15.9.25

OPINIÃO: Pornografia do ódio


O caso do português que publicou um vídeo onde oferecia 500 euros a quem lhe entregasse a "cabeça de um brasileiro" não representa apenas a escalada xenófoba que contamina o debate público. É a prova de que as redes sociais são incapazes de combater o discurso de ódio. Incapazes e cúmplices. O pasteleiro, que acabou por ser detido e a responder à Justiça por apologia à violência, só foi travado porque, conforme explica a própria Polícia, provocou "forte alarme social" e mobilizou a opinião pública, resultando em várias denúncias. Ou seja, o vídeo viral só foi travado por intervenção do Ministério Público e não por ação das plataformas que o acolheram. O vídeo em questão circulou durante horas. O algoritmo, que nos retém, nos vicia e nos molda, amplificou o conteúdo. A passividade das plataformas não é, portanto, apenas uma falha técnica. É um posicionamento estratégico. É neste contexto que ganham peso as palavras da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que, na quarta-feira, comparou as redes sociais ao tabaco, ao álcool e à pornografia. "Na minha época, nós ensinávamos os nossos filhos que não podiam fumar, beber e assistir a conteúdo adulto antes de uma certa idade. Acredito que chegou a hora de considerarmos fazer o mesmo em relação às redes sociais", disse no discurso anual sobre o Estado da União, onde admitiu proibir as redes sociais na UE a menores de 16 anos. Vários países seguem o mesmo pensamento. A Austrália já legislou nesse sentido. Em geral, a opinião pública concorda. Pena é que pais e eleitores abdiquem de decidir o que é melhor para os seus filhos, entregando aos governos uma responsabilidade que deveria ser sua.

·         Manuel Molinos – Jornal de Notícias - 12 de setembro, 2025

 

14.9.25

NISA: Três freguesias à beira do vazio demográfico


Santana, São Matias e Montalvão, no concelho de Nisa, sentem, desde há décadas o flagelo da desertificação humana. As taxas de natalidade são as mais baixas de todo o Alentejo. Não nascem bebés, os jovens partem em demanda de uma vida melhor. As aldeias e vilas vão perdendo o seu fulgor e o frémito de vida que as animava.

As três freguesias têm em comum a proximidade do rio Tejo, a ruralidade da paisagem e o envelhecimento da população.  A de Montalvão foi sede de concelho entre 1512 e 1836. Na Igreja Matriz está sepultado o último Grão-Mestre dos Templários, D. Frei Vasco Fernandes.

Em 1801, no concelho (Montalvão e Salavessa)  viviam 1327 almas. De 1864 a 1940 esse número teve um crescimento significativo, mas a partir desta década dá-se um movimento de sentido contrário. A perda de população é progressiva e vai aumentando de censo para censo. O êxodo rural, a emigração interna (Grande Lisboa) e para o estrangeiro  (França, principalmente) deixam a freguesia quase sem gente activa para trabalhar a terra, a grande fonte de rendimento  das populações.

A construção da Celulose do Tejo e da Barragem de Cedillo, no início da década de 1970 trouxeram  alguma  esperança  e animação às povoações e concelhos próximos (Nisa e Vila Velha de Ródão) e a empresa sedeada em Ródão conseguiu fixar gente jovem e é,  ainda hoje, a principal empregadora dos dois concelhos vizinhos do Tejo.

A tendência de despovoamento do país, especialmente do interior acentuou-se na década de 80 e a população portuguesa entrou  num processo de declínio, passando de uma população jovem  a uma população envelhecida com uma representação piramidal. Este envelhecimento demográfico, com a perda da população jovem de forma progressiva, foi mais sentido no interior do país e o concelho de Nisa não foi excepção.

Desde os anos 80, o número de nascimentos tem vindo a diminuir, situação reflectida  na base da pirâmide etária que mostra haver cada vez menos crianças.

De tal modo que em 2021, na divulgação dos resultados dos Censos, o concelho foi notícia por numa das suas freguesias (Santana) ter registado a maior percentagem de idosos em Portugal. Segundo os números do Censos 2021, em Santana, 74,7% da população tinha pelo menos 65 anos de idade. Havia na freguesia uma única criança, situação que motivou uma reportagem de um semanário nacional.

