Mostrando postagens com marcador 30 dias 30 poemas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 30 dias 30 poemas. Mostrar todas as postagens

27.4.20

ABRIL: Da Liberdade e da Esperança - Poesia XXVI


A VILA DE ALVITO 
A vila de Alvito
tem ruas e praças,
homens e mulheres
e muitas desgraças.
A vila de Alvito
tem dois lavradores.
Tem muita riqueza
e raros amores.
A vila de Alvito
tem uma cruz ao lado.
Quem manda na vila
não lhe dá cuidado.
Maltezes, ganhões,
sangue misturado.

Na vila de Alvito
é que eu fui criado.
Raul de Carvalho

19.4.20

ABRIL: Da Liberdade e da Esperança - Poesia (XIX)

Canto civil
Este é o meu canto civil
canto cívico graduado
desde um tempo antigo que vivi
entre poemas de aço camuflados e algemas de silêncio

Esse era o tempo do assalto às casernas
mas já então eu escrevia o que devia:
a cartilha da guerrilha do amor e da paz
para ser ensinada à luz das lanternas
nas escolas nas igrejas na parada dos quartéis

Este é o meu canto civil
canto cívico desfardado
escrito a vinte e cinco e oito de abril
do ano passado à noite
de punho cerrado com alegria e sem espanto
canto para ser cantado de dia
por todos por muitos por mim ou por ninguém:
Soldado raso
ao cimo da calçada
em guarda
de flor e farda
a flor que te damos
é pão da madrugada

É pão amassado
sem liberdade
é gesto de guerra
em nome da paz
É flor de canção
em terra mar e ar
rubra flor popular
num só cano de espingarda

Soldado raso
em sentido na memória
lembra-te de novo e sempre
a flor que te damos
é da terra é do povo
é pão da madrugada.

Orlando da Costa

18.4.20

ABRIL: Da Liberdade e da Esperança - Poesia (XVIII)

Já estou na Terceira Idade
JÁ ESTOU NA TERCEIRA IDADE 
CONTO QUEIXUMES DA VIDA
MAS LUTO P´LA LIBERDADE
NÃO TENHO A ESP´RANÇA PERDIDA

Eu fui ajuda de gado
Era ainda uma criança
Ficou-me bem na lembrança
Esse tempo amargurado
Cheio de frio e molhado
 Em dias de tempestade
Trabalhei depois mais tarde
Em companha de ganhões
Sempre a levar encontrões
JÁ ESTOU NA TERCEIRA IDADE.

Assim passei as semanas
Passei os meses e os anos
Nos campos Alentejanos
E a dormir pelas cabanas
Tantas pessoas humanas
Que morreram nesta lida
Tenho ainda a dor sentida
De tanto ser torturado 
Ao recordar o passado
CONTO QUEIXUMES DA VIDA.

A trabalhar noite e dia
Foi até que envelheci
Tão oprimido vivi
Qu´até nem falar podia
O Salazar assim queria
Ver toda a Humanidade
P´ra governar à vontade
Sem ninguém se revoltar
Já estou velho p´ra lutar
MAS LUTO PELA LIBERDADE.

Bento de Jesus Caraça
Lutou p´la educação
P´ra libertar a nação
Do atraso e da desgraça 
Há-de haver mais quem o faça
A luta não está esquecida
Será feito em seguida
Tudo o que ele pretendia
Que haverá Democracia
NÃO TENHO A ESP´RANÇA PERDIDA.

Anastácio Pires (Orvalhos)
“Há tanta ideia perdida...” – 28/5/1983 

17.4.20

ABRIL: Da Liberdade e da Esperança - Poesia (XVII)

EU NASCI NO ALENTEJO... (1980)
Eu nasci no Alentejo
Descendo de camponeses
Usei calças remendadas
Passei fome muitas vezes.
Criança nunca pude ser
Nem me deram chocolates
Fui p´ra um monte ser ganhão
Guardei porcos a penates
Sou filho desta região.

