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4.3.26

UM POEMA POR DIA, BEM QUE SABIA - José Luís Peixoto


A Mulher Mais Bonita do Mundo

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram

flores novas na terra do jardim, quero dizer

que estás bonita.

 

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,

abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio

de ouro.

 

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como

se tocasse a pele do teu pescoço.

 

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

 

estás tão bonita hoje.

 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

 

estás dentro de algo que está dentro de todas as

coisas, a minha voz nomeia-te para descrever

a beleza.

 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

 

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,

estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

 

* José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

** Desenho de Cipriano Dourado


4.5.25

MÃE, Fonte de Vida e de Poesia


Palavras para a Minha Mãe

mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses

as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.

sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

 

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste

tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te

desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

 

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,

a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia

mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

 

lê isto: mãe, amo-te.

 

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não

escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que

não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não

as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.

 

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

2.9.24

VEMOS, OUVIMOS E LEMOS - Luta de Classes, texto de José Luís Peixoto


Admiro o povo ao qual pertenço. Não o povo mitificado, admiro o povo quotidiano. Gosto de ir a feiras. Gosto de comer frango assado com as mãos. Devo tanto à cultura deste povo como devo a Dostoievski
Não contem comigo para defender o elitismo cultural. Pelo contrário, contem comigo para rebentar cada detalhe do seu preconceito.
A cultura é usada como símbolo de status por alguns, alfinete de lapela, botão de punho. A raridade é condição indispensável desse exibicionismo. Só pertencendo a poucos se pode ostentar como diferenciadora. Essa coleção de símbolos é descrita com pronúncia mais ou menos afetada e tem o objetivo de definir socialmente quem a enumera.
Para esses indivíduos raros, a cultura é caracterizada por aqueles que a consomem. Assim, convém não haver misturas. Conheço melhor o mundo da leitura, por isso, tomo-o como exemplo: se, no início da madrugada, uma dessas mulheres que acorda cedo e faz limpeza em escritórios for vista a ler um determinado livro nos transportes públicos, os snobs que assistam a essa imagem são capazes de enjeitá-lo na hora. Começarão a definir essa obra como "leitura de empregadas de limpeza" (com muita probabilidade utilizarão um sinónimo mais depreciativo para descrevê-las).
Este exemplo aplica-se em qualquer outra área cultural que possa chegar a muita gente: música, cinema, televisão, etc. Aquilo que mais surpreende é que estes "argumentos", esta forma de falar e de pensar seja utilizada em meios supostamente culturais por indivíduos supostamente cultos, e só em escassas ocasiões é denunciada como discriminadora do ponto de vista sexual ou social.
Isso são livros de gaja, dizem eles. Às vezes, para cúmulo, há mesmo mulheres que dizem: isso são livros de gaja.
A raiz da minha cultura não pertence ao elitismo. Tenho orgulho das minhas origens, do meu avô pastor, do meu pai carpinteiro, como outros têm orgulho dos seus longos nomes compostos.
Depois de um trabalho que encerre convicções profundas, que tenha em conta os princípios da sua área artística, que seja consciente da história dessa área e que faça uma proposta coerente e inovadora, acredito na divulgação o mais ampla possível.
Esconder uma obra em tiragens de 300 exemplares não lhe acrescenta um grama de valor artístico. Quando essa falta de divulgação resulta de uma escolha, pressupõe, quase sempre, falta de consideração pelo público, a crença de que um público mais vasto seria incapaz de entender tamanha sofisticação.
Acredito que a poesia pode ser publicada em caixinhas de fósforos, escrita com trincha ou spray nas paredes, impressa em t-shirts, afixada no facebook. Em qualquer um desses lugares, será diferente, mas em todos continuará a ser poesia.
É ridícula a ideia de que a divulgação deturpa. A banalização é sempre tarefa de quem banaliza e não do objeto banalizado. Quem não for capaz de convocar os seus sentidos e a sua razão para apreciar uma determinada obra, apenas por acreditar que se encontra muito difundida, tem problemas graves ao nível do espírito crítico e da isenção mais básica. Esse é um daqueles casos em que se aconselha a lavagem de olhos. É aí que reside a deturpação.
Admiro o povo ao qual pertenço. Não o povo mitificado, admiro o povo quotidiano. Gosto de ir a feiras. Gosto de comer frango assado com as mãos. Devo tanto à cultura deste povo como devo a Dostoievski Há alguns meses, a personagem de uma telenovela citou um poema escrito por mim. Toda a gente da minha rua viu e ouviu. A minha mãe ficou orgulhosa e eu também.
Chamo-me José ou, se preferirem, Zé. Desprezo o elitismo. O verbo não é exagerado, adequa-se bem ao que sinto.
Hei de sempre divulgar o meu trabalho na máxima dimensão das minhas capacidades. Devo esse esforço à convicção que tenho naquilo que escolhi dizer. Fico feliz se vejo os meus livros disponíveis em supermercados, estações de correios, bombas de gasolina ou bibliotecas públicas.
Aquilo que faço não existe sozinho, precisa de alguém que lhe dê sentido, o seu próprio sentido e interpretação pessoal. Se uma árvore cair sozinha na floresta, sem ninguém por perto, será que faz barulho? Por esse motivo, o esforço de divulgação é também uma mostra de respeito para com essas pessoas, é um sinal da minha crença nelas e no seu valor. Exatamente como estas palavras, que existem porque estás a lê-las.
Escrevo romances, a minha força de vontade é enorme. Tenho 38 anos, conto estar por cá durante bastante tempo. Tenho ainda muito por fazer. Habituem-se. Não tenho medo.
·         José Luís Peixoto, Texto publicado na VISÃO 1052, de 2 de maio  / Segunda feira, 6 de Maio de 2013 |
FOTO : 25 de Abril 1974 - Gérald Blouncourt