A freguesia de S. Matias com seis povoações (Cacheiro, Velada, Chão da Velha, Monte Claro, Falagueira e Montes Matos) está praticamente despovoada. Sobram as casas, algumas de aspecto senhorial, as ruas desertas onde não se vê vivalma e os dados são reveladores do declínio das povoações, apesar da construção da Barragem do Fratel no rio Tejo que teve um efeito perverso, a nível demográfico: criou esperança e renovação, por um lado; acentuou a desertificação após a barragem entrar em funcionamento e, sobretudo, com a automatização desta infra-estrutura.

Dados dos Censos de 2021 indicam que esta freguesia  tinha apenas 5 crianças entre os 0-14 anos e 104 pessoas com 65 anos ou mais. 

Das seis povoações referidas, quatro tinham escola. Duas foram requalificadas e aproveitadas para outras funções, as restantes deixadas ao abandono e aos caprichos da natureza. São monos e nódoas na paisagem.

Voltemos a Montalvão, sede de antigo concelho. Nos dados dos Censos de 2021, a freguesia tinha 8 crianças com idades até aos 14 anos e havia 173 pessoas com 65 anos ou mais.

A antiga vila mantém o edifício da escola, com rés do chão e 1º andar, adaptado a centro cultural e espaço museológico, os edifícios da GNR e Guarda Fiscal, a necessitarem de obras de reabilitação, um lar de idosos moderno e funcional, o antigo castelo e a imponente igreja matriz, pedras angulares do seu passado histórico. 

“ O interior não pode perder a esperança”

Margarida Ribeiro é a presidente da Junta de Freguesia Montalvão, mãe de dois jovens, um com 20 e outro com 15 anos. Após a formação em engenharia agrária optou por fixar-se na terra onde nasceu e aponta algumas das razões da falta de jovens na sua freguesia.

“A Freguesia de Montalvão era uma terra de pessoas que trabalhavam principalmente no campo, na agricultura e na pastorícia, trabalho esse muito desvalorizado na sociedade. Em busca de vidas melhores ou com mais qualidade, saíram das suas terras muita gente em idade reprodutiva, tanto a nível profissional como pessoal.

Esse foi o principal factor que fez com que a nossa freguesia ficasse envelhecida e com pouco jovens.

Actualmente temos menos de 10 jovens e crianças, pois a falta de mais empresas na zona causa essa situação, mas também temos uma população pouco empreendedora, isso leva a que cada vez sejamos menos.”

Questionada sobre as medidas que poderiam ser tomadas para tentar inverter esta situação, disse-nos:

“ Quanto ao futuro, apenas me resta dizer que temos esperança que mude, pois existem agora mais meios e condições para que as pessoas se possam fixar no interior, estou a referir me ao custo de vida mais barato, acesso a novas tecnologias, entre outros que promovem uma melhor qualidade a nível de vida pessoal.”

O desporto como paixão

João Mourato Ribeiro tem 15 anos e é um dos poucos jovens da freguesia. Estuda em Nisa, está no 10º ano, área de desporto.

O desporto é, de resto, uma das suas actividades preferidas de ocupação dos tempos que sobram do estudo, ainda que sejam raros os companheiros para uma boa “futebolada” na rua. Ao contrário do irmão, o campo e a vida rural dizem-lhe pouco. Prefere aproveitar o tempo a jogar na internet e as suas preferências centram-se mais nas ofertas do mundo urbano.

 O que faz falta

Não é apenas animar a malta, como diz a canção, mas atentarmos nos números do nosso progressivo vazio demográfico, em Nisa e no país. 

O concelho de Nisa, globalmente, é um espelho dos dados das três freguesias referidas. Basta dizer que em 2024 havia 455,9 pessoas com  65 anos e mais, por cada 100 menores de 15 anos.

De acordo com Lara Patrícia Tavares,  num estudo para a Fundação Francisco Manuel dos Santos,  “a baixa fecundidade veio para ficar. Em Portugal como  n maior parte do mundo.”

Não haverá cada vez menos crianças e jovens só porque nascem menos bebés! É preciso ter em linha de conta o envelhecimento populacional, a saída de jovens por falta de oportunidades económicas, a escassez de serviços de apoio às famílias, entre outros factores.