Eu nasci no Alentejo
Mondei trigo e cevada
Comi migas e açordas
No Posto levei porrada.
Sei lidar c´uma parelha
Deitar belgas e semear
Trato bem de um alavão
Não me enrasco a ordenhar
Sou filho desta região.

Eu nasci no Alentejo
suportei ruim fadário
perdi a saúde no campo
e enchi a bolsa do agrário.
Apanhei muita azeitona
conheço bem a geada
trabalhei para o patrão
tive uma vida danada
sou filho desta região.
Pires Campaniço

15.4.20

ABRIL: Da Liberdade e da Esperança - Poesia (XV)

Flagelados do Vento-Leste

"Nós somos os flagelados do Vento-Leste!

A nosso favor
não houve campanhas de solidariedade
não se abriram os lares para nos abrigar
e não houve braços estendidos fraternamente para nós

Somos os flagelados do Vento-Leste!

O mar transmitiu-nos a sua perseverança
Aprendemos com o vento o bailar na desgraça
As cabras ensinaram-nos a comer pedras para não perecermos

Somos os flagelados do Vento-Leste!

Morremos e ressuscitamos todos os anos
para desespero dos que nos impedem a caminhada
Teimosamente continuamos de pé
num desafio aos deuses e aos homens

E as estiagens já não nos metem medo
porque descobrimos a origem das coisas
(quando pudermos!...)

Somos os flagelados do Vento-Leste!

Os homens esqueceram-se de nos chamar irmãos
E as vozes solidárias que temos sempre escutado
São apenas
as vozes do mar
que nos salgou o sangue
as vozes do vento
que nos entranhou o ritmo do equilíbrio
e as vozes das nossas montanhas
estranha e silenciosamente musicais

Nós somos os flagelados do Vento-Leste!"
Ovídio Martins (Cabo Verde)

12.4.20

ABRIL: Da Liberdade e da Esperança - Poesia (XII)

Burgueses

"No me dan pena los burgueses vencidos.
Y cuando pienso que van a dar me pena,
aprieto bien los dientes, y cierro bien los ojos.

Pienso en mis largos días sin zapatos ni rosas,
pienso en mis largos días sin sombrero ni nubes,
pienso en mis largos días sin camisa ni sueños,
pienso en mis largos días con mi piel prohibida,
pienso en mis largos días Y

No pase, por favor, esto es un club.
La nómina está llena.
No hay pieza en el hotel.
El señor ha salido.

Se busca una muchacha.
Fraude en las elecciones.
Gran baile para ciegos.

Cayó el premio mayor en Santa Clara.
Tómbola para huérfanos.
El caballero está en París.
La señora marquesa no recibe.
En fin Y

Que todo lo recuerdo y como todo lo recuerdo,
¿qué carajo me pide usted que haga?
Además, pregúnteles,
estoy seguro de que también
recuerdan ellos."

 Nicolás Guillén, poesia

11.4.20

ABRIL: Da Liberdade e da Esperança - Poesia (XI)

A instrução não faz falta

A instrução não é precisa
A instrução não convém
Que a instrução embrutece
A quem muita instrução tem

O rico por ter estudo
Não faz trabalhos de peso
E os encargos de desprezo
Não os faz quem não seja rudo
O que nada sabe faz tudo
É o que menos merece
É aquele que não conhece
O que serve ter aprendido
Há tanto homem instruído
Que a instrução embrutece

Ver-se o pobre ignorante
Não causa admiração
Ele não recebeu instrução
Não vê os erros por diante
Admira é o estudante
Que vai a Coimbra e vem
Não é um são mais de cem
Se a gente os for a contar
Isso é que é para admirar
A quem muita instrução tem.

Duques marqueses morgados
Família de igual medida
É tudo gente instruída
Alguns em direito formados
Lentes e deputados
A sorte os harmoniza
Só a eles Deus autoriza
A conhecer o bem do mal
Para a base fundamental
A instrução não é precisa.

