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12.8.26

OPINIÃO: Podia ser sobre NISA ou outro qualquer Município português *


O mundo está para os espertos: uma crónica sobre Portalegre

Uma única feira local custa mais do que apoiar as 50 associações do concelho. Para onde caminha o orçamento de Portalegre?

Há uma frase que se ouve cada vez mais nos cafés de Portalegre, sussurrada entre um copo e outro: “o mundo está para os espertos.” Não é resignação vazia — é a constatação de quem observa, há anos, o mesmo padrão a repetir-se: dinheiro público a sair, resultados a não aparecer, e ninguém a perguntar porquê.

Não é preciso inventar escândalos para ver o problema. Basta olhar para a estrutura.

Um exemplo que dispensa teorias da conspiração.

Fermelinda Pombo Carvalho é, desde 2021, presidente da Câmara Municipal de Portalegre. É também, desde 2014, presidente da Associação de Agricultores do Distrito de Portalegre (AADP). As duas coisas não são segredo — estão em qualquer biografia oficial, em qualquer entrevista de recandidatura. É a própria autarquia que apresenta a Feira das Cebolas como fruto da “parceria” entre a Câmara e a AADP.

O problema não é que a presidente da Câmara goste de agricultura, ou que a AADP seja uma instituição sem mérito. O problema é estrutural: quando a mesma pessoa está sentada dos dois lados da mesa — a decidir, como autarca, quanto dinheiro público vai para um evento, e a beneficiar, como dirigente associativa, da organização e da visibilidade desse mesmo evento — deixou de haver distância entre quem financia e quem é financiado. Isso não exige prova de crime para ser um problema. É, por definição, um conflito de interesses institucionais, e é exatamente o tipo de situação que devia ter um mecanismo de escrutínio externo — auditoria, fiscalização, contraditório público — e que, tanto quanto é possível apurar, não tem.

A Feira das Cebolas consumiu cerca de 120 mil euros do orçamento municipal em 2024 e perto de 195 mil euros em 2025 — um crescimento de mais de 60% num ano, sem que exista, disponível ao cidadão comum, uma explicação clara sobre o que justificou esse salto. É dinheiro de todos os portalegrenses, gerido por quem preside simultaneamente a uma das entidades parceiras do evento.

O associativismo como cortina de fumo

Em maio de 2026, a Câmara assinou contratos-programa com 50 associações culturais e desportivas, num investimento global de cerca de 162 mil euros. Nos comunicados oficiais, isto é apresentado como prova de vitalidade do tecido associativo local. E, para muitas dessas associações — que fazem, de facto, trabalho sério com pouco — o apoio é justo e bem-vindo.

Mas a escala deste apoio revela uma profunda inversão de prioridades quando cruzamos os dados:

Feira das Cebolas (1 único evento): perto de 195 mil euros.

Todo o tecido associativo (50 associações): cerca de 162 mil euros.

Colocando os números em perspetiva, todo o ecossistema cultural e desportivo de Portalegre recebeu, junto, menos dinheiro do que uma única feira de poucos dias. Na prática, isto significa uma média irrisória de 3.240 euros por associação para gerir atividades, pagar despesas e sobreviver durante um ano inteiro.

Um bolo distribuído desta forma por 50 entidades não é, por si só, sinónimo de critério. O que falta, sistematicamente, é aquilo que qualquer atribuição de dinheiro público deveria ter: critérios de avaliação públicos e comparáveis, relatórios de execução por associação, e a possibilidade de qualquer cidadão perceber por que razão a associação A recebeu X e a associação B recebeu metade disso. Sem essa transparência, o “apoio ao associativismo” pode ser genuíno em 45 casos e um exercício de relações públicas nos outros 5 — e ninguém de fora consegue distinguir uns dos outros. É esse vazio de escrutínio, e não uma acusação concreta contra qualquer associação em particular, que alimenta a sensação de que quem sabe pedir, e a quem pedir, recebe — e quem só sabe trabalhar, espera.

Uma cultura que não existe enquanto política pública

Portalegre não tem fome de gente que faça cultura. Tem fome de uma câmara que a trate como prioridade e não como despesa acessória. O que existe de cultura genuína na cidade nasce, quase sempre, de bolsos privados, de gente que arrisca o seu próprio dinheiro e tempo — e quando a Câmara aparece, aparece como licenciadora, não como parceira. Autoriza um espaço, cede um palco, tira uma fotografia na inauguração. Raramente investe no montante, na criação, na produção, na continuidade de um projeto que ainda não tem público garantido.

