27.1.26

OPINIÃO: "Sim, é fascismo"


O termo fascismo sempre foi usado de forma livre nas disputas políticas, muitas vezes até como piada, de forma conscientemente exagerada. Mas o caso está a mudar de figura nos EUA, com um regime autoritário a tentar mudar a face de um país que, em tempos, foi considerado por alguns como o farol da democracia - também sabemos que era uma afirmação claramente exagerada.

"Sim, é fascismo" é o título de um artigo da revista "The Atlantic", que explica detalhadamente a razão que leva o autor, até aqui cético em utilizar o termo, a afirmar sem qualquer pudor que, ainda que o país não se tenha tornado fascista, o Governo de Trump é fascista. O canário na mina já morreu há muito, mas o rápido declínio das instituições e o uso de violência policial indiscriminada nas ruas tornaram tudo mais evidente.

Percorrer a lista elaborada por Jonathan Rauch é assustador. Nenhum dos problemas - como a retórica belicista, a politização das forças de segurança, a desumanização do outro, a interferência na política noutros países ou o descrédito do processo eleitoral - é novo, mas a síntese numa página de todos estes pontos é um murro no estômago que não deixa dúvidas.

Desengane-se quem pensa que é um problema americano e que nós, aqui na Europa, estamos livres. Lembram-se quando a extrema-direita não iria chegar ao nosso país de "brandos costumes"? Quero crer que estamos longe de algo ao nível de barbárie a que se assiste nos EUA, mas os sinais estão cá: discurso inflamado contra imigrantes, desumanizando-os; desinformação; apelos a uma polícia desregrada; uma espécie de milícia neonazi que advoga uma pureza racial do país. Bastou um ano de Trump para se mergulhar nas trevas. Quanto tempo aguentaríamos nós?

·         Luís Pedro Carvalho – Jornal de Notícias -27 de janeiro, 2026

**   Cartoon de Vasco Gargalo