Mas o resultado não deixa de ser inédito e extraordinário. Porque, pela
primeira vez neste pouco mais de meio século de democracia, os portugueses
serão confrontados, na segunda volta, a 8 de fevereiro, a fazer uma escolha
entre um candidato centrista e moderado, alguém que chegou a ser
secretário-geral do PS, e um candidato que representa a Direita mais extrema, o
fundador e líder do Chega.
De um lado, teremos então António José Seguro, que representa os
valores republicanos, humanistas e democráticos, por frágeis que eles por vezes
se revelem, alguém que defende um país "plural e inclusivo". Do
outro, teremos André Ventura, que sustenta o seu discurso e as suas ideias na
exclusão e na divisão, entre portugueses e imigrantes, e até entre os que
define como portugueses "de bem" e os outros. Um líder político que
assume que quer derrubar o sistema e que, é importante lembrar, porque as
palavras contam, já defendeu, e repetiu, que Portugal precisa, não de um, mas
de três Salazares.
Nos cenários que se traçavam ainda antes desta primeira volta, dava-se
conta de uma grande fragilidade de André Ventura: a sua taxa de rejeição é tão
elevada que seria derrotado, qualquer que fosse o adversário numa segunda
volta. Mas numa democracia nada pode ser dado por adquirido. Terminada a
contagem, a seguinte recomeça do zero. E é por isso que a posição dos
diferentes atores políticos, e em particular dos mais relevantes, num quadro
inédito e extraordinário como este, é muito relevante.
Ora, aquele cuja palavra teria mais peso decidiu não tomar partido.
Luís Montenegro, primeiro-ministro e líder do PSD, o maior partido português,
que, além de chefiar o Governo, lidera as duas regiões autónomas e a maioria
das autarquias do país, optou pelo conforto da ambiguidade. Não considera que o
seu espaço político fique representado na segunda volta, porque Seguro está à
sua Esquerda e Ventura está à sua Direita, tratando-os como se fossem figuras
equivalentes. Optou pela tática, em vez da estratégia.
André Ventura é um político divisionista, mas também é astuto e inteligente. E já anunciou ao que vem, reclamando para si a liderança da Direita. Ainda não a tem. E, previsivelmente, será derrotado na segunda volta destas eleições presidenciais. Mas, qualquer que seja o resultado de 8 de fevereiro, já sairá deste processo reforçado. O futuro dirá à custa de quem e de quê.
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Direção – Jornal de Notícias - 19 de janeiro,
2026
