27.10.18

NISA: Poesia Popular - Aníbal Goulão

A Vila de Nisa
 És das vilas de Portugal
A mais famosa do Alentejo
És minha terra natal
Assim te estimo, assim te vejo

Fundada por D. Dinis
Há mais de setecentos anos
Este rei fez tudo o que quis
Venceu guerras e enganos

Aonde vieste nascer
Ó Nisa terra famosa
De dia a dia a crescer
És de todas a mais formosa.

Tua gente humilde honesta
Tens largos e ruas bonitas
Gente pacífica e modesta
Mulheres belas de faces catitas.

És de todas a primeira
Em todo o Alto Alentejo
Crescendo assim dessa maneira
Em cidade ainda te vejo.

Tens fama nos rendilhados
Em louça pedrada também
Os teus cantarinhos bordados
Só tu os fazes mais ninguém.

O teu traje encantador
Aonde vai é admirado
Lenços bordados um primor
Em parte alguma imitado.

Em enchidos tiveste fama
Já na fala assim não é
Ouvimos a qualquer dama
Dizer duas, três vezes dé

Ó Nisa minha tão querida
Aonde os primeiros passos dei
Aqui passei a minha vida
Aonde fui amado e amei.

As tuas casas branquinhas
Mesmo de noite ao luar
És um céu com estrelinhas
De dia e noite a brilhar.

O teu ar é puro salutar
Os teus frutos deliciosos
A terra é dura de trabalhar
Tens ruas e largos airosos
Aníbal Goulão

26.10.18

MEMÓRIA DE NISA: Subsídio para a História das Bandas de Nisa


Estas duas fotos, tiradas com a diferença de quatro anos, têm entre si alguns elementos comuns. A de cima, tem a data de 1909 e foi captada junto às ruínas de antiga igreja ou capela. Pela data, supomos ser a da capela de Santa Ana, situada junto ao antigo cemitério e no local onde está hoje o Cine Teatro.
A segunda foto, retirada da revista "Ilustração Portuguesa" não dá motivos a incorrecções. A legenda, explica que se trata da Filarmónica de Niza e que obteve o 1º prémio num concurso de bandas filarmónicas realizado em Portalegre. Não esclarece, porém, qual das duas Filarmónicas se trata: se da Sociedade Phylarmonica Nizense ou da União Artística Nizense, associações que, durante alguns anos, representaram em simultâneo as tradições musicais da vila.
Pelas fotos, vemos que se trata da mesma banda, não só pela indumentária, mas pelo reconhecimento de alguns elementos presentes em ambas as imagens.
Será possível, no entanto, obter mais informações através da leitura dos jornais que à época se publicavam em Portalegre e assim juntar mais alguns elementos que ajudem a clarificar a história e as origens das bandas filarmónicas de Nisa no século XIX. 

NISA: Poesia Popular _ Maria Pinto

À Memória do Dr. Granja
O Dr. António Granja
Deus o tenha em bom lugar;
Passou a vida sozinho
Nunca pensou em casar.

Deus o levou para si,
Este homem sério e honrado.
Delegado de saúde
De todos foi respeitado.

Tinha amor à linda Nisa
Centro do seu coração;
Teve o fim da sua vida
No Castelo de Mação.

Cá viveu trinta e tal anos,
Homem de bom coração!
Amigo de rico e do pobre,
Nunca teve opinião.

Deixou Nisa a muito custo;
Era doutor de primeira;
Muitos lá o foram ver
Com a morte à cabeceira.

Não era homem de luxo.
Gente assim já não se cria,
Em Nisa deixou desgosto,
Nunca arranjou companhia.

Passou a vida sozinho
Nunca resolveu casar;
Sempre na Pensão Correia,
Lá se ia procurar.

Muitas vezes se o chamavam
Dava resposta mal dada;
Era naquele momento
E, depois, não era nada.

Não era homem de graças,
Mas tinha bom coração;
Tinha fé para com Deus,
Tinha a sua devoção.
 
Corria as ruas de Nisa,
Logo pela manhãzinha,
Doente, às vezes, coitado,
Mas não dizia o que tinha.

Enquanto teve vontade,
Gostava de à pesca ir,
Nos domingos, um bocado
Mas só para distrair.

Tinha o seu sofrimento,
Trabalhou até poder
Mas não passava um só dia
Sem os doentes ir ver.

Era sério e honesto
E por todos respeitado;
Quer do rico quer do pobre,
De todos era estimado.