Não há uma “receita” para vermos aumentar o número de bebés!

Sabemos, sim, que são precisas medidas para reconstruir o tecido social e estas não podem centrar-se em medidas avulsas e de efeito , apenas, imediato ou de “paninhos quentes”. 

É certo que o poder local não pode resolver por si só, um problema que é nacional e até transnacional, mas pode pensar com responsabilidade no desenvolvimento do território e dar o seu contributo sério para a minorar o problema do “inverno” demográfico.

Como um “dinossauro” autárquico dizia, já há alguns anos, “continuamos a construir infra-estruturas  que, no futuro próximo, ninguém irá utilizar”.

É preciso criar condições, entre estas, emprego, ambiente, segurança,   para atrair e fixar pessoas, jovens casais , preferencialmente, que  aqui em Nisa, no Alentejo e no interior do país  possam sentir ser este o seu lar para poderem dar mais vidas à vida e abrir novos horizontes ao futuro.

Para além do poder local, as políticas públicas são essenciais para responder aos desafios desta realidade de um país envelhecido e que deverá perder 23% da sua população activa, entre os 20 e os 64, até 2060, segundo  Lara Tavares, atrás citada. 

Em Nisa, a Câmara Municipal implementou o programa Nascer em Nisa com a atribuição de um valor pecuniário de 500 euros (primeiro filho)  ou 750 euros (segundo filho). É uma ajuda ou incentivo esporádico e que não representa uma solução.  É preciso ir mais longe, desde o estímulo à criação de emprego, à melhoria de salários, à criação de apoios à habitação, como a auto-construção, apoios nas rendas de casa e na reabilitação de casas devolutas.

Estes são, seguramente, dois dos principais problemas que o país enfrenta , a baixa natalidade e a baixa taxa de fecundidade.

As entidade públicas, Estado e Autarquias Locais, não podem  desresponsabilizar-se do papel que lhes cabe na organização social do território e na criação de condições de vida digna para os seus naturais e para todos aqueles que sentem o nosso país como a sua casa e nela querem construir o seu ninho familiar e o seu futuro. 

             Mário Mendes in "Alentejo Ilustrado"  - Setembro 2025

PORTALEGRE: Recuperação de bufo-real


O Comando Territorial de Portalegre, através do Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) do Destacamento Territorial de Portalegre, ontem, dia 11 de setembro, recuperou um bufo-real, no concelho de Portalegre.

Na sequência de um alerta por parte de um cidadão a dar conta de que se encontrava uma ave presa numa rede de vedação e com uma asa ferida, os elementos do SEPNA dirigiram-se ao local.

Na sequência da ação, a ave foi resgatada e entregue no Parque Natural da Serra de São Mamede, para monitorização do seu estado de saúde e recuperação.

A Guarda Nacional Republicana, através do Serviço da Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA), tem como preocupação diária a proteção dos animais, apelando à denúncia de situações de âmbito ambiental. Para o efeito, poderá ser utilizada a Linha SOS Ambiente e Território (808 200 520) funcionando em permanência para a denúncia de infrações ou esclarecimento de dúvidas.

CASTELO DE VIDE: Exposição “Janelas e Portas de Castelo de Vide” de António Busca


Jornadas Europeias do Património 2025:

O Grupo de Amigos de Castelo de Vide assinala as Jornadas Europeias do Património. O programa 2025 local inclui a exposição de fotografias “Janelas e Portas de Castelo de Vide” da autoria de António Manuel Pacheco Busca (coleção particular) que será inaugurada pelas 17h00 da segunda-feira dia 15 de setembro na Sala Polivalente da Escola Garcia d’Orta onde pode ser vista até 26 de setembro.

Igualmente haverá lançamento e venda de um conjunto de postais antigos de Castelo de Vide, numa sessão conjunta com a presença de professores, alunos e elementos da comunidade educativa.

As Jornadas Europeias do Património são uma atividade anual do Conselho da Europa e da União Europeia que envolve mais de 50 países, no âmbito da sensibilização dos povos europeus para a importância da salvaguarda do Património.

A ideia base é promover o acesso aos monumentos e sítios, convidando à participação ativa na descoberta de uma herança cultural.

