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21.2.22

NO MUSEU DO ALJUBE EM LISBOA: Exposição "A Guerra Guardada"

Patente ao público até a 20 Março de 2022
Fotografias de Soldados Portugueses em Angola, Guiné e Moçambique (1961-74). Curadoras: Maria José Lobo Antunes e Inês Ponte. Mais informação(link is external). 
Lisboa, Museu do Aljube Resistência e Liberdade, das 10h00 às 18h00. 
Durante os anos da guerra, milhares de jovens recrutados para Angola, Guiné-Bissau e Moçambique tiraram fotografias daquilo que os rodeava: os camaradas, os quartéis, as paisagens, o quotidiano, as populações civis, o aparato militar. Estas imagens escaparam à censura do regime, e foram guardadas ou enviadas pelo correio como provas de vida à distância. 
Alguns destes homens construíram laboratórios improvisados, outros acederam a laboratórios oficiais. Vários frequentaram lojas de fotografia que floresceram com a procura gerada pela guerra, muitos compraram e trocaram imagens. Assim construíram os arquivos fotográficos de que agora mostramos partes. 
Cinquenta anos após o início do conflito, algumas coleções de antigos soldados foram destruídas, como se o passado se pudesse apagar nesse gesto. Outras, com o desaparecimento dos seus donos, ficaram órfãs. Muitas sobrevivem ainda, conservadas em álbuns ou em caixas, analógicas ou digitalizadas, e são mostradas em círculos restritos ou partilhadas nas redes sociais. 
A Guerra Guardada explora coleções pessoais de homens que em tempos foram soldados. A maioria foi recolhida através de entrevistas presenciais no quadro de uma investigação etnográfica em curso no ICS-ULisboa. As restantes estão publicadas em diversos sítios e arquivos da internet. Dispersas um pouco por todo o país, retratam um tempo e um espaço distantes, e mostram uma guerra vivida mas também imaginada. Banais ou extraordinárias, revelam os muitos mundos de uma guerra longa e anacrónica que foi mandada combater pela ditadura. Que possam provocar diálogos em democracia. 
Curadoras 
Maria José Lobo Antunes e Inês Ponte 

4.2.22

NISA: Conheça os Poetas do Concelho (V) - João R.

 
A GUERRA COLONIAL
Síntese
Em 1961, começou a Guerra do Ultramar. O regime político de ditadura, em Portugal, decidiu enviar tropas para África. Todos os rapazes, a partir dos vinte anos, tinham de apresentar-se nos quartéis. Durante três anos servirão a Pátria. Muitos não voltarão da guerra; outros virão com mazelas físicas e psicológicas. Só a Revolução do 25 de Abril acabou com o conflito.
Ficaram os ressentimentos entre os povos, que só o tempo fará esquecer.
A GUERRA COLONIAL
1.
 Um regime caduco, em Portugal,
Lutando contra ventos e marés,
Quer impor o Império Colonial.
Não aceita sofrer qualquer revés –
Surdo e cego na ânsia de mandar!
É tratado, lá fora, “a pontapés”!
Internacionalmente condenados,
Por termos outros povos subjugados.

2. 
Com o povo adormecido e ignorante,
Amordaçado com leis de censura,
Interesses dos ricos vão avante,
Com apoio da Igreja, porventura.
O Governo abre a guerra, sem desplante,
Com a força e vigor da ditadura.
Os jovens, simples e sem instrução,
Usados como carne pra canhão.

3. 
“Tirar as sortes” já não é surpresa –
Todos fazem serviço militar –
Só depois admitidos numa empresa!
O futuro incerto pode esperar…
Os quartéis são fábricas de bruteza,
Onde os bons se têm de violentar,
Para manter direitos intocáveis,
A uma súcia de ricos e notáveis.

4.
Pobre soldado! Vai pró Ultramar…
Vai ter de matar para não morrer!
Deram-lhe mil razões para o sedar.
O coração grita: “quero viver!”.
O navio aguarda para o levar…
Fica a mãe despedaçada de dor
E a namorada sedenta de amor!

5.
Lá longe, sofrendo um sol escaldante,
Vai morrendo de tristeza e saudade,
Devorando um aerograma calmante.
Na resposta, não diz toda a verdade –
Não quer causar uma dor lancinante.
Suporta, corajoso, a tempestade.
Já suportou as agruras no mato.
Aguarda que retomem o contacto.

6. 
No regresso, vão pagar a promessa,
Com a mãe e a namorada, à Ermida.
Agora, podem casar… e depressa!
Será mais uma promessa cumprida.
Os pais desejam muito que aconteça –
Querem netos… saborear a vida!
Foram três anos de sonhos perdidos,
Tristezas e dores não esquecidas!

7.
Nem todos tiveram a mesma sorte!
Uns perderam o seu único filho!
A vida ficou gelada de morte!
A noiva, dos olhos, perdeu o brilho!
Outros, o espírito em total desnorte,
Com mazelas, para sempre empecilho!
Outros deixaram filhos esquecidos,
Frutos d’amores de guerra proibidos.