Pois também tinha inimigos!
(Hoje toda a gente os tem).
Mas com a bondade que tinha
Já não se cria ninguém.

Amigo dos pobrezinhos,
Até esmola lhes dava;
E muitas vezes até,
Os remédios, lhes comprava.

Esteve no Hospital Velho
Com José de Oliveira
E a srª Caldeirinha
Que era lá a enfermeira.

Fechou o Hospital Velho
E do Novo não gostou.
Inda pôs um consultório,
Mas já pouco se gozou.

Já não se cria no mundo
Gente assim para a pobreza;
Cada vez tudo pior
Vamos chegando á moleza.

Inda empregou muita gente
Pelo valor que ele tinha;
Tinha fé, tinha bondade,
Tinha a sua medicina.

Nunca levava dinheiro
Só tinha o seu ordenado;
Mas daqueles que podiam
Às vezes era ajustado.

Nunca andava de automóvel,
As ruas a pé, corria.
Rezemos-lhe Padre-Nosso
Junto com Ave-Maria.

Deus o tenha em seu descanso,
A sua alma no Céu,
Tanto anjo a acompanhá-lo
Como as esmolas que ele deu.

Aos sessenta e oito anos
Deus lhe dê eterna glória.
Com a ajuda de todos,
Bem merecia uma memória.
Maria Pinto 

22.10.18

MEMÓRIA HISTÓRICA: As forcas de Portalegre

Na edição de 10 de Julho de 1867 do “Diário de Notícias”, o romancista francês Victor Hugo publicou uma carta ao director, escrevendo: “Felicito o vosso Parlamento, os vossos pensadores, os vossos escritores e os vossos filósofos. Felicito a vossa Nação. Portugal dá o exemplo à Europa. A Europa imitará Portugal.”
O autor de “Os Miseráveis” celebrava assim a inédita decisão de abolir a pena de morte para crimes civis em Portugal, definida em 1867, quinze anos depois de a mesma decisão ter sido tomada para os crimes políticos. Os mecanismos de execução das sentenças foram sendo esquecidos nos 146 anos entretanto decorridos, mas um projecto da Universidade de Évora, liderado por Jorge de Oliveira, tem procurado preservar essa memória histórica no distrito de Portalegre.

21.10.18

NISA: Vereadores da CDU querem regras claras de apoio ao investimento no concelho

"Na reunião da Câmara Municipal de Nisa de 16 de outubro, os vereadores  da CDU apresentaram uma recomendação sobre a necessidade de serem  definidas com rigor, regras claras, transparentes e objetivas de apoio  ao investimento no concelho.
O executivo PS insiste em manter pensamentos curtos sobre o desenvolvimento económico, sem olhar adiante, sem encarar o futuro, agarrado a um discurso repetitivo de negação de um passado que nunca  poderá ser apagado. Face a esta visão restrita os vereadores da CDU apontam a necessidade de ser clarificada a tipologia e os critérios de atribuição de apoios aos agentes económicos na área do Concelho de  Nisa, promovendo o seu desenvolvimento sustentável.
RECOMENDAÇÃO
Não existindo regras claras que enquadram a atribuição, por parte do Município de Nisa, de apoios aos agentes económicos, a Câmara Municipal de Nisa tem deliberado de forma pontual, de acordo com as situações que vão surgindo. Foi o que se verificou, na reunião de Câmara do passado dia 2 de outubro, em que um agente económico que 
desenvolve a sua atividade no concelho de Nisa viu recusado, pela  maioria PS, um pedido de isenção do Imposto Municipal sobre as  Transmissões Onerosas de Imóveis e Imposto de Selo, referente à  melhoria da estrutura fundiária da sua exploração.
Os Vereadores da CDU recomendam a necessidade de definir, com rigor, regras claras, transparentes e objetivas de apoio ao investimento no  Concelho, clarificando a tipologia e os critérios de atribuição de  apoios aos agentes económicos na área do Concelho de Nisa, promovendo o seu desenvolvimento sustentável."
Nisa, 16 de outubro de 2018
Os vereadores da CDU
Vítor Martins e Fátima Dias

NISA - Subsídios para a História das Colectividades (I)


