As cidades têm desertos. A requalificação dos espaços urbanos e das
frentes de rio e de mar tem avançado - e bem - um pouco por todo o país numa
lógica de valorização do espaço público, mas muitas soluções, bisadas ad
nauseam de povoação em povoação, criaram lugares áridos, confundindo espaços
verdes com canteiros e dignidade com vastas praças empedradas onde pontuam
bancos mais ou menos desconfortáveis e nada mais. A quimera de que esses
recintos centrais, pela sua aridez propositada, iam ganhar pulso com sucessão
de iniciativas e como ponto de encontro das populações não se materializou e
são hoje - quase todo o ano - locais desprovidos de vida e vazios de risos,
convertidos, não raras vezes, em espaços informais de estacionamento de
automóveis, com o beneplácito das autoridades e das autarquias que fingem não
ver. Nas marginais, o destino é outro. Veio gente caminhar, correr e percorrer
ciclovias, todavia o desperdício também pontua em passeios tomados pelo granito,
com largas áreas de relva mal-amanhada desaproveitadas. Labora o erro de que o
desporto só se faz em pavilhões, em piscinas, em quadras formais ou em máquinas
de manutenção que exigem investimentos de milhares de euros. Mas não é assim e,
pela Galiza, não faltam bons exemplos de frentes de mar e de rio em que os
espaços não são apenas contemplativos e áridos. Têm balizas, cestos de
basquetebol e até redes de voleibol, sem a preocupação de pintar marcações
oficiais ou plantar pisos sofisticados. Em Gaia e em Matosinhos, por exemplo,
com o privilégio de ter uma larga frente marítima, sobram terrenos vazios e
contam-se, pelos dedos das mãos, os equipamentos de atividade física informal,
que deviam plantar-se em abundância pelas marginais, para que as crianças e os
jovens possam brincar na rua. Se lá estiverem, não faltarão utilizadores.
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Carla Sofia Luz – Jornal de Notícias - 5 de
janeiro, 2026