8. 
Lá longe, ficaram marcas de dor,
De sofrimento e desumanidade,
Na carne e alma dum povo sofredor,
Que lutou pela sua liberdade.
Vamos perdoar!… Seguir, sem rancor!
Construir, juntos, a felicidade!
Hoje, são embaraços da memória.
Amanhã, serão poeiras da história.

(João R. – Julho/2021)
FOTO: Militares do B. Engª 447 - Fim de Comissão na Guiné-Bissau (Maio 1974)

 

16.4.19

Adriano Correia de Oliveira - Canção com Lágrimas



Eu canto para ti um mês de giestas
Um mês de morte e crescimento ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada

Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema

Porque tu me disseste quem me dera em Lisboa
Quem me dera em Maio depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio

Porque tu me disseste quem me dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol Lisboa com lágrimas
Lisboa a tua espera ó meu irmão tão breve
Eu canto para ti Lisboa à tua espera...

20.12.17

MEMÓRIA: Há 40 anos, outros Natais... (3)

Três histórias de guerra em tempo de paz ou vice-versa...
Estamos a poucos dias da celebração da data festiva que é o nascimento de Jesus Cristo. Tempo de reconciliação entre os homens de boa vontade, de paz e de concórdia. Recordo, aqui, nestas três histórias que podiam ser de Natal, de esperança, paz e fraternidade, três episódios da guerra colonial.  
Recordação de um Homem bom
Conheci o Carlos há muitos anos. Nascera no Pé da Serra e era ali na aldeia, por alturas do Verão e das festas que era costume encontrá-lo, a pretexto de um jogo de futebol, no “estádio” sobranceiro ao povoado. Outras vezes encontrava-o quando vinha a Nisa com a mãe e a irmã, tratar da vida.
Foi, pois, com satisfação que o encontrei, em 1971, na EMEL em Paço de Arcos. Estávamos a tirar a especialidade, eu como “soldado-raso”, ele como cabo-miliciano. Éramos de cursos diferentes e ele no fim do dia recolhia-se até à Amadora, onde, presumo, tinha acolhimento. Não falava muito, o Carlos. As nossas conversas tinham como motivo Nisa e o Pé da Serra, as coisas próprias da juventude.
Terminada a especialidade deixámos de nos ver. Cada um tomou o seu caminho. Eu andei de quartel em quartel até “poisar” nos Adidos, na Calçada da Ajuda. Foram meses infernais, de Fevereiro a Junho de 1972. Tinha sido mobilizado para a Guiné, em rendição individual, e nesses meses vim Nisa, despedir-me da família, umas quantas vezes. Parecia um “calvário” interminável, a repetição de uma despedida que de cada vez se tornava mais dolorosa.
Parti, enfim, rumo a Bissau, ao quartel do Batalhão de Engenharia. Passado pouco tempo encontrei o Carlos. A tropa, o sortilégio da vida militar, o que quer que fosse, juntara-nos na mesma unidade, em África. Era furriel-miliciano na secção de Motores Fixos, que prestava apoio técnico e reparava geradores, alternadores, de toda a Guiné, serviço que, não raras vezes, o levavam aos locais mais inóspitos do território.
Eu tinha outra ocupação e em serviço diferente, motivos por que, no mesmo quartel, não se víamos amiúde.
Após o 25 de Abril, num dia de Maio de 1974, à tardinha, vejo chegar o Carlos num jeep e diz-me: Mário, anda daí, vem comigo!
Estranhei o pedido, àquela hora e respondi-lhe:- Espera, vou buscar a G3!
- Não, não é preciso, não tragas arma!
Montei-me no jeep, íamos a caminho de Bissalanca e rumámos na direcção de Safim. Até aqui ainda estávamos em zona de segurança. Prosseguimos na estrada, perguntei-lhe aonde íamos e ele só me dizia: Espera que já vês!
Eu não estava a ver nada e a ficar cada vez mais inseguro. Passámos Nhacra e cortámos á direita. Já sabia aonde íamos, faltava saber o motivo e tornei a perguntar-lhe:
- Ó Carlos, mas o que é que vamos fazer ao Cumuré, a esta hora?
- Vamos ver uns amigos! – respondeu.
Passámos a porta de armas, ele disse qualquer coisa que não entendi ao oficial de dia e este apontou-lhe para uma caserna no extremo do quartel. Uma caserna com guardas (soldados) à porta, o que estranhei. Depois e para minha surpresa, entendi tudo, o secretismo da viagem, o horário, a guarda da caserna. Só ficou por perceber e o Carlos nunca me deu essa informação, o motivo de não levarmos armas.
Entrámos na caserna e...fiquei a saber que era ali que estavam os elementos da ex-PIDE/DGS. O Carlos perguntou por um nome, apareceu um homem ainda novo, fitou o Carlos e vi naquele olhar tanta coisa: surpresa, gratidão, afecto, amizade.
O Carlos não esquecera o seu conterrâneo e fizera 50 quilómetros para lhe dar uma palavra de conforto, de ânimo, de esperança. É fácil escrever isto, 40 anos depois. Mas não era qualquer pessoa, num contexto de revolução, agitação social e política, e, sobretudo de vingança, que tomaria uma atitude como esta.
O Carlos, entre todas as considerações, valorizou o aspecto humano, de fraternidade e companheirismo e foi abraçar o seu conterrâneo.
Cumprimentei o senhor, não me lembro do nome, o Carlos disse-lhe que era de Nisa e ainda brincámos com algumas das “revelações” que fez, a propósito de ter tido uma namorada em Nisa.
Regressámos a Bissau já noite cerrada. Sem armas, como tínhamos ido. Eu, muito mais tranquilo e um pouco mais informado. Os dias que se seguiram, foram de grande agitação. Aproximava-se o fim da comissão de serviço, o “piriquito” já tinha entrado para o clube da velhice e o pensamento estava em Portugal ou na Metrópole, se preferirem. Eram dias febris, havia comissões para tudo e mais alguma coisa e eu vi-me envolvido numa, a nível da unidade. Esqueci o episódio do Cumuré e passado um mês rumava a Lisboa onde no aeroporto de Figo Maduro me deparei com uma manifestação do MRPP que gritavam a plenos pulmões: “Nem mais um soldado para as Colónias!
Passou-se um ano. Nunca mais vi o Carlos, até que um dia, no Verão de 1976, apareceu em minha casa, em Nisa. Eu tinha casado há pouco tempo e recebi-o com grande satisfação.
Reparei que o Carlos não era o mesmo. O sorriso tinha-se-lhe desvanecido. Estava doente, gravemente doente, mas despojado como era das coisas materiais, descuidara-se consigo próprio. Nunca me falou da doença, mas em jeito de despedida, disse-nos: “Tenho esperança em ver nascer o meu filho!
Viu e ainda conviveu com ele durante dois meses. Depois, apagou-se...
Faleceu a 25 de Dezembro de 1976. Há 42 anos...
Era Natal, um dia como tantos, para nascer e morrer. Eu quero fazer renascer, neste texto, a imagem e a memória de um homem bom, de um grande amigo que “partiu tão cedo desta vida descontente”.
Chamava-se Carlos da Cruz Ribeiro e há muito que repousa, em Paz, num lugar etéreo onde subiu pela vontade do Criador.
Mário Mendes