A Sociedade Artística Nisense – Notícia da fundação
No dia 18 de Fevereiro de 1930 na sede da Associação de Socorros Mútuos da Classe Operária Nisense, com sede na antiga capela de São Pedro, reuniram-se os artistas desta vila e mais alguns cidadãos, como sejam dois escreventes e dois distribuidores dos correios e comerciantes, criaturas estas que convivem de ordinário com a classe artística, a convite de Carlos da Graça Figueiredo e Luiz do Rosário Matias e por estes foi declarado que era de absoluta necessidade fundar-se nesta vila uma sociedade, a fim de os seus associados terem um local apropriado onde pudessem passar uns momentos em alegre convívio, sem para isso terem de recorrer aos usos da taberna e outros, reprovados pela boa educação. Reuniram-se ao todo sessenta e seis cidadãos nas condições acima referidas e aprovaram por unanimidade tal proposta, sendo marcada para o próximo dia 20 nova reunião a fim de se assentar definitivamente nas normas da sociedade a fundar.
Aprovada a necessidade de constituição de uma colectividade de cultura e recreio em Nisa, os promotores, não deixaram adormecer a ideia e o entusiasmo, e dois dias depois, em reunião realizada no mesmo local, decidiram que fosse criada nesta vila a Sociedade Artística Nizense, a ser regida por uns estatutos que oportunamente seriam elaborados, sendo convidado para esse fim o professor José Francisco Figueiredo, que da melhor vontade acedeu a tal convite.
Decidiram também que a jóia a pagar por cada sócio fosse de 30 escudos, a quota mensal de dois escudos e cinquenta centavos e que seriam sócios-fundadores todos os que se inscrevessem até ao dia 28 de Fevereiro.
Ainda nesta reunião foi eleita uma direcção para gerir a Sociedade durante um ano, sendo constituída por Manuel Mendes Filipe (presidente) Luiz do Rosário Matias (tesoureiro), Mário d´Oliveira Cativo (secretário) Carlos da Graça Figueiredo e Silvestre da Costa (vogais), todos votados por unanimidade. Nascia assim há 81 anos a SAN.
Cinco dias depois em nova reunião eram apresentados e aprovados os estatutos e a direcção resolveu arrendar ao senhor Manuel Pires Barreto, pela renda mensal de 25 escudos, a sua casa no antigo largo do Boqueirão, para se instalar a sociedade e que esta comece a funcionar nos princípios do mês de Março.
Ainda nesse ano de 1930 e na procura de melhores condições para os sócios, a sede da colectividade seria transferida para a Rua do Mártir.
Na reunião de Dezembro a direcção decidiu que se realizassem duas reuniões familiares para os sócios e suas famílias, as quais teriam lugar no Dia de Natal e no primeiro dia de Janeiro de 1931.
No início de 1933, a direcção dá a conhecer aos sócios a “ida á praça do edifício do antigo Teatro Nizense e em 18 de Fevereiro desse ano, em sessão solene é inaugurada a nova sede da Sociedade no local onde hoje se encontra, na Rua Cândido dos Reis (Rua do Senhor).
A primeira direcção eleita era constituída por José Lourenço Pação (presidente), João de Oliveira Figueiredo (tesoureiro), Joaquim Queimado Carolo (secretário), Francisco Marquito Júnior e Abílio Diniz Porto (vogais). A Assembleia Geral tinha António Maria Gonçalves (presidente), António de Oliveira Correia (1º secretário), João Maria Esteves (2º secretário).
Promoção cívica e dinamização cultural
Desde o início dos anos 30 do século passado até hoje e ao longo de um percurso de mais de oitenta anos, o historial da Sociedade Artística Nisense tem sido, como o de todas as colectividades, assinalado com períodos de grande actividade e outros de menos fulgor.
O que não pode ser esquecido é que os ideais que nortearam a sua criação, tais como “proporcionar aos sócios e suas famílias todas as diversões permitidas pelas leis do país”, desde jogos lícitos, reuniões familiares, bailes, leitura, a conferências, exposições, etc., foram sendo fielmente cumpridos e aplicados por todas as direcções, com maior ou menor dificuldade e tendo em conta as transformações políticas e sociais ocorridas no nosso país.
