22.2.26

MEMÓRIA DO "Jornal de Nisa" - Entrevista a Rosário Bello - nº201 - 15 Fevereiro 2006


 
“Em todas as minhas pinturas está sempre presente um pedaço do meu Alentejo” - Rosário Bello
Como um bom filho que à casa torna, Rosário Bello está, de novo, em Nisa, mostrando os seus quadros na Biblioteca Municipal. A exposição foi o pretexto para uma conversa com esta jovem pintora nisense, que nos revela um pouco dos seus sonhos e projectos, ou, para sermos mais precisos, das suas viagens. É nelas que  ...viajo pela cor e em meus dedos, a busca de um sentido e num momento, é na nobre tela, muitas vezes que eu encontro, o espelho da minha alma, o reflexo do meu sentir...”

Como surgiu e desenvolveu o interesse pela pintura e, num sentido mais amplo, pela actividade artística?

É costume dizer-se que já nasce connosco. De qualquer modo eu desde pequena que gosto de desenhar, somos 4 irmãos na família e o João Francisco era o que também nutria esse gosto pelo desenho, logo, eu descobri que gostaria de saber desenhar assim como o meu irmão “mais velho”. No fundo, filho de peixe... e não desfazendo, o meu pai Joaquim Rosado Belo, (torneiro -mecânico /reformado) tinha muito jeito para transformar objectos de metal e madeira , diria que, em verdadeiras “obras de arte”,com o seu toque pessoal, assim como a minha mãe Leonor que tem o dom para os bordados (de Nisa), bilros, rendas, etc...

No entanto, foi a trabalhar no Centro de Cultura e Desenvolvimento de Vila Velha de Ródão sob a responsabilidade da Dra. Graça Baptista, que fui incentivada a participar na minha 1.ª Exposição de Pintura/ Colectiva -  Correntes do Tejo”, no ano de 1996, na Galeria do C.M.C.D., em Vila Velha de Ródão.

Sente-se próxima ou influenciada por alguma corrente ou movimento estético? Como definiria a sua pintura?

            Quanto a esses aspectos, apenas tenho a dizer que, não tenho formação alguma a esse nível, simplesmente gosto de pintar, principalmente óleo sobre madeira (com os dedos, sem a técnica do pincel), o que implica uma certa dificuldade pois tem a ver com a sensibilidade da pele, não pode ser feito com luvas. Gosto do tema “África”, nunca lá estive mas... “faço viagens ao meu humilde Universo”, imagino as cores, o povo, costumes etc. Já decorei paredes, pintei cerâmica, tela, vidro, mas uma coisa é certa, cada artista tem a sua maneira de pintar o seu traço pessoal e intransmissível.

Qual tem sido o seu percurso artístico?

Sou autodidacta, e de inicio ultrapassei muitas dificuldades para me conseguir afirmar como pintora. Tive, que enviar cartas/fotografias para as Galerias Municipais e outras para que pudessem avaliar o meu trabalho e assim poder expor, bem como para Jornais, não podendo deixar de agradecer o contributo do Sr. Mendes Serrasqueiro, uma vez  que praticamente acompanhou desde o início o meu percurso. O trabalho é importante mas os meios de informação revelam-se numa mais valia para o mesmo, inclusive para qualquer artista no meio. Hoje em dia não podemos esperar que as coisas nos caiam do céu, temos que lutar por elas e a minha “arma”, foi o meu trabalho, o meu gosto pela pintura, o apoio dos meus familiares e amigos.

Desde 1996 que já tive a oportunidade de expor 87 vezes, em diversos locais a nível Nacional, de Norte a Sul, entre eles:

-Gallery Center, Amoreiras/ Lisboa, Espaço - Gan, em Braga, Beja, Reguengos de Monsaraz,  Juntas de Freguesia, Exposições Internacionais realizadas cá em Portugal e até uma representação em Espanha.

Para além da Pintura também descobri algum talento para as palavras / Poesia o qual e através do CNAP ( Círculo Nacional de Arte e Poesia com sede em Lisboa) me permitiu a publicação de alguns dos meus textos com outros escritores, participando numa Antologia de Poesia, e outro Livro na zona da Beira Baixa, com novos escritores, contando com a participação especial de Eugénio de Andrade. Ultimamente, já tenho utilizado alguns desses textos para “falar” um pouco dos trabalhos patentes nas exposições, como esta, na Casa da Cultura, intitulada ”A COR DAS PALAVRAS”.

Quais as principais dificuldades que um artista a residir fora dos grandes centros, enfrenta? A Arte, vista como forma de vida profissional, compensa?