17.12.17

MEMÓRIA: Há 40 anos, outros Natais (2)

Três histórias de guerra em tempo de paz ou vice-versa...
Estamos a poucos dias da celebração da data festiva que é o nascimento de Jesus Cristo. Tempo de reconciliação entre os homens de boa vontade, de paz e de concórdia. Recordo, aqui, nestas três histórias que podiam ser de Natal, de esperança, paz e fraternidade, três episódios da guerra colonial.  
Cristo redentor em terras africanas
Retomámos a rotina dos dias. Procedíamos à instalação eléctrica de um edifício fora do aquartelamento e de arquitectura colonial: alto, de um só piso e com uma sobre-câmara ou sótão, a percorrer toda a estrutura do imóvel. Era aí que montávamos a instalação, com caixas de derivação e de saída para todos os compartimentos. Era um trabalho debaixo de telha, feito quase em silêncio, pois nem eu entendia crioulo, nem o meu ajudante, civil, percebia muito de português. Entendíamo-nos e era o suficiente.
Num desses dias, de tarde, pareceu-nos ouvir gemidos, logo seguidos de palavras de intimidação, em português, que eram traduzidas para um dialecto local. Fiz sinal ao meu companheiro para não se mover e manter em silêncio. Com cuidado, arrastando-me, consegui chegar por cima do compartimento de onde vinha o alarido. Melhor fora que não visse. Em baixo e sem terem detectado a minha presença, um furriel-miliciano e um elemento da milícia faziam um interrogatório, a um jovem, ainda adolescente, vestido apenas com uns calções e com as costas sangrando como um Cristo redentor. Era uma cena aterradora, violenta, uma imagem que durante muitos anos não saiu da minha cabeça. O furriel, alto e corpulento, do serviço de informações, dava ordens ao africano da milícia e este, de chicote na mão, tal como o furriel, fazia perguntas ao jovem que tinham capturado no mato. Este, não sabia uma palavra em português, nem sequer em crioulo, apenas a língua ou dialecto da sua aldeia ou etnia. Queriam saber que ligações ele teria com um qualquer grupo dos “turras”. O jovem respondia negativamente e por cada resposta, era vergastado.
O seu corpo, as suas costas, eram um rio de sangue. Aguentou-se, de pé, enquanto pôde, sempre negando o que lhe perguntavam e com tal firmeza, que os dois elementos do interrogatório e da tortura, tiveram que desistir. Levaram o jovem, a porta fechou-se e eu respirei de alívio. Em tão pouco tempo de Guiné, estava a ter uma “preparação” política e social muito diferente do que poderia imaginar. Guardei este episódio para mim durante muitos anos, como uma das imagens mais violentas e violentadoras da consciência e dos direitos humanos.
Neste Natal recordo este episódio sangrento. Não dei um tiro na guerra, não vi camaradas a morrer, vítimas de minas, ataques ou emboscadas. Mas vi o lado mais negro e subterrâneo de um conflito bélico: a violentação do outro, física e moralmente, o despojo dos seus elementares direitos de cidadania, da sua dignidade.
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 13/12/2017

15.12.17

MEMÓRIA: Há 40 anos, outros Natais (1)