A Sociedade Artística Nisense foi uma das associações pioneiras na dinamização da leitura, sendo a direcção eleita anualmente e um bibliotecário de dois em dois anos. Para além da quota mensal, os seus associados pagavam, uma quota suplementar de um escudo destinada ao “desenvolvimento da biblioteca”. A biblioteca e a leitura de jornais, nas décadas de 30, 40 e 50, na ausência de televisão e de outros espaços de cultura, funcionava como uma janela aberta para o mundo, proporcionando a muitos sócios a aquisição de conhecimento e saber, a fruição do prazer da leitura, para além do convívio regular, através da prática de jogos de salão e das celebrações das datas festivas.
Quem não tem, ainda na memória, a lembrança dos fabulosos bailes das décadas de 50, 60 e 70? Quantos namoros e quantos casamentos não nasceram ao som e sabor do twist, do yé-yé, dos ritmos trepidantes ou das canções românticas que eram assobiadas na rua, de cantores famosos como o Adamo, Gianni Morandi ou de grupos como os Beatles e os Shadows?
E quem esqueceu nomes como Maryling, Sor-Ritmo, Ferrugem ou Atlântida Nisense, os conjuntos da região que animavam esses bailes?
O enorme salão da Sociedade, tal como o do “Benfica” tornavam-se pequenos, apertados, cheios de gente, de uma juventude alegre, rebelde e divertida, sem outros locais para poder exteriorizar a inquietude desse tempo único, mesmo quando chegavam notícias da guerra e surgiam sinais, apreensivos, de uma próxima mobilização para as terras do Ultramar...
Futuro pouco auspicioso para as colectividades
Esse tempo parece ter ficado, definitivamente, para trás. Os avanços tecnológicos, os meios culturais postos à disposição dos cidadãos, fizeram regredir, desvalorizar, a importância das colectividades. Está tudo logo ali, ao alcance de um botão, de um clique e o mundo entra-nos porta adentro, quantas vezes sem nos pedir licença. As sociedades globais ou globalizadas, têm esse poder, a um tempo unificador e antagónico: aproximam-nos, fazem-nos partilhar, virtualmente, de um mesmo mundo, mas, ao mesmo tempo afastam-nos do nosso caminho e devir colectivo.
Fomos perdendo, aos poucos, as noções do nosso espaço vivido e da nossa memória, por troca de um conforto momentâneo e um comodismo que não conseguimos iludir.
Esquecemos, frequentemente, que os espaços da festa, do convívio, do trabalho e do lazer, o universo de partilha e participação proporcionado pelas associações são indispensáveis à nossa afirmação como cidadãos conscientes, livres e solidários.
Esse, o papel que se reclama, claro e inovador para as associações. Um espaço alargado de congregação de esforços, projectos, ideias, tendentes a elevar o nível cultural da comunidade que serve e aperfeiçoar os laços de solidariedade e entreajuda de que a mesma é credora.
Só assim as associações poderão resistir à “onda” de letargia e imobilismo, de rotinas e vícios instalados, que, a não serem combatidos, levam ao desmoronamento de edifícios e ideais, por que tantos dos nossos antepassados se bateram.
OS PROTAGONISTAS
A senhora Maria Albertina  
Maria Albertina Dinis Pinto, tem setenta anos, mais de metade da vida passada a assegurar, diariamente, o modus vivendi da Sociedade Artística Nisense.
Pelas mãos da senhora Albertina, pelo trabalho esforçado, dedicado, passa quase tudo o que de bom tem esta colectividade.
Há mais de 35 anos que ela e o marido, Bebiano Serralha, asseguram, como contínuos, a existência desta associação situada no centro da vila. Noutros tempos, o bulício e a agitação eram constantes, muita gente a entrar e a sair, a colectividade tinha vida.
A situação mudou, são poucos os jovens que vão à Sociedade, os homens e as mulheres de meia-idade frequentam-na na hora de almoço, para uma bica, a leitura dos jornais ou para “dois dedos de conversa”. De tarde, imperam os jogos de sala, cartas ou dominó, entretenimento de idosos, alguns programas televisivos
Se pelas mãos de Maria Albertina passa muito do que é feito, numa jornada de trabalho que começa pela manhã e vai pela noite adentro, pelas mãos do marido, o senhor Bebiano, passa também uma parte considerável das “finanças” da Sociedade, assente na contribuição de meio milhar de sócios. É ele que cobra as quotas, actividade que o faz palmilhar as ruas da vila, numa caminhada nem sempre bem compreendida.
Albertina e Bebiano são os “outros” directores, aqueles que suportam, tantas vezes, a vida das colectividades. Neste caso, uma ocupação de mais de 35 anos, ininterruptamente.
Exemplos, que, como tal, se registam e salientam.