18.1.24

GALVEIAS: Inauguração do Centro de Interpretação José Luís Peixoto

No próximo dia 21 de janeiro, será dia de festa para todos os Galveenses. Nesse dia e na presença do Escritor, terá lugar a inauguração do Centro de Interpretação José Luís Peixoto e da Rota Literária “Galveias”.
O Centro de Interpretação, sedeado numa Casa Senhorial totalmente recuperada, dedicado ao autor, a sua obra a Rota Literária “Galveias” produzida a partir do romance com o mesmo nome dão corpo à vontade dos Galveenses em homenagear o escritor José Luís Peixoto, e as enormes potencialidades turísticas e culturais da Vila de Galveias. Para além de ser o local onde o visitante pode reencontrar as obras do escritor, é também a porta de entrada para os 22 pontos registados na obra, orientam uma visita pela cultura ímpar da Vila.
A Presidente da Junta de Freguesia de Galveias, Maria Fernanda Bacalhau e o Escritor José Luís Peixoto têm o grato prazer de convidar toda a população a participar no ato inaugural que decorrerá no dia 21 de janeiro, com início às 10h30, na Rua General José Garcia Marques Godinho, em Galveias.
Integrando o programa da Inauguração, terá lugar a enceta da exposição de fotografias de Maria Martins e um concerto pela Banda da Sociedade Filarmónica Galveense.

9.1.24

GALVEIAS: Inauguração do Centro de Interpretação José Luís Peixoto e da Rota Literária "Galveias"

 O próximo dia 21 de janeiro será Dia de Festa para todos os Galveenses. Nesse dia e na presença do Escritor, terá lugar a inauguração do Centro de Interpretação José Luís Peixoto e da Rota Literária “Galveias”.

O Centro de Interpretação, sedeado numa Casa Senhorial totalmente recuperada, dedicado ao autor, à sua obra e a Rota Literária “Galveias” produzida a partir do romance com o mesmo nome dão corpo à vontade dos Galveenses em homenagear o escritor José Luís Peixoto e as enormes potencialidades turísticas e culturais da Vila de Galveias. Para além de ser o local onde o visitante pode reencontrar as obras do escritor é também a porta de entrada para os 22 pontos registados na obra, orientam uma visita pela cultura ímpar da Vila.
A Presidente da Junta de Freguesia de Galveias, Maria Fernanda Bacalhau e o Escritor José Luís Peixoto têm o grato prazer de convidar quaisquer a participar no ato inaugural que decorrerá no dia 21 de janeiro, com início às 10h30, na Rua General José Garcia Marques Godinho em Galveias.
Integrando o programa da Inauguração terá lugar a enceta da exposição de fotografias de Maria Martins e um concerto pela Banda da Sociedade Filarmónica Galveense.
Galveias, 8 de janeiro de 2024