Três histórias de guerra em tempo de paz ou vice-versa...
Estamos a poucos dias da celebração da data festiva que é o nascimento de Jesus Cristo. Tempo de reconciliação entre os homens de boa vontade, de paz e de concórdia. Recordo, aqui, nestas três histórias que podiam ser de Natal, de esperança, paz e fraternidade, três episódios da guerra colonial.  
O guerrilheiro intelectual
Estou há pouco mais de um mês na Guiné, destacado para cumprir a comissão de serviço militar e já conheço os horrores da guerra sem ter sido mobilizado para nela participar. Ainda há 15 dias estava em Bissau no quartel de Engenharia e agora, aqui perdido numa aldeia do sul do território. Comecei a ambientar-me ao clima, basta olhar para as minhas pernas e braços, salpicados de empolas pelas mordidelas dos mosquitos. A aldeia tem mulheres novas de seios nus que se riem à minha passagem. Basta olharem para os calções ainda com goma e as pernas esbranquiçadas cheias de mazelas para perceber o alvo das suas risotas. Sou, para elas, um “piriquito” acabado de chegar da Metrópole. A tabanca tem pouco para descrever e o aquartelamento são duas ou três casas de alvenaria e outras de madeira, improvisadas, para além dos abrigos que servem de caserna à guarnição portuguesa. À volta, o arame farpado, por vezes reforçado, e os obuses, estrategicamente colocados para a defesa ou para ripostar ao fogo inimigo (bater a zona). Estou ali com outro companheiro da Engenharia, civil e guineense, para executarmos alguns trabalhos de electrificação e em certo dia o comandante, um alferes-miliciano, pede-me para “ir guardar os presos” pois iam fazer uma operação nocturna. Era apenas um preso e especial. Que nem precisaria de guarda pois se quisesse fugir fazia-o facilmente. O problema era saber para onde. A Guiné, principalmente, aquela zona do território, não tinha estradas. Só rios e bolanhas e trilhos armadilhados e à noite, como diz o povo “todos os gatos são pardos”.
O preso, guerrilheiro do PAIGC era de origem cabo-verdiana. Não era um preso qualquer, filho do administrador de Bafatá, a segunda cidade mais importante da Guiné, 7º ano dos liceus feito em Portugal, uma cultura política de nível superior. Baralhou-me a cabeça. Falou-me da guerra e da ditadura que vigorava em Portugal. Disse-me, vezes sem fim, que a luta não era contra nós (os militares) mas sim contra o poder colonialista de Lisboa. Ouvi-o quase sem lhe responder. Mesmo que quisesse não sabia. Não tinha palavras para ele e, no fundo, admitia que a sua argumentação tinha alguma lógica. Éramos preparados, física e militarmente, para ir “combater os turras”, mas não havia qualquer preparação de carácter político e social. Recebi, ali, a primeira grande lição sobre política anti-colonial e para meu espanto, ofereceu-me, depois um livrinho que me deixou ainda mais surpreso e desorientado. Era o livro da 1ª classe das escolas rurais do PAIGC utilizado nas chamadas “zonas libertadas” e escrito, imaginem, em português e algumas frases do crioulo guineense.
Guardei e escondi o livro o melhor que pude. Ali não haveria qualquer perigo, mas regressado a Bissau e à Engenharia, o livrinho passou a ser uma preocupação e factor de risco. Logo que tive ocasião desfiz-me dele, antes que, por descuido, tivesse algum problema disciplinar.
O 25 de Abril e a liberdade ainda estavam longe, mas não mais esqueci esta lição de política de um “turra”, preso e intelectual guineense.
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 13/12/2017

23.8.16

OPINIÃO: A despedida (excerto de crónica inédita)

