"Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo... Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer" (Alberto Caeiro).
No Interior, governa-se para e com pessoas reais, gerem-se territórios vastos e problemas que não cabem em macroestatísticas frias e apressadas.
As
exigências de um autarca do Interior não são maiores do que no Litoral. Não
são, também, menores... São, seguramente, muito distintas! Não nascem de
projetos megalómanos, de figuras públicas, nem de agendas facciosas.
Nascem da
realidade, paradoxalmente diária e estrutural. Da falta de serviços de saúde,
de pessoas, da necessidade de fazer chegar saneamento e água a aldeias com um
punhado de residentes, de empresas que esbarram na falta de acessibilidades,
mão de obra ou de incentivos. Nascem, sobretudo, da sensação persistente de que
o Interior faz sempre parte dos discursos sobre coesão, mas continua a ser tratado
como uma nota de rodapé.
Não
obstante, é um erro olhar para o Interior focando apenas as suas fragilidades.
Este território concentra muitas das maiores riquezas do país.
No Interior,
respira-se espaço, qualidade de vida, identidade e capacidade de inovar. É com
este território que um país pequeno se torna grande - e único.
A região do
Douro, a maior e mais antiga Região Demarcada do Mundo - prestígio para o país
e um lugar que ultrapassa fronteiras -, é apenas um exemplo, à semelhança de
tantos outros do nosso Interior.
O Interior
pode ser central na valorização do património, na floresta, na agricultura
sustentável, na transição energética, nas condições únicas por explorar para
atrair projetos diferenciadores.
Exigir
melhores acessibilidades não é pedir luxo. É criar condições ao transformar
potencial em desenvolvimento. Uma estrada não serve apenas os de cá, serve o
país, ao garantir um ordenamento territorial competitivo e equilibrado.
O Interior
não precisa de assistencialismos, é credor, sim, de políticas ajustadas à sua
realidade, estáveis e inteligentes.Esta não é uma crónica de queixa, é uma
afirmação de futuro.
O futuro do
país não se constrói prescindindo de dois terços do todo nacional. Constrói-se
inteiro; também aqui, onde há terra, pessoas e potencial, aproveitando a
iniciativa e a energia deste território.
O Interior
não é um problema a gerir. É cada vez mais uma oportunidade a assumir!
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Manuel Cordeiro - Presidente da Câmara Municipal
de S. João da Pesqueira - 9 de fevereiro, 2026 in Jornal de Notícias