14.12.22

José Luís Peixoto apresenta "Onde" em Abrantes, Constância e Sardoal

O escritor José Luís Peixoto vai estar em Abrantes, Constância e Sardoal, no distrito de Santarém, de quinta-feira a sábado, para apresentar o mais recente livro, “Onde”, da Quetzal Editores, onde evoca mais de 60 lugares daqueles três concelhos.
Sardoal recebe a apresentação de "Onde" na quinta-feira, na Biblioteca Municipal, às 16h00, seguindo o escritor para Abrantes, onde fará a apresentação do livro na sexta-feira, na Biblioteca Municipal António Botto, às 18h00, culminando o périplo no sábado, às 18h00, em Constância, onde José Luís Peixoto estará presente na Casa-Memória de Camões para apresentar a mais recente obra literária.
"Onde" é um livro de viagem alargado e que conta com um roteiro literário pelos territórios de António Botto, Camões e Gil Vicente, com uma rota por mais de 60 pontos de interesse nos municípios de Abrantes, Constância e Sardoal, no âmbito do projeto cultural intermunicipal “Caminhos Literários”.

23.3.22

PONTE DE SOR: Prémio literário José Luís Peixoto dedicado à Poesia

 
A Câmara Municipal de Ponte de Sor volta a promover mais uma edição do Prémio Literário José Luís Peixoto, como forma de homenagear o escritor natural da freguesia de Galveias, concelho de Ponte de Sor, que dá nome ao Prémio.
«A necessidade de incentivar a criatividade literária entre os jovens, bem como o gosto pela escrita, que se consideram atividades essenciais para um bom desenvolvimento intelectual são predicados que norteiam este Prémio Literário que tem granjeado muita notoriedade há mais de uma década», refere a autarquia.
Podem concorrer cidadãos de nacionalidade portuguesa e a naturais e/ou residentes em países de língua oficial portuguesa que completem 25 anos até ao dia 31 de dezembro de 2022
Este ano, o Prémio Literário é referente à Poesia, estando fixada a data limite 31 de maio do presente ano, para a entrega dos trabalhos para o endereço eletrónico premio.jlpeixoto@cm-pontedesor.pt.
O regulamento do Prémio e todas as informações estão disponíveis em www.cm-pontedesor.pt


10.5.21

PONTE DE SOR: Prémio José Luís Peixoto - Prorrogação do prazo

Tal como no ano passado e na sequência do estado pandémico em que vivemos, o Município Ponte de Sor empenhou-se na continuidade do Prémio Literário José Luís Peixoto.
A edição deste ano é referente ao Conto e terá algumas alterações excecionais ao regulamento que são:
✏️ Prorrogação do prazo, passando a ter como data limite dia 30 de Junho de 2021;
✏️ O envio dos trabalhos será feito para o e-mail: premio.jlpeixoto@cm-pontedesor.pt;
✏️ No texto do e-mail virá a naturalidade do concorrente, o pseudónimo e o título do trabalho;
✏️ O trabalho será enviado em formato PDF e os dados pessoais serão enviados noutro PDF.
Saiba mais em 👉 bit.ly/326u83b

15.4.21

PONTE DE SOR: Prémio literário José Luís Peixoto 2021

O Município de Ponte de Sor e a Biblioteca Municipal vêm por este meio dar conhecimento e solicitar a divulgação do concurso “Prémio Literário José Luís Peixoto 2021”.
Tal como no ano passado e na sequência do estado pandémico em que vivemos, o Município Ponte Sor e a Biblioteca Municipal empenharam-se na continuidade do Prémio Literário José Luís Peixoto 2021.
Este ano o Prémio Literário é referente ao Conto e terá algumas alterações excecionais ao regulamento que são:
✔ Prorrogação do prazo, passando a ter como data limite dia 30 de Junho de 2021;
✔ O envio dos trabalhos será feito para o e-mail: premio.jlpeixoto@cm-pontedesor.pt;
✔ No texto do email virá a naturalidade do concorrente, o pseudónimo e o título do trabalho;
✔ O trabalho será enviado em formato PDF e os dados pessoais serão enviados noutro PDF.
Regulamento do Prémio Literário «José Luís Peixoto» 
Introdução 
A ideia de criar este prémio literário que irá ser atribuído anualmente pela Câmara Municipal de  Ponte de Sor teve, fundamentalmente, dois objectivos específicos que são, por um lado, a vontade  de homenagear o autor que deu o nome ao prémio, José Luís Peixoto, natural do concelho de Ponte  de Sor e, por outro, a necessidade de incentivar a criatividade literária entre os jovens, bem como o  gosto pela escrita, que consideramos serem actividades essenciais para um bom desenvolvimento  intelectual. 
A aprovação do presente regulamento tem em vista fixar um conjunto de regras, por forma a garantir  uma correcta avaliação dos trabalhos que serão apresentados no âmbito desta iniciativa. Assim, nos termos do disposto no artigo 241.º da Constituição da República Portuguesa, tendo em  vista o exercício da competência que à Câmara Municipal é conferida pela alínea b) do n.º 4 do  artigo 64.º da Lei n.º 169/99, de 18 de Setembro, com as alterações introduzidas pela Lei n.º 5- A/2002, de 11 de Janeiro, é aprovado o presente Regulamento para vigorar na área de jurisdição do  município de Ponte de Sor. 
Ver Regulamento »»»
https://mail.google.com/mail/u/0/#inbox/FMfcgxwLtZmWrcGtrvMMtCfwhdLgCnGW?projector=1&messagePartId=0.2

