Na política como na vida, as opções que tomamos refletem-se na
definição do nosso caráter e personalidade. E também aqueles de quem nos
rodeamos ajudam a esculpir as nossas balizas morais, contaminando, positiva ou
negativamente, a nossa imagem. O Chega, e o seu líder, são um caso paradigmático
de autodestruição de credibilidade consentida, porquanto foram recrutando para
os seus quadros, ao longo dos anos, com maior ou menor responsabilidade,
elementos acusados de prostituição de menores, fuga ao fisco, agressão, furto
de malas e, mais recentemente, apaniguados do movimento nacionalista e neonazi
1143. Sentado confortavelmente em cima de um milhão de votos, André Ventura
parece resistir a tudo, reagindo aos escândalos com a energia de um fogueteiro
desabrido que lança pirotecnia em todas as direções. A culpa é dos jornalistas,
a conversa dos extremismos "é uma palhaçada", tudo não passa de uma
campanha de "ódio" contra ele, o homem providencial. O albergue
espanhol em que se transformou o Chega não apaga os fundamentos da sua
narrativa divisionista, perigosa e, em vários domínios, antidemocrática. Tudo
assente no ego desmesurado de um timoneiro encandeado pelas luzes.
André Ventura não engana ninguém. Todos sabemos ao que vem e o que
quer. Na segunda volta das presidenciais, os "nem-nem", que não
apoiam nem Seguro nem Ventura, como Luís Montenegro, ficarão para a História
como passivos-ativos que se refugiaram na hibridez calculista e não tiveram a
coragem de dizer uma coisa tão simples e definidora como esta: havendo dois
pratos na mesma, há um que me recuso a comer. Cotrim de Figueiredo acordou
tarde, mas fê-lo.
Pedro Ivo Carvalho – Jornal de Notícias - 24 de janeiro, 2026
