Lembrei-me
disso ao ouvir o presidente da Câmara de Leiria dizer que uma das grandes
perdas da cidade foi ter ficado sem as suas árvores. Todas. As centenárias e as
mais recentes. Não imagino o luto coletivo de olhar para uma cidade sem
árvores. Mesmo que, no meio de tantas vítimas, casas destruídas e negócios
arruinados, a perda das árvores pareça de somenos, a verdade é que não será no
nosso tempo de vida que voltaremos a ver Leiria com árvores de grande porte,
maduras, majestosas. Qualquer pessoa sensível compreende a tristeza dessa perda
e a importância de rearborizar rapidamente, senão para nós, para os nossos
filhos e netos. É essa generosidade intergeracional que nos deve mover, não
apenas nas árvores, mas nas obras públicas que temos de fazer para repor o que
foi destruído e para nos adaptarmos aos novos riscos climáticos.
Se,
no passado, se construiu em leito de cheia e se tentou conter e encanar rios
como no Mondego, sabemos agora o custo dessas decisões e os perigos de
"brincar a deus", tentando mudar o curso das águas, contra as quais
pouco podemos em hora de fúria. Como começamos a saber o preço humano e material
que pagamos pelas alterações climáticas, tendo cada vez maior responsabilidade
de fazer diferente. E se há quem, por trauma das últimas semanas, teme a
presença das árvores no espaço público, por perigo de queda e morte de pessoas
ou esmagamento de casas e automóveis, é importante esclarecer que são elas que,
em boa medida, nos ajudam a mitigar tudo isto. São as árvores que baixam as
temperaturas elevadas no espaço urbano durante as ondas de calor (que se
esperam cada ano mais frequentes), compensam o CO2 que continuamos a produzir,
além de serem elementos de absorção de água nas alturas de grande precipitação.
É
preciso que fique óbvio para todos que temos de ter mais superfícies permeáveis
nas nossas cidades, sendo Setúbal um ótimo exemplo disso. Nas últimas semanas,
a sua bacia de retenção (que não é mais que um grande parque urbano) conseguiu
absorver e conter, em boa medida, a subida do Sado e de outros cursos de água.
Ora, isso é ciência, mas é também simbólico, demonstrando que temos muito que
aprender com os processos naturais e que a "engenharia do futuro"
passa muito por otimizar aquilo que a natureza faz de graça, por todos nós. Ter
essa humildade pode salvar muitas vidas.
Capicua
– Jornal de Notícias - 17 de fevereiro, 2026
