16.2.26

NISA: Conheça os poetas do concelho (LXVII) - António Borrego

 


Das rosas brancas que nunca te dei

Só regresso ao papel em branco

quando imagino sensações, emoções e dores

que há no corpo dos poemas...

ou quando os meus olhos ficam doentes

por não verem para além do imediato

sem saberem discernir com lucidez

fico então impassível e ferido...

qualquer coisa febril que me põe sonâmbulo

há um movimento invisível, uma vibração que...

despoleta as coisas...

oh a delícia de ser, um ser pensante...humanamente pensante...

que tem no rosto a fluidez do sonho e no olhar

alguma alegria...tinta de sangue...

e, não podes fugir de ti mesmo, nem dessa voz que te grita aos ouvidos...dia e noite...

serão os anjos que tentam salvar-me a alma?

desses que me falavas em criança?

(até tinha um anjo da guarda que tu Mãe, me pedias para rezar)

depois, instalou-se este frio que, até dilata a íris...

e, esta doida gargalhada que se entrava na garganta

ser este ser, que à força de sofrer...ainda ri...

este riso que reboa como um trovão...

naquela eterna busca...quem sou eu afinal?...

sabes Mãe?

vou rindo, fingindo e mentindo...enquanto eles dizem...

vamos ficar todos bem

vivos? nem todos, nem todos...

felizmente um grito do passado, por vezes acorda-me...

por aqui ando, impossível de aturar...

e à míngua de versos...a mente já me prega partidas...

a falta de inspiração ou motivo

remete-me para uma pasmaceira sem precedentes

continuo à espera que este vazio sentido

comece a ser...definitivamente puro...

a paz foge...cheia de pressa...

o anjo da infância continua oculto

nunca mais senti a presença ilusória dele...

hoje não te consigo falar das rosas brancas que tanto gostavas

daquelas que nunca te dei...

e se alguém as merecia...eras tu Mãe.

A.B. 2022.