P´ra mulher ser
infeliz
Basta-lhe só ser
mulher
Sempre nas línguas
do Mundo
Esteja ela onde
estiver.
Se não fala tem
presunção
E passa por
indecente
Se fala para toda a
gente
Não conhece a
posição...
Se ela vai a um
serão,
Há uma língua que
diz:
Ela vai lá porque
quis
Aparecer ao seu
encanto...
Tudo isto é
bastante,
P´ra mulher ser
infeliz.
Se vai à dança, é
devassa
Se não vai é
orgulhosa
Se quer ser
religiosa
Dizem que é beata
falsa
Se vai para a rua
vai descalça
Ela ainda assim
porque quer
Faça ela o que
fizer,
Ou passe por quem
passar
Para o mundo dela
falar
Basta-lhe só ser
mulher.
Se vai à missa
engomada,
Há quem se atreva a
dizer:
Não ganha para
comer
Mas tem para andar
asseada.
Se vai triste ou
mal trajada
É bandalho sem
segundo...
Se vai calçada,
gasta tudo,
È pobre e
desprevenida
Assim passa a
triste vida,
Sempre nas línguas
do mundo.
Se fica em casa é
senhora,
É fidalga, sem ter
renda
Se trabalha na
fazenda
É tida como
impostora...
Não tem a triste
uma hora
Que a desgraça a
não espere
Faça ela o que
fizer
A favor do seu bom
porte...
Falam dela até à
morte,
Esteja ela onde
estiver.
** Desenho de Cipriano Dourado