 Era quase meia-noite e o meu pai deslumbrava-se com o ardor dessa gente nova, de sangue na guelra, que tinha sentado à sua volta, num entusiasmo patriótico de ímpetos ancestrais. Quando o ponteiro do relógio da sala contígua se aproximou das 0 horas, alguém se lembrou:
- E se fôssemos saudar o novo ano de 1962 com uns tiros para o ar, ali no quintal?
- Nem é tarde nem é cedo... – gritaram dois.
- É preciso cuidado, vejam lá oque arranjam... – ponderou o meu pai. O tenente da Guarda anda por aí...! Mas dêem fogo! Ali está a FN de cinco tiros.
Levantei-me, num ápice, e agarrei a minha velha arma com redobrado carinho de caçador. Retirei da cartucheira as cinco “bombas” de fulminantes cobertos e enchi a câmara e o tambor. E quando as doze badaladas começavam a ouvir-se no relógio da torre da vila, o trabuco despejou pausadamente as nossas salvas para o ar calmo dessa noite de memória eterna. A essa hora, sem sabermos de nada, absolutamente nada, o pronunciamento de Beja começava e o Monstro Colonial aproximava-se já de nós, a passos largos, vomitando fogo e transpirando sangue.
Ah!, o Monstro que viria, de rosto pintado de vermelho e negro, quando rufaram tambors ao longe e as botas de tacões largos bateram  nos lajedos das praças dormentes de sol, onde lagartos dormiam à sombra milenária e cómoda de hinos e heróis acumulados. A Pátria é “una e indivisível”! O “esforço estóico” está aí, outra vez! E quem vai, quem vai? Vão os mancebos! Quem há-de ir? ( E há que ir?!... Aos milhares?) Os mancebos! Os velhos mandarão e os mancebos vão!
Os “velhos” só já têm tempo para mandar e aos mancebos sobra-lhes tempo para tudo, ainda que seja para morrer já. Resta a aura, a glória! E, além disso, fica-se sempre novo, mesmo depois da morte, quando se é jovem. Que o digam certas velhas fotografias...
- Eu já morri uma vez, Pedro! – dizia-me o Alberto Diniz
- Tu sabes. A Mena morreu naquele hediondo desastre de viação, ela e os pais, e eu também morri nessa hora. Foi a minha primeira morte. Insuportável. Irreparável. Bem um final de vida e, mais do que isso, de sonho. “Pelo sonho é que vamos...” como dizia o Sebastião da Gama, o nosso poeta da pureza, mas eu não fui... fiquei, para sempre, ali, presa naquela curva maldita onde o “Mercedes” novo era um destroço de aço e sangue.
Mas nego-me, nego-me a morrer em Angola ou a 10 mil quilómetros daqui... Eu não vou! Tu vais, mas eu não vou! Quero conhecer gente, quero conhecer os homens, conhecer mulheres, eu ainda não conheço nada e já me querem tirar o Mundo? Já morri uma vez e ainda não vivi. Agora quero viver e não morrer mais..., ao menos não morrer, definitivamente.
Não morrer “definitivamente”, dizia o Alberto Diniz em Abril de 1962, um outro Abril longínquo, em Nisa, a meio da longa recta de Palhais, inundada de luar e cheiros de boninas, àquela hora da madrugada em que nem sequer os galos cantaram, fazendo coro nessa despedida rápida, com o carro do Passador ao fundo, silencioso, escondido numa das gares laterais à estrada, quase à vista da famigerada curva do Padreca.
Tinha chovido há pouco e a faixa do asfalto brilhava como largo rastro metálico, de prateado astral. Era como que o caminho para uma outra galáxia, uma via sem fim, não sinuosa, que se perdia no escuro dos longes que rumavam para lá da mancha negro-cinza, fantástica e colossal da serra de S. Miguel.
Essa nossa serra, tão familiar, mas enigmática e com alma. Tinha-o “desvendado” o Alberto num dia de calor, em Junho, em que observávamos a montanha redonda e principal, o cabeço, do alto da colina da Virgem da Graça.
Silêncio e calor. A leve brisa castanho-esverdeado, postado naquela derradeira quietude estranha que toca em misticismo bíblico quem a contempla em recolhimento.
- Estás a ver? – sussurrava o Alberto. Este silêncio e aquela montanha! Que ternura! Descobri! Eu “descobri”, Pedro!. Sabes porque é que o Dionísio Baco aqui parou e ficou, esse tal lendário e primeiro conquistador das Espanhas, de que fala Motta e Moura? Também condutor de homens a caminho de um paraíso imaginário, ele sentiu aqui o seu Sinal, sim, como Moisés... Esta foi, com toda a certeza, a sua montanha adorada. E Nísio, muito mais tarde Nisa, o rasto humano que ficou dessa maravilhosa e profunda contemplação.
O motor do velho Chevrolet de praça começou a ronronar. Passavam nuvens que  que taparam a lua cheia, por momentos.
Íamos só os três, caminhávamos em silêncio pesado, eu, o Alberto e a Mãe. De repente, ele parou e disse:
- Não, minha Mãe, não caminhe mais. A caminhada, daqui para a frente, é só minha, tem que ser só minha.
Parámos, atónitos e vazios, e ele seguiu em frente, sozinho. A Mãe esboçou um grito rouco, de joelhos no chão:
- Meu querido filho! Que Nosso Senhor te acompanhe!
Ele parou ainda uma vez, além, a meio da faixa de prateado astral e olhou bem para nós. Depois voltou-se e correu, como um louco, até desaparecer por completo na lomba do Barracão.
Carlos Franco Figueiredo
(Dedico aos meus queridos Companheiros de Juventude: Manuel Francisco Semedo, João Pereira Peleja, Emílio Figueiredo, Fernando da Mata Veiga, João Zacarias Curado, Manuel Filipe, Emílio Ferreira, Victor Bonito, Jorge Cruz Miguel e António Neves Isabel).

22.6.15

REPORTAGEM: "O meu filho ficou lá!"

