25.1.26

OPINIÃO: Os "nem-nem" presidenciais


Na política como na vida, as opções que tomamos refletem-se na definição do nosso caráter e personalidade. E também aqueles de quem nos rodeamos ajudam a esculpir as nossas balizas morais, contaminando, positiva ou negativamente, a nossa imagem. O Chega, e o seu líder, são um caso paradigmático de autodestruição de credibilidade consentida, porquanto foram recrutando para os seus quadros, ao longo dos anos, com maior ou menor responsabilidade, elementos acusados de prostituição de menores, fuga ao fisco, agressão, furto de malas e, mais recentemente, apaniguados do movimento nacionalista e neonazi 1143. Sentado confortavelmente em cima de um milhão de votos, André Ventura parece resistir a tudo, reagindo aos escândalos com a energia de um fogueteiro desabrido que lança pirotecnia em todas as direções. A culpa é dos jornalistas, a conversa dos extremismos "é uma palhaçada", tudo não passa de uma campanha de "ódio" contra ele, o homem providencial. O albergue espanhol em que se transformou o Chega não apaga os fundamentos da sua narrativa divisionista, perigosa e, em vários domínios, antidemocrática. Tudo assente no ego desmesurado de um timoneiro encandeado pelas luzes.

André Ventura não engana ninguém. Todos sabemos ao que vem e o que quer. Na segunda volta das presidenciais, os "nem-nem", que não apoiam nem Seguro nem Ventura, como Luís Montenegro, ficarão para a História como passivos-ativos que se refugiaram na hibridez calculista e não tiveram a coragem de dizer uma coisa tão simples e definidora como esta: havendo dois pratos na mesma, há um que me recuso a comer. Cotrim de Figueiredo acordou tarde, mas fê-lo.

Pedro Ivo Carvalho – Jornal de Notícias - 24 de janeiro, 2026