Mário Mendes - Publicado no "Alto Alentejo" - in À For da Pele - Subsídios para a História das Associações de Nisa (1)

20.10.18

Combate ao trabalho precário na Câmara de Portalegre

"A Câmara de Portalegre deu ontem (17 de Outubro) posse a 18 trabalhadores que há anos exerciam funções operacionais em situação de trabalho precário, a recibos verdes ou através de contratos de emprego inserção (CEI).
Cantoneiros de limpeza, de jardins e de recolha de resíduos sólidos urbanos (RSU), sapadores municipais, um calceteiro, um eletricista, um técnico do Gabinete Técnico Florestal do Município, alguns dos quais a exercer funções precárias há mais de dez anos, foram alguns dos trabalhadores ontem integrados no quadro da Câmara Municipal de Portalegre, corrigindo-se uma injustiça antiga que afetava a capacidade operacional do Município.
Outras situações de precariedade aguardam ainda a devida resolução, nomeadamente nas áreas da educação, desporto e cultura, e a CDU tudo fará para que sejam resolvidas em tempo útil de aplicação do programa PREVPAP, aprovado na Assembleia da República sob proposta do PCP.  
A sessão de tomada de posse com tudo o que representa de positivo para a quase duas dezenas de trabalhadores abrangidos, mas também para a Câmara Municipal de Portalegre que passa a contar nos seus quadros com operacionais necessários ao cumprimento das suas obrigações de serviço público, foi ensombrada pela tentativa da Presidente da Câmara de não dar a palavra ao Vereador da CDU, Luís Pargana, para uma breve saudação aos trabalhadores presentes e que com ele trabalharam no quadro das funções assumidas até 29 de setembro deste ano.
Esta tentativa de silenciamento da CDU, não sendo inédita, teria neste caso como objetivo silenciar a reivindicação, já apresentada pela CDU, para que a Câmara assuma o pagamento de cerca de um mês de serviço que alguns dos trabalhadores agora empossados têm vindo a desempenhar desde que terminaram os seus contratos de recibo verde, em funções como a recolha de lixo, por exemplo, e que nunca deixaram de assegurar apesar de terem deixado de poder receber pelo seu trabalho.
Apesar de todos os constrangimentos, a CDU continuará a assumir a defesa do serviço público que a Câmara deve prestar aos munícipes, a defender boas condições de trabalho para os trabalhadores municipais e a pugnar pelo funcionamento democrático da autarquia portalegrense."
Portalegre, 18 de outubro de 2018
A Comissão Coordenadora de Portalegre da CDU