O principal é a nossa vontade de continuar, mas posso dizer que apesar de tudo tive de inicio alguns apoios, a Câmara Municipal e o Centro de Cultura de Vila Velha de Ródão a nível de catálogos e publicações, nos outros locais onde as realizava, o local era cedido, o transporte e organização muitas das vezes por nossa conta. Eu sei que no Interior não há tanto interesse e procura pela arte , assim como em artistas que não são tão conhecidos, de qualquer forma não me posso queixar pois não tenho número para as peças adquiridas e representadas em diversas casas particulares e outras, como os trabalhos oferecidos para causas de solidariedade, designadamente, Nisa também já contou com esse meu apoio, uma das vezes. Todos os pintores de nome tiveram um começo, infelizmente só são reconhecidos, quando já não estão presentes, eu pessoalmente prefiro ser quem sou, uma pessoa simples, mostrar o meu trabalho e aceitar criticas sejam elas quais forem, pois elas servem também, não só, para crescermos como pessoas, como, profissionais e depois, quem estiver interessado em adquirir um trabalho já é secundário, não digo que não seja importante, mas um quadro não é um bem de primeira necessidade, temos que ser realistas, e hoje em dia os Portugueses vivem com bastantes dificuldades, assim só compra mesmo quem pode.

A Arte como forma de vida profissional, é complicada, pelo menos para os artistas mais “pequenos”, por isso eu ter outro trabalho, tenho a minha família outras responsabilidades, assim além da pintura, trabalho num escritório, como funcionária forense em Castelo Branco.

Sei que nasceu em Nisa. Que recordações guarda da sua infância e que laços mantém com a terra mãe? O Alentejo está presente na sua pintura?

Tenho 33 anos (04/04/72), morei em Nisa até aos seis anos, suficientes para não esquecer amigos. Ainda me lembro, da Rua Alexandre Herculano, a Professora da Escola Primária, D.ª Celeste, uma simpatia, ainda que por pouco tempo, mas que não esqueci, são recordações que ficam para sempre na nossa memória. Tem-se tornado mais difícil, a minha deslocação a Nisa mas quando posso vou, e não passo sem os “barquinhos” (doce típico), que faço questão em comer sempre que lá vou. É como um ritual.

Sou Alentejana de coração, e em todos as minhas pinturas está sempre presente um pedaço do “meu Alentejo”, numa casa, paisagem ou mesmo cor, assim como em todas as exposições, faço sempre questão de o assumir. Actualmente resido em Alcains, onde tenho o meu atelier.

Sendo o artesanato de Nisa conhecido pela sua beleza e originalidade, de que forma ele se lhe revela como motivo de inspiração?

Penso que o facto de ter nascido em Nisa, com as suas tradições, artesanato, já me influencia de certa forma na minha pintura quer através das cores, quer na diversidade de temas.

Quer deixar uma mensagem-convite aos leitores do jornal para visitarem a sua exposição?

 A minha mensagem será simplesmente de que terei muito gosto em que visitem a exposição, sendo a mesma o meu agradecimento á Câmara Municipal de Nisa, à Casa da Cultura, que sempre me acolheram, ao Sr. Bento Semedo, ao Jornal de Nisa, foi uma honra para mim ser entrevistada pelo Jornal da minha terra, poder dar a conhecer a Nisa um pouco mais sobre o meu trabalho e ...que Nisa não  esqueça aqueles que tentam levar o seu nome mais além, mesmo distantes da terra que os viu nascer.

Mas o mais importante a nível pessoal, tem sido o apoio do meu marido António e  meus filhos,  Alexandra e Bernardo  que me têm acompanhado nesta minha  “viagem”.

A todos o meu sincero obrigado.

A Cor das Palavras

“... Com traços eu me defino, com alguma cor eu me expresso, ambas me completam, neste meu viver de imagens sem regresso, onde o sonho e a realidade se confundem, na mão aberta, do meu humilde Universo...”

Rosário Bello, artista plástica (autodidacta), natural de Nisa, reside em Alcains, onde tem o seu atelier e trabalha como empregada forense em Castelo Branco.

O seu percurso artístico iniciou-se em 1996, tendo feito Exposições e Mostras de Pintura em todo o país, contando ainda com representações no estrangeiro. Para além da pintura dedica-se também à escrita, tendo participado com textos da sua autoria em dois livros: V Antologia Poética, do Círculo Nacional de Poesia e outro com escritores da Beira Baixa.

Da Exposição “A Cor das Palavras”, patente na Biblioteca Municipal de Nisa, até final de Fevereiro constam diversos trabalhos, a maioria pintados sobre madeira, com dedos a óleo (pastel), sem a técnica do pincel, podendo ser apreciada conjuntamente com extractos de alguns textos da sua autoria, mas baseados na pintura representada.

Pela expressividade do traço, pela força dos temas, os trabalhos que Rosário Bello nos mostra no 1º andar da Biblioteca Municipal, merecem a sua visita e uma apreciação atenta, ou não se tratasse de uma artista nisense.