É uma reportagem com a qualidade a que a SIC e a Cândida Pinto nos habituaram. Passou no "Jornal da Noite" de quinta-feira, dia 28 e só ontem, sábado, me chamaram a atenção para o seu conteúdo e o principal interveniente. É um alentejano, um nisense, há muitos anos radicado em Vendas Novas e mais que tudo, meu "artilheiro". Fosse pela história, comovente até às lágrimas, pela ternura, e - por que não dizê-lo - pela coragem revelada pelo António da Graça Bento, pela beleza e nostalgia que emana de toda a reportagem, sei é que não consegui conter a profunda emoção que o filme me causou. Ponho-me a pensar quantas e quantas histórias como esta, mas sem um final tão feliz ficaram por contar... 
O António Bento fez hoje, domingo, a capa do jornal "Público", outro dos parceiros desta reportagem. A foto mostra, em toda a sua alegria e ternura, a feliz expressão do encontro entre um pai e um filho, quarenta anos depois.
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A Guerra Colonial levou milhares de soldados portugueses para África e deixou por lá muitas crianças sem pai, filhos de militares portugueses que acabaram as suas comissões de serviço e regressaram a Portugal. Há quem desconheça que por lá deixou um filho, há quem o esconda porque construiu uma nova família e há quem nunca esqueça o que se passou. António Bento apaixonou-se enquanto esteve em Angola de 73 a 75. Dessa relação nasceu um filho que hoje tem a idade de Angola independente: 40 anos. "O meu filho ficou lá" é a Grande Reportagem que pode ver hoje no Jornal da Noite, a viagem de António Bento até ao interior de Angola e à emoção de um primeiro encontro entre um pai e um filho. Uma reportagem em parceria jornal Público / SIC.


Já na parte final do conflito, António Bento foi enviado, por dois anos, para Angola onde prestou serviço militar entre 1973 e 1975. Foi colocado no interior de Angola, na província de Luena, perto da fronteira com a Zâmbia.
Durante a comissão de serviço, António Bento apaixonou-se pela angolana Esperança. O soldado chegou mesmo a mudar-se e a ir viver para casa de Esperança, numa aldeia perto do quartel. Mas no início de 1975, a comissão de serviço termina e António Bento regressa a Lisboa pouco antes do filho de ambos nascer. O ex-combatente nunca esqueceu que se tinha despedido de uma mulher grávida.
A longa guerra civil em Angola e as dificuldades de comunicação com o interior do país foram algumas das barreiras que impediram António Bento de descobrir o paradeiro do filho. Mas nunca desistiu.
Hoje "Zito", o filho de António e de Esperança, tem 40 anos, a mesma idade de Angola independente. E só ao fim de 4 décadas pai e filho encararam-se, pela primeira vez, olhos nos olhos.     
"O meu filho ficou lá " é a história de uma viagem ao interior de Angola e à emoção do primeiro encontro entre um pai e um filho. Uma Grande Reportagem em parceria jornal Público /SIC.
Reportagem : Catarina Gomes; Ricardo Rezende (imagem e som)
Edição: Ricardo Rezende; Rui Berton
Coordenação: Cândida Pinto

9.4.14

OPINIÃO: Da guerra, dos combatentes e do esquecimento


Há 50 anos, ainda adolescente, olhava com curiosidade e alguma estranheza, para os homens que se reuniam, periodicamente, e celebravam (ou reviviam) as memórias da 1ª Grande Guerra de 1914 a 1918.
Uma das datas em que se reuniam e recordo com maior clareza era a de 9 de Abril, na qual havia sempre uma romagem ao ossário (monumento funerário) dos combatentes da Grande Guerra, promovida pelo senhor João Cabim, avô do actual presidente da Junta da União das Juntas de Freguesia de Nisa e S. Simão, João Cabim Malpique Rufino.
Os ex-combatentes do concelho de Nisa naquele primeiro grande confronto bélico, dispunham de uma filial da Liga do Combatentes, na travessa Marechal Gomes da Costa, junto à ourivesaria Pina, uma casa pequena, ainda assim suficiente para poderem reunir-se e desenvolver algumas actividades, iniciativas que os jovens e menos jovens de hoje rotulariam, certamente, como saudosistas e outros epípetos.
O que não seria (nem será) de estranhar se nos lembrarmos que, entrementes, este país que se chama Portugal, onde nascemos e vivemos, participou com milhares de jovens na denominada Guerra do Ultramar, em quatro frentes militares ou operacionais (Índia, Moçambique, Angola e Guiné) de 1961 a 1974, guerra de que nos libertámos há 40 anos com a Revolução do 25 de Abril.
Se, no primeiro caso, a participação portuguesa foi desastrosa e desastrada, lembrando que só na Batalha de La Lys, na região da Flandres (Bélgica) entre 9 e 29 de Abril de 1918, as tropas portuguesas, em apenas quatro horas de batalha, perderam cerca de 7500 homens entre mortos, feridos, desaparecidos e prisioneiros, ou seja, mais de um terço dos efectivos, no segundo, a Guerra Colonial deixou um cortejo infindável de mortos, feridos, estropiados, física e psicologicamente, cujas sequelas ainda hoje se fazem sentir de forma dramática.
Os combatentes da Grande Guerra têm, a lembrá-los, uma rua com o seu nome em Nisa, além do referido monumento funerário.
As centenas de ex-combatentes do concelho de Nisa que lutaram na Guerra Colonial, pelo “dever de servir a Pátria”, dos quais dezanove tombaram em terras africanas no cumprimento desse mesmo dever, mais do que a homenagem e reconhecimento, público, em forma de monumento e na toponímia da vila, de que são merecedores, gostariam que essa página da nossa história recente não fosse, pura e simplesmente, rasgada e escondida da memória das actuais e futuras gerações.
Os poderes públicos locais – Câmara e Juntas de Freguesia – bem como as escolas, têm essa dívida de gratidão e reconhecimento, por saldar.
E, reconhecer esse facto, quando se completam 100 anos sobre o início da 1ª Grande Guerra e 40 anos sobre o final da “Guerra do Ultramar” é, não só um imperativo de consciência como um dever indeclinável que urge resolver.
Para que os ex-combatentes e famílias possam dizer, orgulhosamente - quando falarem nos seus entes queridos – que, mesmo vítimas de uma guerra injusta (e todas as guerras são injustas, pelo sofrimento que provocam) o seu exemplo não foi esquecido.
Mário Mendes

20.12.11

À FLOR DA PELE - Adeus, até ao meu regresso...

Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar (1)
Onde se fala do annus horribillis do salazarismo, do início da guerra colonial, da queda de Goa, Damão e Diu, do princípio da derrocada do Império Colonial Português, da dor e das lágrimas de uma mãe de Tolosa, sem dinheiro para pagar a “caixa de pinho” e trazer de volta, o filho morto em combate...
23 de Janeiro de 1961. Foi há 50 anos e ainda me lembro do rádio a pilhas, em cima da secretária, na sala de aula do 1º andar da Escola do Rossio. O professor, meu primo António da Piedade Pires, ligava-o a espaços para ouvirmos a “aventura” em forma de novela radiofónica do assalto ao Santa Maria. O ano começava mal para o regime salazarista e num país onde só era permitida uma ideologia política, onde não se podia discutir, sequer, o “sexo dos anjos”, aquelas doses maciças de apologia nacionalista e de constantes alusões aos “traidores da pátria” comandados por Henrique Galvão calaram bem fundo em cada um de nós.
Naquela altura estaria longe de supor que, dez anos mais tarde, iria conhecer em terra de balantas, fulas e mandingas, as profundas contradições e mentiras de um regime, isolado do mundo e da realidade.
A 4 de Fevereiro de 1961 guerrilheiros do MPLA tomam de assalto a prisão e a emissora de Luanda, no mesmo dia em que termina a aventura de Henrique Galvão e seus companheiros com a entrega do “Santa Maria” às autoridades brasileiras e recebendo asilo político.
Estalara a guerra colonial e os massacres de colonos angolanos enchem de horror e de revolta, os écrans a preto e branco do único canal televisivo. Uma guerra que se haveria de se estender a Guiné e Moçambique, perante a recusa de Salazar em aceitar uma solução negociada, pacífica, para a autodeterminação dos territórios ultramarinos.
Botelho Moniz tenta ainda, num golpe de Estado, apear Salazar do poder, mas a intentona é sufocada e a resposta do homem de Santa Comba Dão fica expressa na célebre frase: “Para Angola, rapidamente e em força”. Logo a seguir viria o “Angola é nossa!”.
Catorze anos de guerra, de devastação, de milhares de mortos e feridos, de fome e miséria, que deixaram um território rico em recursos naturais, dividido e arrasado, mostraram que Angola não era nossa, nem será, tão pouco, dos angolanos... Mas esta é outra história a ser escrita no tempo próprio.
A 18 de Dezembro de 1961 novo golpe nas aspirações imperiais do ditador de Santa Comba: a União Indiana invade e anexa quase sem resistência, os territórios de Goa, Damão e Diu.
Começa a derrocada do Império Colonial Português, um “império” que, perante os ventos de mudança que assolaram o mundo após a 2ª Guerra Mundial, e os exemplos de outras ex-potências coloniais, estava condenado a seguir os mesmos caminhos da autodeterminação e da independência. Salazar, orgulhosamente só, criticado pela comunidade internacional e pela própria igreja católica não cedeu. Arrastou, na sua cegueira, o país para uma longa guerra injusta, onde as palavras “derrota” e “rendição” eram proibidas. “Apenas pode haver soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos”, disse, um dia, num discurso inflamado. Vassalo e Silva não lhe fez a vontade, quis viver e salvar os seus homens de uma morte certa e inglória, como, anos mais tarde, em 1973, em Guileje, na Guiné, o major Coutinho Lima tomou a mesma atitude, num aquartelamento flagelado durante cinco dias e despojado de tudo, até de armas e munições.
Conheci-o, pessoalmente, no Depósito dos Adidos, como um soldado raso, sem galões, triste e amargurado, mas orgulhoso da atitude tomada. Nesse ano (1973) a PIDE assassinara Amílcar Cabral, a guerra tomara proporções que o exército português nem sonhara. O PAIGC dispunha, agora, de supremacia em termos de armamento. Avião ou avioneta que descolasse era aeronave abatida. Os mísseis terra-ar faziam estragos incalculáveis, a mobilidade da guerrilha com uma nova estratégia deixava os comandos militares sem saber o que fazer.
Temia-se o pior. A ilha de Bissau começa a ser cercada com arame farpado. A cidade transformara-se numa nova Saigão e o que acontecesse teria de ser decisivo. Foi. O “Movimento dos Capitães” desencadeou o 25 de Abril e o término da guerra.
A solução política, tantas vezes proposta pelos líderes africanos (Neto, Mondlane, Cabral) a Salazar acabara por silenciar e resolver o que as armas não conseguiram.
História de uma mãe e de um caixão de pinho
O concelho de Nisa também sentiu na dor e no luto, na partida e na ausência, o drama da guerra colonial. Algumas famílias não mais voltaram a ver os seus filhos e entes queridos, que neste texto homenageamos.
Particularmente atingida pelo infortúnio e pelas vítimas da guerra foi a povoação de Tolosa.
O que talvez muitos não saibam é que foi a partir de uma carta pungente e comovedora, de uma mãe desta localidade, Maria Florinda da Luz, dirigida ao Ministro da Defesa que se começou a fazer justiça aos militares mortos na defesa dos territórios ultramarinos.
O Estado mandava os soldados para a guerra, mas só pagava a ida e o regresso dos militares vivos: não se responsabilizava pela trasladação dos mortos.
Se tivessem dinheiro, as famílias teriam que pagar se quisessem os seus mortos de volta: pagavam o caixão de chumbo, a embalagem da urna, a certidão do registo de óbito, o transporte de Lisboa para o cemitério de destino.
As famílias eram informadas da morte através de telegrama que geralmente acabava assim: “Informo Estado custeia remoção de ossadas passados cinco anos /Trasladação possível agora deseje despesa sua custa /Necessário depositar dez mil escudos Depósito Geral adidos Lisboa ou outra unidade/ caso assim não proceda trasladação impossível”.
Os portugueses eram “carne para canhão”, combatiam numa guerra de que não conheciam os contornos e por fim, quem os envolvia em tamanha aventura bélica nem sequer se preocupava em garantir que os entes queridos pudessem, em caso de morte, fazer-lhes as derradeiras homenagens de despedida. Levavam-lhes os filhos, os maridos, os noivos; roubavam-lhes anos de vida da sua juventude e, se a morte viesse, o direito ao luto, à dignidade de uma homenagem fúnebre teria de ser “cobrada” com dez contos.
Nos anos 60, dez contos eram uma fortuna. Vivia-se de magros salários, a população rural e não rural não dispunha de tal quantia. Maria Florinda da Luz, mãe do soldado Francisco da Luz Carloto, morto em combate no Norte de Moçambique, em 19 de Janeiro de 1967 não se conformou com a resposta. Escreveu ao Ministro da Defesa uma carta pungente:
“Venho com esta minha triste carta pedir a Vª Exª, Senhor Ministro da Defesa, que me explique duas palavras do meu querido filho, que a dor é tão grande que não sei aonde hei-de perguntar informações do meu queridinho filho? Lembrei-me de Vª Exª de me poder dizer alguma coisa. Um filho tão bom que alegrava o meu lar tão triste, e alegrava o meu coração. E agora grito à procura do meu triste filho sem saber aonde está e como foi a morte dele.
“Pedia a Vª Exª pela sua saúde, já que não tive a sorte de trazerem o meu filho vivo, peço-lhe que mo mandem mesmo morto. Para eu o adorar e rezar ao pé daquele bom querido filho.
Peço imensa desculpa a Vª Exª destas minhas tristes palavras, mas a dor é tão grande que não sei aonde hei-de respirar. O nome do filho é Francisco da Luz Carloto”.
A carta de Maria Florinda da Luz chegou ao secretário de Estado da Defesa, general Venâncio Deslandes que por sua vez enviou um ofício ao Estado-Maior do Exército sobre este grave problema. A partir de 2 de Março de 1967 com a publicação do Regulamento de Trasladações, o Estado passou a assegurar o regresso dos militares mortos na Guerra Colonial. (2)
A lua que é viajante
é que nos pode informar
o soldadinho já volta
está mesmo quase a chegar