MEMÓRIA DE NISA (7): A Inijovem na "Rota do Contrabando" - 17 Março 2007








De Cedillo a Montalvão
260 CAMINHEIROS PERCORRERAM A ROTA DO CONTRABANDO
Duzentos e sessenta caminheiros participaram em mais uma edição da Caminhada “Rota do Contrabando”, um passeio pedestre entre as localidades de Cedillo (Extremadura espanhola) e Montalvão (Norte Alentejano), numa extensão de 18 quilómetros, pelos antigos caminhos por onde, noutros tempos, passavam os contrabandistas, pessoas do povo que, pela calada da noite e em tempo de crise e miséria, tentavam juntar mais algumas migalhas ao seu magro pecúlio.
Em ano do décimo aniversário, a Inijovem – Associação para Iniciativas para a Juventude de Nisa, organizou aquele que terá sido o mais espectacular passeio pedestre de quantos tem promovido, quer pelo número de caminheiros e pela beleza do percurso, quer, ainda, pelo verdadeiro convívio transfronteiriço que se estabeleceu e que teve o seu auge no recinto das festas, em Montalvão, onde todos os intervenientes nesta jornada de exaltação da natureza e da vida saudável, puderam retemperar forças e degustar o porco assado no espeto ou os enchidos da região e deliciar-se com os acordes da música popular.
A Rota do Contrabando integra o calendário nacional das actividades da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal, na qual está filiada a Inijovem, não se estranhando, por isso, a diversidade da proveniência dos caminheiros presentes neste passeio pedestre. De Fafe a Lisboa, ou de Évora e Coimbra, passando por Castelo Branco e S. José das Matas, muitos foram os participantes que se juntaram à centena de espanhóis, de Cáceres, Plasência e Cedillo, amantes do pedestrianismo, que os esperavam nesta localidade para, em conjunto, demandarem os caminhos que levam ao Sever e, transposto o rio, até Montalvão, no extremo norte do Alentejo.
Um dia de sol, não muito intenso, ajudou ao passeio, à conversa e à fruição dos belos recantos da natureza. A passagem do rio Sever, pelo paredão da Barragem de Cedillo teve de ser feita por autocarro, por indicação da Iberdrola e obedecendo a critérios de segurança. Depois, já em terras do concelho de Nisa, foi caminhar com o rumo posto em Montalvão, a recepção musical dos Bombos de Nisa que se juntaram a esta Festa da Natureza e os derradeiros quilómetros até à entrada da povoação, com passagem pela ermida da Senhora dos Remédios, já em clima triunfal de quem tinha concluído a jornada.
Aos 260 caminheiros participantes nesta iniciativa, que teve o apoio do Ayuntamiento de Cedillo, Câmara de Nisa, Freguesia de Montalvão e um sem número de entidades e empresas, justo será destacar o apoio dado pela equipa técnica, ao longo do percurso e pelos jovens voluntários, cerca de duas dezenas que contribuíram para o êxito desta iniciativa, uma “das melhores a que assistiram, em Portugal”, segundo as palavras dos dirigentes da FCMP presentes no passeio.
Igualmente saudada, foi a participação na Rota do Contabando do Alcaide de Cedillo, António Riscado e da vereadora do pelouro cultural da Câmara de Nisa, Fátima Moura.
“Para o ano, queremos, ainda, fazer melhor”, diz-nos Sérgio Cebola, da direcção da Inijovem. “Temos a noção de que não podemos aumentar muito mais o número de caminheiros, por razões de segurança e de enquadramento logístico dessas pessoas. Mas, em termos de organização e da festa que esta iniciativa proporciona, queremos mantê-la como referência a nível nacional".
A próxima edição da Rota do Contrabando, a exemplo do que vem sendo seguido, ligará, desta vez, uma das localidades do Norte Alentejano (Montalvão ou Salavessa) a Cedillo, atravessando o rio Sever.
Mário Mendes in “Jornal de Nisa” – nº 227 – 21/3/2007

19.10.18

OPINIÃO: Violadores sem pena

É cada vez mais perigoso ser mulher em Portugal. Sobretudo quando o desrespeito sai dos becos, das discotecas ou das quatro paredes de um lar desfeito para se instalar nos tribunais.
Gosto de acreditar na Justiça, dá-me um certo conforto, enquanto cidadão, pensar que os criminosos são punidos e os inocentes ressarcidos. Mas há crimes que deixam marcas eternas, independentemente de uma punição exemplar. É nesse restrito círculo de malvadez que enquadro a violação. Nestes casos, um juiz tem de ter mão firme. Tem de ser exemplar.
Um violador é um cobarde. Sem desculpa, merece bem carregar a culpa e pagar bem cara a dívida à sociedade. Porque nunca poderá compensar a vítima. É impossível ressarci-la e somos até confrontados com o drama de mulheres que não mais conseguem ultrapassar um estigma muito difícil de ser carregado. Enfim, são feridas abertas para sempre.
Não compreendo, por isso, que um homem que dá boleia a uma turista e depois se mete por um atalho para encontrar um local ermo onde a possa violar consiga sair do tribunal sem ir direto para a prisão. Mas assim aconteceu, ontem, em Portugal. Uma condenação de quatro anos e meio com pena suspensa. Ao abrigo da Lei, claro está, pois até cinco anos qualquer pena pode, efetivamente, ser suspensa. É indigno e lamentável, mas este tipo de desvalorização acontece com frequência nos nossos tribunais, como vimos, recentemente, num acórdão da Relação do Porto, que considerou uma violação de "ilicitude pouco elevada", porque não havia "danos físicos nem violência".
A violência psicológica pode, porém, ser mais dramática. Pelo que, em vez de saírem a terreiro para defender os visados em casos como o de Cristiano Ronaldo - que até prova em contrário é inocente - os políticos deviam era legislar no sentido de o crime de violação não admitir a suspensão das penas.
Vítor Santos in "Jornal de Notícias" - 18/10/2018

Encerramento das Comemorações de "Arez-Quinhentista"


