o Dia Mundial da Língua Portuguesa

Esta terça-feira, dia 5 de maio, celebra-se pela primeira vez o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Para celebrar a data, publicamos uma poesia de José Gomes Correia, talvez o maior poeta nascido em Nisa, e uma canção de Adriano Correia de Oliveira, que tão cedo partiu do nosso convívio.
O Dia Mundial da Língua Portuguesa foi ratificado em 25 de novembro de 2019, pela organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO, na sigla em inglês), na sequência de uma proposta apresentada por todos os países lusófonos, e apoiada por mais 24 Estados. Há mais de uma década que, a 5 de maio, se celebrava o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
O português é falado por mais de 260 milhões de pessoas nos cinco continentes, ou seja, 3,7% da população mundial.
É língua oficial dos nove países-membros da CPLP (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste) e Macau, bem como língua de trabalho ou oficial de um conjunto de organizações internacionais como a União Europeia, União Africana ou o Mercosul.
MEU ALENTEJO... 
Nas horas de febril meditação,
Como eu gosto de ti, meu Alentejo!
O canto da seara é doce harpejo,
Que fala mansamente ao coração...

Ao embeber meus olhos na amplidão,
É grande e majestoso quanto vejo!
Desprezo a mesquinhez do que desejo,
Perante a tua áurea imensidão!

Foi mais pródiga em ti a Natureza,
Fértil rincão da terra portuguesa,
Do que em mim foi a sorte empobrecida...

P´ra mais leve tornar minha amargura
Q´ria que o berço fosse a sepultura,
Quando a morte vier roubar-me a vida!
José Gomes Correia 

19.3.20

No Dia do Pai - Um poema

PARA O MEU PAI
Nas veredas da infância,
Caminhos da juventude,
Nas estradas curvacentas,
Nevoentas, abrolhosas
Que a vida me destinou,
Sempre lá estiveste e estás, 
Com o exemplo constante,
O conselho adequado
Ao momento inquietante...

O apoio abnegado,
O sorriso confiante
- Que tanto assim me marcou-
A incutir confiança
À mulher, jovem, criança
Que já fui e ainda sou.

Esse sorriso de paz,
Que tanta calma me traz
Quando a dor me consome,
De afecto sentindo fome,
É nele que me envolvo
Num abraço terno, novo
Encontrando o que procuro:
Meu certo parto seguro
A embalar a esperança,
Estrela, fé em maré alta...
E tal como em criança,
Tu fazes-me sempre falta!

Portalegre, 19.03.2010
Maria Albertina Dordio

1.1.20

POEMA PARA O ANO 2020


Esta gente

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
Dum país liberto
Duma vida limpa
E dum tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen in "Geografia

1.6.19

Poema para o Dia Mundial da Criança

Meus oito anos
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!

Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingénuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
– Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!
Casimiro de Abreu

20.4.19

PÁSCOA num poema de Maria Albertina Dordio


Páscoa 
É Páscoa – Festa de flores!
Já Cristo Ressuscitou,
Subiu ao Céu e sarou
Nossos flagelos e dores.
Queremos sol a raiar
No coração e na alma,
Profusão de odores e cores,
Jardins floridos no olhar,
Resplandecendo alegria,
Como bálsamo e calma,
Serenidade cristã
De quem bebe, pela manhã,
A PÁSCOA em cada dia!

Maria Albertina Dordio

1.6.18

Lembrando o Dia Mundial da Criança

OS OLHOS DAS CRIANÇAS
Atrás dos muros altos com garrafas partidas
bem atrás das grades de silêncio imposto
as crianças de olhos de espanto e de medo transidas
as crianças vendidas alugadas perseguidas
olham os poetas com lágrimas no rosto.

Olham os poetas as crianças das vielas
mas não pedem cançonetas mas não pedem baladas
o que elas pedem é que gritemos por elas
as crianças sem livros sem ternura sem janelas
as crianças dos versos que são como pedradas.

Sidónio Muralha

2.11.17

A chuva tão querida e desejada, chegou...



Mistério

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!
Florbela Espanca


29.10.17

OUTUBRO: Mês Internacional do Idoso - In Memorian



REQUIEM POR MIM
Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Contra as leis do destino.
Mas ninguém vive
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio. 


Miguel Torga, in 'Diário (1993)

21.10.17

MÊS DOS IDOSOS: No Outono da Vida, um Sorriso de Primavera

Frustração
Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.
Miguel Torga, in 'Diário XV'

10.10.17

NISA: Postais do Concelho: Idosos (1)



Já lá Vão Sete Lustros
Já lá vão sete lustros, que este monte
Berço me foi: Já da vital jornada
Mais de meia carreira está passada;
E cedo iremos ver outro horizonte:

A mão já treme, já se enruga a fronte,
Já branqueja a cabeça, e com a pesada
Considração da vida mal gastada,
Vai-se apagando a luz, secando a fonte.

Pouco nos resta, que passar já agora;
E para as derradeiras agonias
De tantos anos, aproveite hum’hora.

Esperanças, temores, vãs porfias,
Paixões, desejos, ide-vos embora;
Favor, que me fareis por poucos dias.

João Xavier de Matos, in 'Antologia Poética'

13.5.17

A luz de Nisa num poema do padre Alfredo Magalhães (1957)








NISA
Não sei o que Nisa tem,
Que mago sonho a domina
Feito de luz purpurina,
Quando o sol se esconde além!...

Rasgam-se as nuvens também
P´ra tornar a luz mais fina
Como auréola cristalina
Que só aqui se detém...

Em cada viela ou praça,
Na rua mais pobrezinha,
Há jogos de luz e graça.

Oh! Nisa tão louçainha,
Tens mais graça quando passa
O Sol, por ti, à tardinha.
7 de Março de 1957

Padre Alfredo Magalhães

6.7.16

NISA: "Amigos, não consultem os relógios!"

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios…

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os anjos entreolham-se espantados
quando alguém – ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são…
(Mario Quintana)
(poema do livro A Cor do Invisível. 2a. edição. São Paulo: Globo, 2005. p.96.)
Já era tempo, mais que tempo, da Torre do Relógio, um dos ex-libris de Nisa, ser olhada com outros olhos.  Há muito que os mostradores do relógio estão desafinados, desalinhados, mostrando tempos diferentes, consoante os locais de onde se olha. Estão assim há anos, à espera de uma reparação que há muito se justifica.
Não sei se é por falta de verbas e vontade, ou se há outras prioridades a reclamarem intervenção mais urgente.
Que o relógio da torre e a própria torre carecem de uma reparação e de uma limpeza geral, salta à vista de todos. Até daqueles que não têm um blog "só para dizer mal", como é - na fértil imaginação de alguns dos eleitos, atentos e vigilantes, da Praça do Pelourinho -, este em que escrevo e tem como título Portal de Nisa.
Talvez por estas ou outras razões que me escapam, o blog tenha atingido, na semana passada, mais de um milhão e quarenta mil visitantes, não se incluindo nestes as minhas "entradas".
Mas, tenho de concordar com o Mário Quintana: Não olhem (consultem) os relógios!
O da Torre de Nisa merece uma visão mais limpa e desafogada.
Mesmo, para os mal-dizentes...
Mário Mendes

8.3.16

8 de Março - Dia Internacional da Mulher

Poema Melancólico a não sei que Mulher
Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...

Miguel Torga, in 'Diário VII'