 

9.9.25

EXPOSIÇÃO: Tempo Zero - Nem paz nem guerra


09 de setembro 2025 - 09 de setembro 2025

Inauguração da exposição do artista plástico saharaui Aawah Walad.

Lisboa, Ler Devagar - Lx Factory, 18h

Entre 9 e 14 de Setembro, na Livraria Ler Devagar (Lx Factory, Lisboa), vamos ter oportunidade de ver uma série de obras de um excecional artista saharaui: Aawah Walad.

"Tempo Zero" tem como objetivo dar visibilidade à história e à vida quotidiana do povo saharaui durante mais de cinco décadas de exílio.

Através das pinturas apresentadas, o artista procura transmitir uma mensagem clara: "Apesar do esquecimento, nós existimos; e apesar do exílio, continuamos a encontrar momentos de beleza, dignidade e resistência."

É para a AAPSO uma enorme honra poder trazer a Portugal tão importante exposição.

A inauguração, no dia 9 de setembro às 18:00, contará com a presença de Aawah Walad.

Visitas guiadas pelo artista: 10 e 13 de Setembro, às 16:30 e às 18:00.

Inscrição obrigatória (até 24 horas antes) para o email aapsaharao@gmail.com

8.9.25

Mulheres marcam colheita de sangue em Montargil



A outrora capital do pêssego do Alentejo, graças aos extensos pomares e qualidade comprovada dos seus apetitosos frutos, recebeu uma brigada estival. Mais uma iniciativa abraçada pela Associação de Dadores Benévolos de Sangue de Portalegre – ADBSP – e da Unidade Funcional de Imunohemoterapia da ULSAALE. Fomos recebidos no centro de saúde desta localidade do concelho de Ponte de Sor, no qual entraram 23 voluntários, 15 deles do sexo feminino (65,2 %, o que é uma marca a ser realçada).

De Montargil seguiram, para as reservas regionais, 23 unidades de sangue total, dado que todos os inscritos estavam em condições de estender o braço.

Uma mulher doou sangue pela primeira vez na vida – e que bom se outros lhe seguirem o exemplo.

O almoço, servido aos dadores e equipas no final da manhã, contou com o apoio da Junta de Freguesia de Montargil.

No kartódromo de Portalegre

Sábados de manhã têm lugar as nossas colheitas. Todos estão convidados a ir ao kartódromo de Portalegre a 20 de setembro, no contexto do 26.º aniversário do Grupo Motard Novo Milénio. Na sede do Rancho Folclórico de Arronches temos encontro marcado a 27 de setembro

Contamos com a sua partilha! E que tal visitar: https://www.facebook.com/AssociacaoDadoresBenevolosSanguePortalegre/

JR







7.9.25

SOUSEL: Detido por posse de armas proibidas


O Comando Territorial de Portalegre, através do Posto Territorial de Sousel do Destacamento Territorial de Ponte de Sor, no dia 4 de setembro, deteve um homem de 47 anos por posse de armas proibidas, no concelho de Sousel.

No âmbito de uma denúncia por desacatos, os militares da Guarda dirigiram-se ao local. No âmbito das diligências policiais, os militares da Guarda localizaram e identificaram o suspeito, tendo sido possível verificar que se encontrava na posse de duas arma proibidas, tendo sido de imediato detido. Ainda no decorrer da ação foi possível encontrar e proceder à apreensão de mais duas armas na residência do suspeito.

Da ação resultou a apreensão do seguinte material:

Uma arma de agressão;

Uma arma de ar comprimido de calibre 5.5;

Uma pistola de calibre 6.35mm;

Uma espingarda de calibre 12;

Diversas munições.

O detido foi constituído arguido, e os factos foram comunicados ao Tribunal Judicial de Fronteira.

MARVÃO: homem mordido por víbora esperou mais de 10 horas por antídoto

 


Um homem foi mordido por uma víbora-cornuda em Marvão e só recebeu o antídoto mais de dez horas depois, após passar por três hospitais e enfrentar uma longa espera por transporte médico. A demora agravou o estado clínico, levando à necrose do dedo e à necessidade de tratamentos especializados.

Segundo a SIC o incidente ocorreu no dia 26 de agosto, por volta das 10h30, quando Fabien foi surpreendido pela mordida da víbora-cornuda, uma espécie comum em zonas montanhosas de Portugal.