11.8.20

Galveias com parecer positivo para Centro Interpretativo José Luís Peixoto

O Município de Ponte de Sor, através da Junta de Freguesia de Galveias, obteve do Turismo de Portugal o parecer elegível à candidatura apresentada com o projeto da autoria e coordenação de Inês Florindo Lopes; cujo enquadramento tem como base a valorização dos recursos endógenos das regiões e do desenvolvimento de novos serviços turísticos. O investimento é de índole cultural, com o propósito de dinamizar turisticamente o território e por sua vez criar valor junto da comunidade local.
O projecto pretende aproveitar a oportunidade para exaltar a obra do escritor José Luís Peixoto, natural de Galveias, conhecido por ser o mais jovem autor galardoado com Prémios Literários e reconhecido como um dos mais notáveis escritores na língua Portuguesa da sua geração, cujas obras estão traduzidas nos mais diferentes idiomas.
O Turismo Literário é um produto estratégico para a consolidação de Portugal como destino turístico, promovendo uma nova forma de visitar Portugal assente nos lugares que inspiraram os autores portugueses, nas obras com maior ressonância a nível global e na criação de roteiros literários. O livro «Galveias» de José Luís Peixoto, assumirá o papel central, uma vez que apresenta um interessante discurso relativamente à identidade da Vila, através de um retrato psicológico real do viver e das vivências do interior Alentejano.
A Rota Literária de cariz interativo e dinâmico será o convite para entrar e descobrir a Vila de Galveias através das imagens e especificidades em forma de abordagens literárias, na busca do simbólico, do descritivo pelos conteúdos geográficos e pela criação de memórias de lugares.

26.2.18

OPINIÃO: Melhores do que os outros

Os elitistas acham sempre que fazem parte da elite. A pirâmide, no entanto, tem uma imensidão de vértices, é provável até que não se trate realmente de uma pirâmide. Por isso, não faltam perspetivas para que uns e outros se considerem no topo.
Há o elitismo social, de classe, relacionado ou não com o elitismo económico; há o elitismo cultural, relacionado ou não com o elitismo académico; há o elitismo moral, relacionado ou não com o elitismo religioso; há uma quantidade inúmera de elitismos, derivações de derivações, ramificações, tipos específicos e especializados, insignificantes para quem está fora, vitais para quem está dentro.
Em qualquer dos casos, o elitismo é sempre a defesa da superioridade de uns em relação aos outros, é sempre a afirmação da diferença e da separação. As suas razões são o núcleo daquilo que coloca gente contra gente, que justifica guerras. O elitismo garante que uns são mais capazes do que outros, ou que uns têm mais direito do que outros.
Mesmo quando se dedica a áreas extravagantes, a mundos microscópicos, o elitismo é sempre uma atitude política. A elasticidade do seu metabolismo permite-lhe sobrevivência em todas as áreas do espetro político, sem exceções. Consegue adaptar-se a qualquer habitat argumentativo. Com mais regularidade do que seria de supor, há apologias do elitismo que, camufladas ou explícitas, são feitas no próprio instante em que se afirmam contra ele. São a elite dos que se afirmam contra a elite.
Os defensores das castas dizem que é assim desde sempre, dizem que essa é a ordem natural, moldam a história e a ciência de acordo com os resultados lógicos que pretendem alcançar. Não é difícil fazê-lo, os argumentos são uma massa mais moldável do que o barro.
Depois, para lá disso, muito longe e logo ali, há os seres humanos, que nascem, alimentam expetativas e morrem. Quando seremos capazes de olhar para os outros como olhamos para nós próprios? Quando seremos capazes de olhar para nós próprios como olhamos para os outros?

