11.1.26

OPINIÃO: Soprar vida nos desertos


As cidades têm desertos. A requalificação dos espaços urbanos e das frentes de rio e de mar tem avançado - e bem - um pouco por todo o país numa lógica de valorização do espaço público, mas muitas soluções, bisadas ad nauseam de povoação em povoação, criaram lugares áridos, confundindo espaços verdes com canteiros e dignidade com vastas praças empedradas onde pontuam bancos mais ou menos desconfortáveis e nada mais. A quimera de que esses recintos centrais, pela sua aridez propositada, iam ganhar pulso com sucessão de iniciativas e como ponto de encontro das populações não se materializou e são hoje - quase todo o ano - locais desprovidos de vida e vazios de risos, convertidos, não raras vezes, em espaços informais de estacionamento de automóveis, com o beneplácito das autoridades e das autarquias que fingem não ver. Nas marginais, o destino é outro. Veio gente caminhar, correr e percorrer ciclovias, todavia o desperdício também pontua em passeios tomados pelo granito, com largas áreas de relva mal-amanhada desaproveitadas. Labora o erro de que o desporto só se faz em pavilhões, em piscinas, em quadras formais ou em máquinas de manutenção que exigem investimentos de milhares de euros. Mas não é assim e, pela Galiza, não faltam bons exemplos de frentes de mar e de rio em que os espaços não são apenas contemplativos e áridos. Têm balizas, cestos de basquetebol e até redes de voleibol, sem a preocupação de pintar marcações oficiais ou plantar pisos sofisticados. Em Gaia e em Matosinhos, por exemplo, com o privilégio de ter uma larga frente marítima, sobram terrenos vazios e contam-se, pelos dedos das mãos, os equipamentos de atividade física informal, que deviam plantar-se em abundância pelas marginais, para que as crianças e os jovens possam brincar na rua. Se lá estiverem, não faltarão utilizadores.

·         Carla Sofia Luz – Jornal de Notícias - 5 de janeiro, 2026