É TRISTE VIVER NO MUNDO!
É triste viver no
mundo!...
Parado sempre num
sítio,
Para quem tem um
certo fundo
E pensa no infinito.
I
A nossa raça lusitana
Tem por instinto
emigrar.
Eu morro sem me
afastar
Desta aldeia
alentejana,
Não conheço o
Guadiana
Nem passei ao
Dafundo;
Não passo de um
vagabundo
Neste concelho de
Nisa.
Para gente que
idealiza
É triste viver no
mundo!...
II
Os homens já vão à
lua
E mandam sondas a
marte,
Já vão indo a tanta
parte...
Eu um triste homem da
rua
Se a vida assim
continua,
Alguns sábios têm
escrito
Está para vir o mais
bonito,
E eu sem nada
conhecer!
É triste assim o
viver
Parado sempre num
sítio.
III
Eu queria ir a Berlim
Eu queria ir à
Somália,
Eu queria ir à
Austrália,
Eu queria ir a
Bombaim,
Eu queria ir a
Pequim,
Queria ver o Mao Tsé
Tung
De segundo para
segundo
Esquece-me o que eu
aprendi(m)
É triste o viver
assim
Para quem tem um
certo fundo.
IV
Quando o Galileu
disse um dia
Até o quiseram matar,
Ninguém queria
acreditar
Que a terra se movia.
O sábio a lei
descobria,
Um cometa sem limite.
Eu nem o país que
habito
Conheço de norte a
sul
Sou um insecto no
casulo,
A pensar no infinito.
* José António Vitorino (Ti Zé do Santo)
