A ação de ontem da Câmara do Porto, de selar dois andares de um prédio
junto aos Clérigos onde estavam montados 19 quartos para imigrantes, espelha a
realidade vivida por muitos dos que aterram no país para trabalhar e caem nas
teias da máfia habitacional. Neste caso, por cada cama, pagavam 250 euros. Mas,
histórias semelhantes não faltam. Conheço três imigrantes que pagaram durante
alguns meses 1500 euros por três quarto-caixa de fósforos na Invicta, mas que
conseguiram entretanto ficar a pagar 500 euros por um T3 num concelho vizinho.
No ano passado, a PSP identificou na Área Metropolitana do Porto 56 alojamentos
ilegais que foram ocupados por cerca de 900 estrangeiros. A relação entre a
falta de oferta e a elevada procura transformou o mercado imobiliário do arrendamento
numa selva em que a dignidade humana é submetida à rentabilidade por metro
quadrado. Não, não são todos os senhorios. Há quem ainda tenha bom senso, quem
ainda tenha mais coração que barriga. O que vai acontecer a estes 50 imigrantes
do Bangladesh, da Índia e do Nepal? Vão transferir-se, provavelmente para
outros edifícios sobrelotados, que começam a abundar fora do centro histórico.
Em algum local têm de viver, e quem passa na VCI vê que as moradas debaixo de
alguns viadutos estão já ocupadas. Há mantas e tendas um pouco acima da
correria rodoviária de todos os dias, sem código postal. O problema da
habitação é que é democrático, atinge os jovens, que não têm como sair de casa
dos pais, a classe média, com salários curtos para o aumento do custo de vida e
as frondosas contas do supermercado, no limite mais baixo, os pobres, e, no
subsolo, ataca os imigrantes, que andam a fugir de inspeções, mas que não viram
alternativa se não sujeitarem-se a uma cama num andar sobrelotado, ao lado dos
Clérigos.
*Joana Almeida Silva – Jornal de Notícias - 22 de janeiro, 2026
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