1.2.26

OPINIÃO: A cartilha dos populistas


Inimigos do povo, pessoas terríveis, injustos, insetos, agentes de interesses. O ataque aos jornalistas e ao jornalismo não é novo e faz parte de uma estratégia argumentativa cada vez mais comum entre populistas.

A retórica que está na cartilha deste tipo de atores políticos é simples. Serve para fugir a perguntas incómodas, desviando a atenção do assunto em causa, e, em simultâneo, para mobilizar apoiantes contra um adversário... inexistente. Foi exatamente o que fez o candidato presidencial André Ventura durante a entrevista que deu na quarta-feira à noite à RTP1. Quando confrontado sobre as ligações de militantes neonazis ao Chega, o candidato optou por não responder à questão, mas, sim, atacar quem a colocou. Já vimos isto, várias vezes, noutras latitudes.

Visivelmente irritado com as alegadas ligações do movimento 1143 ao partido, acusou os órgãos de comunicação social de estarem "invadidos pela extrema-esquerda" e de desvalorizarem "tudo o que é violador, assaltante e bandido que entra em Portugal". Deslegitimou a Imprensa e transferiu a narrativa para a área que lhe era mais conveniente. Em vez de responder às questões sobre as detenções de elementos de uma alegada rede criminosa que apelou abertamente ao voto em André Ventura, usou a técnica já conhecida.

Há pouca criatividade. Donald Trump tem classificado várias vezes a Imprensa como sendo "inimiga do povo", o líder húngaro Viktor Orbán já catalogou os jornalistas como "agentes de interesses estrangeiros" e o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro rotulou repetidamente reportagens desfavoráveis como "fake news".

A cópia é sempre pior do que o original.

·         Manuel Molinos – Jornal de Notícias - 23 de janeiro, 2026

 * Cartoon de Henrique Monteiro