A estação televisiva acrescenta que após contactar o 112, foi encaminhado para o Hospital de Portalegre, onde não havia o antídoto necessário. Recebeu apenas analgésicos e teve de aguardar mais de duas horas por uma ambulância para ser transferido para Lisboa.

No Hospital de São José, também não havia o antídoto específico, sendo necessário recorrer ao Hospital de Santa Maria, onde Fabien finalmente recebeu o tratamento, já perto das 20h00. Durante esse período, a dor foi intensa e o dedo afetado entrou em necrose.

Fabien iniciou oxigenoterapia hiperbárica, um tratamento reconhecido como eficaz em casos de necrose, e recebeu três doses de antídoto, plasma e antibióticos. A recuperação está a decorrer de forma positiva, com cirurgia prevista para remoção do tecido morto.

O Hospital de Portalegre reconheceu que não possui o antídoto para este tipo de víbora, mas garante que seguiu os protocolos de transferência estabelecidos.

O caso levanta preocupações sobre a disponibilidade de antídotos em hospitais do interior e a capacidade de resposta em situações de emergência envolvendo espécies venenosas.

·         Gabriel Nunes – Rádio Portalegre - 06-09-2025

4.9.25

NISA: Conheça os poetas do concelho (L): António Borrego


SÓ QUERIAM VIVER

há crianças a chorar

há crianças a morrer

no mar...

o barco onde seguiam

era um "cavalo louco"

um monstro visível

que devora os náufragos

o "monstro da indiferença"

olharam a morte nos olhos

sucumbiram...sem resistência

navegavam em busca de vida

não chegaram à terra prometida

a morte...

não lhes declamou poemas

matou-as...apenas

não eram filhos de Jacob

nem Jubulon o marinheiro

os salvou

nas avenidas de luxo

continuam fechadas

as portas das embaixadas

dormem os diplomatas descansados

os profetas não falaram de Aylan

os "tolos" falam em contaminação

os religiosos buscam alivio

nas inúmeras "casas de Deus"

os refugiados não têm casa

na avenida escura

uma das prostitutas disse

coitadas das crianças

um travesti apoiou

e, foi para casa chorar

nessa noite...

já não conseguiu trabalhar

anda a morte no mar

espreita os mais frágeis

SÓ QUERIAM VIVER

A.B. 2015

Reconhecer a Palestina: um passo rumo à paz ou um disfarce diplomático?

Nos próximos meses, tudo indica que assistiremos ao reconhecimento do Estado da Palestina por parte de países como França, Reino Unido, Austrália, Canadá, Malta e Portugal. Estes juntar-se-ão aos cerca de 145 países que já reconheceram o Estado da Palestina desde 1988.

Muitos observadores consideram que este passo diplomático já vem com um longo atraso. Em 1994, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) – o único representante legítimo do povo palestiniano –, sob a liderança de Yasser Arafat, assinou os Acordos de Oslo, comprometendo-se com a solução dos dois Estados. Com Oslo, os palestinianos aceitaram e reconheceram o Estado de Israel com base nas fronteiras de junho de 1967. Esperava-se que Israel retribuísse, reconhecendo o Estado da Palestina, mas isso nunca aconteceu. Além disso, a comunidade internacional, dominada pelos países ocidentais, doou milhares de milhões de dólares em projetos supostamente destinados a apoiar o futuro Estado da Palestina, mas depois evitou comprometer-se com o reconhecimento político do Estado cuja criação supostamente financiava.

Céticos apressaram-se a classificar este reconhecimento como um gesto vazio – simbólico, mas com pouco impacto concreto na realidade no terreno, já que toda a zona continuará sob controlo israelita, incluindo os territórios definidos pelo direito internacional como ocupados. O ainda-por-reconhecer Estado palestiniano não tem soberania sobre o seu território terrestre, marítimo ou aéreo, nem sobre as suas fronteiras ou redes de comunicação. A sua economia continuará a ser manipulada pela largamente dominante economia israelita, o seu mercado continuará a ser explorado e a segurança da sua população permanecerá, na melhor das hipóteses, precária.