Vem numa caixa de pinho
do outro lado do mar
desta vez o soldadinho
nunca mais se faz ao mar (1)
NOTAS
1 Menina dos olhos tristes – letra de Reinaldo Ferreira; Música de Zeca Afonso
2As grandes operações da Guerra Colonial 1961-1974 – Presselivre, Imprensa Livre SA
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 28/12/2011

4.2.11

GUERRA COLONIAL: Para que a memória não se apague...


CANÇÃO COM LÁGRIMAS - Adriano Correia de Oliveira
Eu canto para ti um mês de giestas
Um mês de morte e crescimento ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada.

Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema.

Porque tu me disseste quem me dera em Lisboa
Quem me dera em Maio depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro.

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio.

Porque tu me disseste quem me dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol Lisboa com lágrimas
Lisboa à tua espera ó meu irmão tão breve
Eu canto para ti Lisboa à tua espera...
Letra: Manuel Alegre; Música: António Portugal

Foi há 50 anos. Reza a história que "Na madrugada de 4 de Fevereiro de 1961, militantes do MPLA assaltaram dois estabelecimentos prisionais e uma esquadra de polícia, em Luanda. A 15 de Março, grupos da UPA lançaram sangrentos ataques contra fazendas, postos administrativos e localidades dos distritos do Zaire e do Uíge.
Os ventos do nacionalismo tinham começado a soprar com violência em Angola e não tardariam a atingir a Guiné e Moçambique...
A guerra tivera o seu início. E seria longa..."
in "Os Anos da Guerra - 1961-1975 - Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História"