19.1.26

POSTAL DO DIA: Está viva a mulher que inventou a única canção que foi mais popular do que Grândola


Durante a revolução cantou a única música que foi mais popular do que Grândola. Continua viva, chama-se Ermelinda e a maioria de nós não faz ideia de que existe.

1. Nunca me cruzei com Ermelinda Duarte.

Não me lembro de que tenha acontecido, só do meu pai me falar do seu talento, da sua voz que inventava outras vozes.

Não por as imitar, mas por as dobrar tornando-as suas.

Se és da minha idade, cinquenta e picos, lembras-te do Tom Sawyer – foi ela quem recriou a voz de Tom.

E para teres uma ideia da sua mestria, chegou a fazer no mesmo episódio a voz de Tom e da sua namorada, a menina de boas famílias, a adorável Becky por quem certamente me apaixonei enquanto aprendia a ler e a contar.

2. Nunca troquei duas palavras com Ermelinda Duarte, mas é justo que se diga que a canção que compôs antes da revolução dos cravos, foi a mais popular entre todas as que nasceram por iniciativa do povo que cantava na rua.

É claro que houve o Depois do Adeus, mas foi o resultado da escolha dos militares, precisavam de uma canção popular que pudesse servir de senha e não despertasse atenções.

Agora, a canção de Ermelinda foi outra coisa.

Gravou-a para um teatro de revista, creio que no Vasco Santana, e depois a malta fê-la sua.

Tanto como Grândola.

Mais até do que Grândola porque as crianças usavam-na como refrão de regresso a casa.

Lembras-te?

“Uma Gaivota, voava, voava…

Asas de vento, coração de mar

Como ela, somos livres

Somos livres, de voar”

3. Bem, calo-me porque de outra maneira mudas de posto e a Ermelinda pode processar-me por atentado à sua eterna canção.

Este postal é para ela.

Por estar viva, por me dizerem que tem tanto de maravilhosa como de discreta.

4. A mulher que marcou um tempo, que inventou um hino, que fez um trabalho de mérito no teatro e nas dobragens – ainda há pouco tempo a sua voz era a da mãe do Gru, o Maldisposto…

… esta mulher decidiu que não desejava ser vista, ser olhada, ser reconhecida.

Fez o que tinha a fazer, fica na história, mas na maior parte da sua vida obrigou-se a uma clandestinidade muito própria, uma clandestinidade existencial.

Se tantos falam, ela fica em silêncio.

Sai com amigos, almoça, discute as coisas, é culta.

O meu pai dizia-me que era muito acima da média entre os que sabiam do que falavam.

Nasceu em Moçambique, creio que na antiga Lourenço Marques, veio estudar Filologia Germânica para a Faculdade de Letras, e fascinou-se com a arte e com os artistas.

Inventou canções e vozes.

E desapareceu da nossa vista, continuando a fazer parte de nós.

Dos que as lembram.

E até dos miúdos mais pequeninos que continuam a cantar o “Somos Livres” como apologia de futuro e da infância.

Querida Ermelinda, um dia almoçamos?

Eu gostava muito.

·         Luís Osório