13.1.26

SAÚDE: Pobreza barra acesso à saúde enquanto Governo impõe cortes arbitrários


O "Relatório de Acesso a Cuidados de Saúde 2025" revela que mais de metade dos cidadãos mais pobres não conseguem comprar os medicamentos prescritos. A Direção Executiva do SNS impõs quotas administrativas que limitam a contratação de enfermeiros e técnicos. O Bloco de Esquerda já confrontou a tutela.

Um "atentado à saúde pública" e a "rutura do contrato social". É assim que os dados mais recentes sobre o estado do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e as condições de vida em Portugal podem ser lidos. Dois documentos distintos, conhecidos esta semana, expõem a tempestade perfeita que se abate sobre o serviço público: por um lado, um relatório da Nova SBE que confirma que a pobreza é hoje a maior barreira à saúde, por outro, a notícia de que a tutela decidiu racionar a contratação de profissionais essenciais.

O deputado Fabian Figueiredo entregou na Assembleia da República duas perguntas dirigidas ao Ministério da Saúde, classificando a situação como uma "degradação da resposta pública" e questionando o Governo sobre o "colapso da equidade" no acesso aos cuidados.

52% dos mais pobres sem medicação

Os dados do "Relatório de Acesso a Cuidados de Saúde 2025", elaborado pela Nova School of Business and Economics, traçam um retrato devastador das desigualdades. Em 2025, 52% dos indivíduos do escalão económico mais desfavorecido não conseguiram adquirir toda a medicação necessária para tratar a sua doença devido à falta de dinheiro.

Este valor representa um agravamento brutal face a 2023, ano em que a probabilidade de não aquisição por motivos económicos se situava nos 41%. O fosso entre classes é abissal: a probabilidade de um cidadão pobre não se conseguir tratar é 51 pontos percentuais superior à registada nos grupos mais ricos.

Na pergunta ao Governo, o Bloco de Esquerda sublinha que os utentes estão a suportar, em média, custos diretos de 25 euros em farmácia, o valor mais alto desde 2015. Fabian Figueiredo questiona diretamente a tutela: "Como justifica o Governo que 52% dos cidadãos mais pobres não consigam comprar os medicamentos de que necessitam?". O partido exige saber se será aprovada uma revisão da estrutura de comparticipação para eliminar esta barreira de acesso.

Quem mais precisa é quem menos tem

O relatório confirma ainda que o SNS está a falhar precisamente a quem tem maior carga de doença. Enquanto 68,2% das pessoas com maiores privações económicas reportaram episódios de doença (contra apenas cerca de 37% nos que têm mais rendimentos), são estas que têm menos acesso a cuidados.

A cobertura de médicos de família caiu para 79% em 2025, mas a penalização é seletiva: nos escalões mais pobres, a cobertura é de apenas 71%, enquanto nos mais ricos chega aos 86%. O Bloco denuncia este "gradiente inverso de cuidados" e questiona como se garantirá que a alocação de recursos obedece à necessidade epidemiológica.

A falta de resposta - apenas 48,3% das primeiras consultas de especialidade foram realizadas dentro do tempo máximo garantido em setembro de 2025 -, está a empurrar os utentes para a automedicação e para o setor privado. O relatório nota que a falta de médico de família aumenta a probabilidade de automedicação, prática que já atinge 51,85% da população.

Governo impõe “bloqueio administrativo” às contratações

Enquanto os indicadores de acesso se degradam, o jornal Público revelou que a Direção Executiva do SNS enviou instruções às Unidades Locais de Saúde (ULS) impondo um limite de crescimento de apenas 2,4% para o pessoal não médico no biénio 2025-2026.

Esta medida, que deixa de fora apenas os médicos, atinge enfermeiros, técnicos de diagnóstico, assistentes técnicos e operacionais. Para muitas ULS que já atingiram os limites orçamentais, isto significa um impedimento prático à substituição de profissionais que se reformem ou saiam.

Na segunda pergunta dirigida ao Ministério, o Bloco de Esquerda classifica esta decisão como um "bloqueio administrativo à autonomia de gestão" e uma "política deliberada de degradação da resposta pública".

"A imposição de um teto arbitrário (...) cria um estrangulamento operacional imediato: a disponibilidade de equipas médicas torna-se inócua se não existirem enfermeiros para instrumentar cirurgias ou técnicos para realizar exames", lê-se no documento entregue pelos bloquistas.

O Bloco exige que o Governo explique a fundamentação técnica para este limite de 2,4% e se assume a responsabilidade política pelo aumento das listas de espera e cancelamento de cirurgias que resultarão da falta de equipas completas.

In www.esquerda.net - 13 de janeiro 2026