24.2.26

OPINIÃO: A humildade


A quinze de fevereiro de 1941 um ciclone assolou a Península, matando mais de cem pessoas e provocando um rasto de destruição, inundação e desespero. Os ventos, superiores a 200 km por hora, arrancaram árvores pela raiz e ceifaram troncos ao meio, com uma violência impressionante. Uma dessas árvores foi um cedro majestoso, da minha família, cuja fotografia está, até hoje, na sala de visitas, entre os retratos sépia de outros antepassados. No seu lugar, para compensar a perda, foi plantado outro cedro, que está ainda mais majestoso e que, felizmente, escapou ao comboio de tempestades que assolou a Península neste fevereiro de 2026.

Lembrei-me disso ao ouvir o presidente da Câmara de Leiria dizer que uma das grandes perdas da cidade foi ter ficado sem as suas árvores. Todas. As centenárias e as mais recentes. Não imagino o luto coletivo de olhar para uma cidade sem árvores. Mesmo que, no meio de tantas vítimas, casas destruídas e negócios arruinados, a perda das árvores pareça de somenos, a verdade é que não será no nosso tempo de vida que voltaremos a ver Leiria com árvores de grande porte, maduras, majestosas. Qualquer pessoa sensível compreende a tristeza dessa perda e a importância de rearborizar rapidamente, senão para nós, para os nossos filhos e netos. É essa generosidade intergeracional que nos deve mover, não apenas nas árvores, mas nas obras públicas que temos de fazer para repor o que foi destruído e para nos adaptarmos aos novos riscos climáticos.

Se, no passado, se construiu em leito de cheia e se tentou conter e encanar rios como no Mondego, sabemos agora o custo dessas decisões e os perigos de "brincar a deus", tentando mudar o curso das águas, contra as quais pouco podemos em hora de fúria. Como começamos a saber o preço humano e material que pagamos pelas alterações climáticas, tendo cada vez maior responsabilidade de fazer diferente. E se há quem, por trauma das últimas semanas, teme a presença das árvores no espaço público, por perigo de queda e morte de pessoas ou esmagamento de casas e automóveis, é importante esclarecer que são elas que, em boa medida, nos ajudam a mitigar tudo isto. São as árvores que baixam as temperaturas elevadas no espaço urbano durante as ondas de calor (que se esperam cada ano mais frequentes), compensam o CO2 que continuamos a produzir, além de serem elementos de absorção de água nas alturas de grande precipitação.

É preciso que fique óbvio para todos que temos de ter mais superfícies permeáveis nas nossas cidades, sendo Setúbal um ótimo exemplo disso. Nas últimas semanas, a sua bacia de retenção (que não é mais que um grande parque urbano) conseguiu absorver e conter, em boa medida, a subida do Sado e de outros cursos de água. Ora, isso é ciência, mas é também simbólico, demonstrando que temos muito que aprender com os processos naturais e que a "engenharia do futuro" passa muito por otimizar aquilo que a natureza faz de graça, por todos nós. Ter essa humildade pode salvar muitas vidas.

Capicua – Jornal de Notícias - 17 de fevereiro, 2026