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine (Fevereiro 2017)

14.12.17

PONTE DE SOR: Prémio literário José Luís Peixoto 2017 vai ser entregue sábado

No próximo sábado, 16 de dezembro, no Centro de Artes e Cultura de Ponte de Sor, vai ser entregue o Prémio Literário JLP 2017, com a presença do escritor.
Vai também ser dia de lançamento de antologia com os trabalhos premiados nos últimos dois anos e ainda de apresentação do novo livro de José Luís Peixoto: Caminho Imperfeito.

16.11.13

CRÓNICAS DO REGABOFE (1) - Leituras: José Luís Peixoto, “O Livro”

Tal como o autor, também não gosto de ler novidades, isto é, livros que estão na moda, aqueles que vemos toda a gente no comboio a lê-los, ou a fingir que lê.
Gosto de os deixar pousar, que a fama passe e só então me dedicar a saboreá-los por aquilo que realmente são, significam e valem.
Talvez por isso as minhas leituras ainda andem pelo Camilo e Eça. com alguns Saramagos e Lobo Antunes à mistura.
De tal sorte ser este o primeiro livro de José Luís Peixoto que leio e empurrado para ele por um golpe publicitário da livraria Wook.
Mas em boa hora me deixei levar até ele porque francamente é do melhor que tenho lido de romancistas portugueses.
Desde logo, este “livro”, não é um livro, são vários livros formando um só, o livro, a epopeia de quão custoso é ser português.
O livro do amor e da paixão – tal como outros autores, também Peixoto cria e dá vida ao seu par amoroso, os inesquecíveis Ilídio e Adelaide, tal como os verdadeiros pares amorosos, este, igualmente é um amor infeliz. Ilídio filho sem pai e abandonado pela mãe, vem a ser pai sem filho e esposo sem esposa. Adelaide de uma tão grande família como a pobreza que de tão grande não tem lugar para ela, acaba por viver em família tão só como na sua origem. O resto faz o destino e as peripécias da vida, vida inexorável que não permite aos amantes mais que um breve momento de encontro. Par amoroso que confirma a regra “todos os amores felizes são felizes da mesma maneira, os amores infelizes são infelizes no seu modo único e original”.
O livro da epopeia da emigração portuguesa – uns em busca de melhores condições de vida, outros para fugir da guerra colonial, alguns correndo atrás da ilusão do amor.Madrasta terra esta que não dá aos seus filhos nem pão, nem paz, nem amor…
O livro do Alentejo “pró fundo” – a vida dificultosa na pequena vilória do Alentejo, julgando pelos traços de escrita de José Luis Peixoto, as casas caiadas, a luz natural, os sobreiros… não andará muito longe para onde hoje é empurrada a vida da mesma vila. Alentejo interior de onde quem manda teima em esquecer e votar ao abandono. Mesmo a retirar o que já havia sido conquistado. É o Alentejo antigo que se mistura com o Alentejo atual em o livro.
O livro da amizade e solidariedade – os laços que ligam a bondade do pedreiro Josué, “pai” necessário de Ilídio, a este e ambos ao infeliz Galopim e até mesmo ao gabarolas Cosme, vão para lá de uma simples amizade, entram no campo da solidariedade, daqueles que dão a vida pela do amigo.
Livro do abandono e da tristeza – há qualquer coisa nas personagens de livro que as faz tristes e dessa tristeza nasce um sentimento de abandono, mais que de solidão, são personagens ensimesmadas, trilhando a sua vida de uma forma de tal modo desamparado que as faz para ali estarem, abandonadas.
Muito podia especular mais e caso quisesse encontrar outros livros no “livro”, mas não vale a pena entrar mais por essa via.
Numa navegação (escrita) à vista, José Luis Peixoto ruma o seu barco entre os colossos Lobo Antunes e Saramago, quanto a mim mais rasante a Saramago, encontra, no entanto, o seu próprio mar criativo. e é um mar novo, de águas límpidas, frescas, puras e jovens, aquele que José Luis Peixoto nos oferece ao desfrute.
“Livro”, uma obra com lugar já marcado na literatura portuguesa.
 Jaime Crespo

8.3.12

A Mulher Mais Bonita do Mundo

estás tão bonita hoje.
quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.
 entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está
o teu fio de ouro.
entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.
há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.
estás tão bonita hoje.
 os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
 estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.
 os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.
José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"