A retórica
que está na cartilha deste tipo de atores políticos é simples. Serve para fugir
a perguntas incómodas, desviando a atenção do assunto em causa, e, em
simultâneo, para mobilizar apoiantes contra um adversário... inexistente. Foi
exatamente o que fez o candidato presidencial André Ventura durante a
entrevista que deu na quarta-feira à noite à RTP1. Quando confrontado sobre as
ligações de militantes neonazis ao Chega, o candidato optou por não responder à
questão, mas, sim, atacar quem a colocou. Já vimos isto, várias vezes, noutras
latitudes.
Visivelmente
irritado com as alegadas ligações do movimento 1143 ao partido, acusou os
órgãos de comunicação social de estarem "invadidos pela
extrema-esquerda" e de desvalorizarem "tudo o que é violador,
assaltante e bandido que entra em Portugal". Deslegitimou a Imprensa e
transferiu a narrativa para a área que lhe era mais conveniente. Em vez de
responder às questões sobre as detenções de elementos de uma alegada rede criminosa
que apelou abertamente ao voto em André Ventura, usou a técnica já conhecida.
Há pouca
criatividade. Donald Trump tem classificado várias vezes a Imprensa como sendo
"inimiga do povo", o líder húngaro Viktor Orbán já catalogou os
jornalistas como "agentes de interesses estrangeiros" e o
ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro rotulou repetidamente reportagens
desfavoráveis como "fake news".
A cópia é
sempre pior do que o original.
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Manuel Molinos – Jornal de Notícias - 23 de
janeiro, 2026