Compare-se isto com o investimento na Feira das Cebolas — um evento consolidado, de baixo risco político, que gera fotografias seguras com o Secretário de Estado e discursos sobre “o melhor de Portalegre.” É sempre mais fácil investir no que já funciona e dá visibilidade imediata do que no que é incerto mas necessário: uma política cultural com visão de década, não de mandato.

Menos oposição, mais impunidade

Nas autárquicas de outubro de 2025, a coligação PSD/CDS-PP de Fermelinda Carvalho obteve 62,54% dos votos em Portalegre — a primeira capital de distrito a fechar essa noite eleitoral — e conquistou maioria absoluta: seis dos sete mandatos no executivo, contra três no mandato anterior. O PS e a CLIP (Candidatura Livre e Independente por Portalegre) ficaram reduzidos a um papel cada vez mais residual.

Isto não é, por si só, ilegítimo — é o resultado de um voto livre. Mas tem uma consequência prática que importa dizer com todas as letras: quanto menor a oposição dentro do executivo, menor a pressão institucional para justificar decisões, publicar critérios ou responder a perguntas incómodas na Assembleia Municipal. A fiscalização que falta de fora — auditorias, imprensa local robusta, sociedade civil organizada — precisava de ser compensada por mais fiscalização de dentro. Está a acontecer o contrário.

E há um dado oficial, não uma opinião, que resume o lugar da cultura nas prioridades formais do município: no portal público Mais Transparência, que monitoriza a descentralização de competências da administração central para os municípios, a Cultura surge como “competência aceite” por Portalegre — mas com despesa registada de 0€ nos anos disponíveis para consulta. Aceitar a competência no papel e não lhe atribuir despesa própria é, em termos administrativos, a definição exata de tratar algo como acessório.

Falta de visão, sobra de eventos

O investimento direto na capital do município cresceu 54,71% em 2023 face ao ano anterior, segundo as próprias contas da autarquia — números que, isolados, soam bem em qualquer relatório de mandato. Mas crescimento de despesa não é sinónimo de estratégia. Não encontrei, nos documentos públicos disponíveis, um plano estratégico de cidade a dez ou vinte anos que amarre esse investimento a objetivos claros — só planos plurianuais de investimento que se renovam ano a ano, e um calendário de eventos e feiras que se repete com pequenas variações de cartaz.

Isto é o retrato de uma gestão que apresenta números de execução orçamental como se fossem, por si só, visão de futuro. Não são. Gastar mais não é o mesmo que planear melhor.

O impacto mais profundo desta falta de visão não se mede só em euros mal explicados — mede-se no que a cidade não constrói. A Covilhã, um concelho de dimensão comparável, soube transformar o conhecimento e o património local — a Universidade da Beira Interior, o Parkurbis, parque de ciência e tecnologia criado em 2005 — num ecossistema que atrai empresas tecnológicas e indústrias criativas, com centenas de postos de trabalho qualificado gerados nesse processo. Não é magia nem sorte geográfica: é o resultado de décadas de aposta institucional deliberada em algo que ainda não existia.

Portalegre também tem um politécnico a formar quadros todos os anos. O que falta perceber — e é uma pergunta em aberto, não uma certeza — é se existe da parte do município uma estratégia equivalente para reter esse talento, ou se continuamos a depender quase inteiramente do emprego público e de setores tradicionais para segurar quem cá nasce. Uma feira, por mais bem-sucedida que seja, não substitui essa pergunta. E enquanto ninguém a fizer com seriedade, Portalegre continua a formar gente para exportar, não para empregar.

Onde ninguém olha, ninguém precisa de esconder

Apontar essas falhas não é acusar ninguém de ilegalidade, mas sim fazer o diagnóstico de um problema estrutural. A diferença entre a má gestão e a fraude é jurídica e ética, e esta crónica assenta estritamente nos factos públicos. Mas a ausência de escândalos criminais não significa que o concelho esteja bem gerido. Pelo contrário: é o sintoma mais claro de uma anestesia geral.

Numa cidade onde os dados se perdem em relatórios densos, a oposição definha e ninguém questiona o orçamento, os governantes não precisam de esconder nada — porque não há nada a ocultar de quem escolheu não olhar. Portalegre não precisa apenas de mais uma feira de cartaz. Precisa de uma cidadania ativa e de uma câmara que trata o escrutínio público como parte do trabalho, e não como um incómodo a evitar.


Chris Relvas  in www.substak.com