Juventude anima ensaios
Fundada há 145 anos, a Sociedade Filarmónica Alpalhoense passou grande parte da sua existência com a "casa às costas", mudando de um local para outro, ao sabor das circunstâncias e dos entusiasmos ou desalentos gerados em cada época.
Agora, algo mudou. As novas instalações, inauguradas recentemente, recebem ao princípio da noite, a alegria e o fulgor de uma juventude que não despreza os ensinamentos dos mais velhos e quer através da música perpetuar uma das mais valiosas tradições culturais de Alpalhão.
Uma parte das antigas instalações da Casa do Povo,
situada no principal largo de Alpalhão, enche-se de risos e de bulício, próprio
dos jovens, duas ou três noites por semana, enquanto não começam os ensaios da
Banda.
O maestro, Humberto Damas, também ele um jovem de 29 anos, vem do Crato e é o primeiro a chegar, carregado de entusiasmo e disponível para transmitir os conhecimentos adquiridos em dois anos e meio na prestigiada Banda do Exército e em cursos de regente de bandas filarmónicas. É assim desde há seis anos, que compartilha com igual função na Banda do Crato. Serralheiro civil de profissão e com uma oficina em Portalegre, este jovem maestro bem gostaria que as condições fossem diferentes e lhe permitissem dedicar-se, por inteiro, àquilo de que mais gosta: o ensino da música.
Mas, como diz, "a música não dá para viver"
e conciliar as duas actividades obriga a algum esforço, não tanto pelo
dinheiro, mas por uma causa maior que abraçou e que se chama amor pela música.
Enquanto o grande salão se vai enchendo de sons, cada executante procurando afinar os sopros e recriar à sua maneira, um êxito do momento ou peças musicais mais antigas, Humberto Damas, fala-nos da Banda e da disposição que encontrou para a reforçar, um trabalho que entende ser difícil, mas que começa a ser visível, com a entrada de novos executantes, após o ciclo de aprendizagem. O maestro reconhece também a melhoria das instalações e assegura que "há agora melhores condições para se poder trabalhar".
A sala de ensaios no edifício da Junta, além de ser um espaço inadequado, era partilhado por outra associação, o Grupo Desportivo com manifesto prejuízo para ambas as colectividades.
As obras de remodelação fizeram surgir um espaço
independente, com salas para as reuniões da direcção, um pequeno bar,
sanitários e um amplo salão que tanto pode servir para os ensaios da Banda,
como para outras actividades que a mesma entenda promover.
Inauguradas no dia 3 de Setembro, numa jornada festiva
em que participou a Banda de Alvega, a convite da SFA, houve uma sessão pública
com a presença dos presidentes da Câmara de Nisa e da Junta de Freguesia de
Alpalhão para além de outras entidades. Após a actuação das bandas, seguiu-se
um lanche comparticipado pela Junta e pela direcção da Filarmónica Alpalhoense.
Para a Ana Mendes, 17 anos, estudante de Humanidades, no 12º ano, em Portalegre, as instalações "são muito melhores, sem comparação". A Ana anda na Banda há três anos. Toca clarinete e foi uma das jovens que se estreou a tocar, por ocasião da festa do Mártir Santo, no início deste ano. Como ela, há mais sete raparigas a tocar na Banda. Vieram por entenderem a música como "um meio de convívio e um grupo de amigos, para além de constituir uma forma de aprendizagem e valorização cultural".
"Há sete crianças e jovens na Escola de Música,
entre os 8 e os 12 anos, a aprender o solfejo - informa o maestro Humberto.
"A Banda tem 27 elementos executantes. Não são muitos, mas os que estão
fazem um esforço e gostam de aprender. Alguns têm outras actividades, jogam futebol,
vão aos treinos e depois vêm aos ensaios. Hoje estão aqui 16. O importante é
ter os jovens ocupados, a fazer aquilo que gostam, seja no desporto ou na
música, para que se sintam valorizados".
Luísa Maia, tem 19 anos, toca saxo-alto e estuda para
ser educadora de infância. Veio para a Banda porque "gosto da música e
segui os passos do meu namorado e de amigos". A jovem não tem dúvidas em
apontar a melhoria das instalações e as condições de ensaio qde passaram a
dispor.
Bairrista, Luísa deixa um apelo: "Acho que as pessoas, nomeadamente, os jovens de Alpalhão deviam puxar mais pela Banda e pelas colectividades. São coisas nossas que não podemos deixar perder".
A Sociedade Filarmónica Alpalhoense ocupa, agora, o
espaço próprio que há muito reclamava para si e que fez por merecer. Nele,
podemos encontrar jovens como o Fábio Junceiro, que na "verdura" dos
seus 12 anos, evidencia um tão grande entusiasmo como os senhores José Barradas
e Manuel Pimenta, músicos mais velhos e dedicados.
A música proporciona este "convívio de
gerações", esta aprendizagem nos dois sentidos, motivo por que é
considerada uma linguagem universal.
O maestro acha que a conversa já vai longa, pega na
batuta, pede concentração e arranca com o Hino da Maria da Fonte. Cá fora, no
largo imenso, não se vê viválma. Mas, os acordes saídos dos sopros e das
batidas dos jovens instrumentistas, enchem de cor e vida, o coração palpitante
da terra dos granitos.
Mário Mendes in "Jornal de Nisa" nº 193 - 26 Out. 2005





