20.1.26

OPINIÃO: Ventura sonha perder eleição


Ninguém duvida que André Ventura tentará o melhor resultado possível na segunda volta das presidenciais contra António José Seguro. No entanto, o sonho do líder do Chega é substituir Luís Montenegro como figura maior de toda a Direita ou, usando as palavras do próprio, anteontem à noite, "liderar o espaço não socialista em Portugal". Sentar-se na cadeira presidencial do Palácio de Belém, onde a influência sobre o país real se resume ao poder de dissolver o Parlamento (não é para todos os dias), a vetos, a maioria dos quais reversíveis, e à "magistratura de influência" é muito pouco para a sua ambição. O seu objetivo é mimetizar Viktor Órban, primeiro-ministro húngaro, ou, num cenário mais suave, ser um líder à imagem e semelhança da italiana Giorgia Meloni.

Ambos terão a perder se enveredarem, nesta segunda volta, pelo ataque pessoal. A lição que podemos tirar do embate entre Gouveia e Melo e Marques Mendes é que ambos nada ganharam com o foco negativo no adversário e a deficiente defesa face a tais investidas, independentemente de quem tinha razão. O debate entre os dois "finalistas" será certamente animado, pelo menos do ponto de vista político, para que os eleitores percebam bem "o oceano de diferenças" que os separa, como sublinhou Seguro. Se o apoio comunista, bloquista e do Livre ao socialista é já um facto consumado, há largos milhares que ficaram órfãos, uma vez que optaram por Cotrim de Figueiredo, por Marques Mendes ou até pelo almirante. Uma parte substancial do próprio eleitorado AD não quis votar no seu candidato oficial.

O que país pode estar certo é que Ventura reclamará sempre o título de líder da Direita, mesmo que perca, o que ele no fundo deseja. E esse facto, só por si, vai ser uma ameaça constante à governação de Montenegro.

Pedro Araújo – Jornal de Notícias -20 de janeiro, 2026

IMAGEM - A neutralidade - Cartoon de Vasco Gargalo