Se todos pudessem estudar
E todos pudessem saber
Quem havia de exercer
Por aí tanto lugar?
Ninguém queria trabalhar
Cuidar dos gados de alguém
O estudo para quem não tem
Não é útil o seu ensino
Para quem é pequenino
A instrução não convém.

Ti Belchior - Casevél (Castro Verde)
Décimas feitas no início do século passado
Foto: Alunas e a professora da Escola de Arez

10.4.20

ABRIL: Da Liberdade e da Esperança - Poesia (X)

O país de uma nota só

"Não pretendo nada,
nem flores, louvores, triunfos.
nada de nada.
Somente um protesto,
uma brecha no muro,
e fazer ecoar,
com voz surda que seja,
e sem outro valor,
o que se esconde no peito,
no fundo da alma
de milhões de sufocados.
Algo por onde possa filtrar o pensamento,
a ideia que puseram no cárcere.

A passagem subiu,
o leite acabou,
a criança morreu,
a carne sumiu,
o IPM prendeu,
o DOPS torturou,
o deputado cedeu,
a linha dura vetou,
a censura proibiu,
o governo entregou,
o desemprego cresceu,
a carestia aumentou,
o Nordeste encolheu,
o país resvalou.

Tudo dó,
tudo dó,
tudo dó...
E em todo o país
repercute o tom
de uma nota só...
de uma nota só... "

  Carlos Marighella, poesia
Foto: Mário Mendes - 25/4/2009

8.4.20

ABRIL: Da Liberdade e da Esperança - Poesia (VIII)

A menina fútil
A menina fútil deu um bodo aos pobres;
pela primeira vez pôs avental…
Falou do gesto e seus intuitos nobres,
com palavrinhas brandas, o jornal…
– Os pobres ficaram pobres
e a menina fútil nunca mais pôs avental…

A menina fútil tem um cão de raça
que nunca saiu do quintal
e nunca viu uma cadela …
– Para a menina fútil, o seu cão de raça
deixou de ser um animal
e é um cãozinho de flanela …
… e a menina fútil tem um namorado
e atira-lhe promessas da janela …

Promessas … porque o resto era pecado
e pecar não é com ela …
(Fica sempre na rua, o namorado,
e é tão distante a janela … )
Mas a menina fútil tem um namorado;
tem um cão como feito de flanela;
e anda feliz por dar um bodo aos pobres
e ter descido a pôr um avental…
Lê e relê os seus intuitos nobres;
recorta o seu retrato do jornal;
– e os pobres continuam pobres,
e a menina fútil nunca mais põe avental…
Sidónio Muralha
Foto: Mário Mendes - 25 Abril 2014

7.4.20

ABRIL: Da Liberdade e da Esperança - Poesia (VII)

As mãos

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

Manuel Alegre, O Canto e as Armas, 1967

6.4.20

ABRIL: Da Liberdade e da Esperança - Poesia (VI)

Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam
como estas árvores que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que sonho
é vinho, é espuma, é fermento
bichinho alacre e sedento
de focinho pontiagudo
que fuça através de tudo 
em perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela é cor é pincel
base, fuste, capitel
que é retorta de alquimista
mapa do mundo distante
Rosa dos Ventos Infante
caravela quinhentista
que é cabo da Boa-Esperança

Ouro, canela, marfim
florete de espadachim
bastidor, passo de dança
Columbina e Arlequim
passarola voadora
para-raios, locomotiva
barco de proa festiva
alto-forno, geradora
cisão do átomo, radar
ultrassom, televisão
desembarque em foguetão
na superfície lunar

Eles não sabem nem sonham
que o sonho comanda a vida
que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos duma criança
António Gedeão

5.4.20

ABRIL: Da Liberdade e da Esperança - Poesia (V)

Trova do Vento que Passa

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio — é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre

2.4.20

ABRIL: Da Liberdade e da Esperança - Poesia (II)

Liberdade

Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.  
Miguel Torga