17.10.18

JORGE PIRES - Textos - Do Alto da Torre - Setembro 2006

Porquê tantas saudades das festas de antigamente?
Estou a escrever estas linhas longe da minha terra e, por isso, a nostalgia tomou conta de mim e me inspirou e me levou àqueles tempos em que o Tejo fazia parte da história das festas da Amieira, em especial, a da Senhora da Sanguinheira que muitos de nós recordam com imensa saudade.
Naquele tempo, havia a Barca, o bote pequeno e o grande, que servia também para transportar os burros e, eram precisamente estes animais, tão típicos na nossa terra, que tinham um papel muito especial no trajecto entre o Tejo e Amieira visto que, o táxi se tornava demasiado dispendioso e nem todas as carteiras estavam disponíveis. Começava aí, a festa e o colorido da Estrada do Tejo, quando o comboio trazia até à terra natal, aquele filhos que, um dia, embarcaram em busca de uma vida melhor – era o reencontro aguardado durante um ou mais anos e, era também, a altura dos pais que os viram partir, conhecerem os netos que, entretanto, vieram engrossar a família!
Era ali, no Tejo, à sombra das amoreiras, que se davam os primeiros abraços, os primeiros beijos e os primeiros votos de longa vida!...tudo isto era no início de uma alegre burricada estrada acima, rumo aquelas casas velhinhas que, lá em cima, os aguardavam para dar brilho aos dias festivos que se aproximavam. Era impressionante verificar aqueles rostos felizes, aquela alegria transbordante daqueles avós “babados” que, apesar das dificuldades da subida, se sentiam imensamente felizes, sorrindo, sorrindo cada vez mais e quando lá em cima se aproximavam da fonte e os burritos aceleravam o trote para se dessedentarem, aquelas crianças indiferentes ao perigo de uma queda, lá continuavam traquinas em cima da sua preciosa montada, deliciados com tanta felicidade! Era assim, com este ambiente fraterno que começavam de facto, os preparativos para aqueles dias que se avizinhavam.
Hoje, alguns meninos de antigamente que eram transportados por aqueles pobres animais, voltarão um papel importantíssimo no desenrolar das cerimónias religiosas, estacionando as suas viaturas fora das ruas por onde passa a procissão porque, se há coisas que não podem fugir à actual conjuntura (os tempos são outros) neste caso, basta apenas boa vontade para pelo menos, neste aspecto, tudo voltar a ser como dantes.
Sabemos que as touradas à vara larga com as “carretas” a fazer de trincheiras nunca mais voltarão à praça; sabemos que os forcados improvisados, mas de enorme valor, tanto valor que poderiam ser colocados entre os mais afamados da nossa região, nunca mais farão levantar a Praça e, sabemos também, que os nossos vinte anos (que saudades!) nunca mais voltarão.
E o coreto? E aqueles “ordinários” que eram tocados pela fantástica Banda de Póvoa e Meadas?
Tantas coisa boas que ficaram pelo caminho e tantas desilusões que entretanto foram acontecendo ao longo das nossas vidas... Mas a nossa terra está de pé, a nossa terra ainda está viva, apesar de ter perdido alguns dos seus filhos que hoje, mais do que nunca, serão lembrados com imensa saudade, pelas suas famílias e pelos seus amigos.

Quando passa um ano e vem Setembro
De tanta coisa eu me lembro
Que fico completamente extasiado
E no tempo em que o tempo não contava
Toda a gente cantava e bailava
Naquela praça de tão glorioso passado

Vem-me à memória os valentes forcados
De Amieira e de outros lados
Que muitas vezes fizeram levantar a praça
Lembro-me da banda no coreto
Que adorava o tinto e o palheto
E tudo o que tocava tinha graça.

Lembro-me daquele recinto todo aberto
E o Castelo ali tão perto
Apadrinhando todo aquele alarido
E quando o povo nas trincheiras vibrava
Ninguém dali se afastava
Sem saber se algum dos seus saía ferido.

Lembro-me do fogo preso e do ar
E dos balões a voar
Rasgando o infinito lentamente
E num troar de palmas vibrantes
Seguia na direcção de Abrantes
Quando o vento soprava para poente.

Lembro-me das ruas bem engalanadas
Com pinheiros e palmeiras enfeitadas
Porque o povo assim o exigia
E quando passava a procissão
Sentia no meu coração
Um misto de emoção e alegria.

Lembro-me do homem do torrão
Que nos adoçava o coração
Apenas por cinco tostões
Hoje está tudo mudado
Encontramos tudo fechado
Só restam recordações.
Jorge Pires
in Do Alto da Torre – “O Amieirense” – Setembro 2006