12.2.26

ENSINO: Alarmismo não resolve: qual é o verdadeiro ataque à carreira docente?

 

O futuro da carreira docente tem sido tema de discursos alarmistas: os professores estariam prestes a deixar a Administração Pública. Não é assim. Insistir nesse discurso não contribui para enfrentar os verdadeiros ataques hoje feitos aos professores e à escola.

Desde o final da década de oitenta do século passado, que a carreira beneficia de um estatuto próprio, enquanto corpo especial, regulada pelo Estatuto da Carreira Docente. Esse enquadramento, conquistado pela luta dos professores, reconheceu a especificidade da profissão e garante regras próprias em matérias centrais: regimes específicos de concursos, progressão na carreira, avaliação, horários, aposentação, entre outros. Anos mais tarde, passou a incluir também o estatuto remuneratório.

Em 1989, com a criação dos chamados corpos especiais do Estado, os professores passaram a dispor de um regime próprio, à semelhança de outras profissões da função pública. Esse estatuto permitiu, ao longo dos anos, preservar direitos e resistir a sucessivas tentativas de uniformização. Mas também desde cedo este estatuto especial foi alvo de ataques por parte de diferentes governos.

Um momento decisivo ocorreu em 2008, durante o governo de José Sócrates, com Maria de Lurdes Rodrigues no Ministério da Educação. A chamada reforma dos vínculos, carreiras e remunerações abriu caminho à extinção de muitas destas carreiras e à integração de muitas delas no regime geral da Administração Pública, como por exemplo, os enfermeiros. Embora a carreira docente tenha resistido formalmente, ficou claro que o objetivo era, a prazo, diluir a sua especificidade.

Desde então, as tentativas de descaracterização não cessaram. Repetiram-se com diferentes ministros, sob diferentes pretextos, recorrendo a mecanismos cada vez mais discretos.

Estatuto da Carreira do Docente, o alvo de sempre

Hoje, esse caminho reaparece através da introdução do Referencial de Competências para a Administração Pública (ReCAP) no processo de revisão do Estatuto da Carreira Docente. O ReCAP não é um instrumento neutro. Foi concebido para enquadrar trabalhadores num modelo de gestão padronizado, hierarquizado e orientado por critérios administrativos. A sua aplicação aos docentes significa abrir a porta à generalização da avaliação burocrática, ao reforço do poder das direções e à aproximação progressiva ao regime geral.

Se este processo se consolidar, as consequências serão profundas e gravosas para todos os docentes. Os concursos nacionais ficam fragilizados. A contratação torna-se mais dependente das direções. A avaliação transforma-se num instrumento de controlo. A progressão na carreira fica cada vez mais condicionada. O Estatuto da Carreira Docente pode ser esvaziado, reduzido a um enunciado formal sem capacidade efetiva de proteção dos direitos profissionais.

Não estamos, portanto, perante qualquer saída da Administração Pública. Estamos perante algo mais subtil, embora também perigoso: um processo gradual de erosão da carreira, de perda de autonomia profissional e de submissão da escola pública a lógicas de gestão próximas do modelo empresarial.

O alarmismo não ajuda a travar este caminho. Pelo contrário, semeia confusão e fragiliza a mobilização: quando os cenários traçados não se confirmam, fica mais fácil o discurso de quem desvaloriza as preocupações dos professores. O que é necessário é clareza e rigor, organização coletiva e luta.

A defesa da Escola Pública faz-se com professores valorizados, com estabilidade profissional e com identidade própria. Faz-se recusando modelos que promovem a competição em vez da cooperação, o controlo em vez da confiança, a precariedade em vez da estabilidade e dignidade.

Num contexto de rápido aumento da média etária dos professores, de crescente falta de docentes e de degradação das condições de trabalho, persistir na descaracterização da carreira é um erro político grave. Defender o Estatuto da Carreira Docente não é corporativismo: é defender o direito de todos a uma educação pública de qualidade, democrática e comprometida com os valores de Abril.

* Cátia Domingues – esquerda.net - 05 de fevereiro 2026

Professora, vice-presidente do SPGL