Particularmente porque as iniciativas previstas carecem de clareza quanto às fronteiras dentro das quais será reconhecido o Estado da Palestina, várias questões diplomáticas permanecem sem resposta. Países como França e Reino Unido mantêm há anos consulados em Jerusalém Oriental; serão agora elevados a embaixadas? Poderão as pessoas palestinianas viajar livremente para os países que reconhecem o Estado da Palestina e beneficiar de isenções de visto semelhantes às dos titulares de passaporte israelita? No plano económico, passarão os produtos palestinianos a ter tratamento preferencial nos mercados europeus, tal como os produtos israelitas? Podemos esperar um Acordo de Associação com a Palestina que elimine ou reduza tarifas e outras barreiras comerciais para bens produzidos no Estado palestiniano?

Muitos de nós no movimento de solidariedade vemos este reconhecimento como uma tentativa de lançar areia para os olhos do mundo. A principal questão neste momento não é o reconhecimento político, independentemente da sua moralidade ou viabilidade. A urgência agora é parar o genocídio e expôr e condenar os crimes de guerra e crimes contra a humanidade que Israel comete à vista de todos, nos nossos ecrãs, todos os dias. Não é controverso afirmar que a ação mais moral a tomar neste momento é parar ativamente a fome deliberada e a matança desenfreada. Quatro agências das Nações Unidas – Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO), Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Programa Alimentar Mundial (PAM) e Organização Mundial da Saúde (OMS) – confirmam agora que a Cidade de Gaza e arredores estão a viver uma situação de fome. O Quadro Integrado de Classificação da Segurança Alimentar (IPC), utilizado por governos e organizações internacionais para avaliar os níveis de fome no mundo, elevou a classificação da Faixa de Gaza para a Fase 5, a mais alta e severa, confirmando que mais de meio milhão de pessoas enfrentam condições "catastróficas", caracterizadas por "fome, miséria e morte".

A intervenção internacional para pôr fim a esta agressão está, sem dúvida, muito atrasada, e os apelos para parar o fornecimento de armas a um exército que comete diariamente crimes de assassinato indiscriminado, destruição massiva e fome estão a intensificar-se. No entanto, há a preocupação de que os países ocidentais estejam a tentar desviar a atenção da sua própria cumplicidade. O reconhecimento político parece positivo e construtivo mas, nos bastidores, os mesmos governos continuam a negociar com Israel e a fornecer componentes militares ao Estado que ativamente nega a existência da Palestina e procura apagar a identidade coletiva do povo palestiniano.

Recentemente, a Ministra dos Negócios Estrangeiros da Austrália, Penny Wong, alertou que “há o risco de não restar nenhuma Palestina para reconhecer”. A matança em massa e a fome, somadas aos planos israelitas para voltar a ocupar Gaza com os seus próprios cidadãos, colocam em risco não só a viabilidade de Gaza em si, mas também a possibilidade de criação de um Estado em todos os territórios palestinianos reconhecidos internacionalmente como ocupados. Em maio deste ano, o governo israelita aprovou a criação de 22 novos colonatos judaicos na Cisjordânia, e anunciou agora em agosto um plano de construção de cerca de 3,400 habitações na zona conhecida como E1 — o único corredor que resta às pessoas palestinianas para se deslocarem entre o norte e o sul da Cisjordânia. Esta decisão anula a viabilidade de uma solução de dois Estados. O aumento da presença de colonos e um governo israelita extremista, que promove a impunidade e a supremacia judaica, resultou numa escalada dramática da violência contra as pessoas palestinianas na Cisjordânia, criando um ambiente coercivo que acelera o seu deslocamento e facilita o controlo ainda mais profundo sobre o território e a vida quotidiana.

Torna-se, portanto, vital reformular o reconhecimento do Estado da Palestina como o reconhecimento do povo palestiniano enquanto coletivo nacional. Toda a crítica anterior é válida, mas devemos acolher o reconhecimento como uma afirmação do nosso direito a viver livres da ocupação, do racismo e da exploração. O reconhecimento deve permitir-nos celebrar a nossa história, cultura, língua e identidade, independentemente das realidades políticas que se venham a desenvolver.

O reconhecimento pode também abrir portas a novas ferramentas diplomáticas, quadros legais e até oportunidades políticas para avançar na defesa de uma Palestina verdadeiramente livre, soberana e independente. O reconhecimento  não deve ser como uma folha de figueira, que serve para encobrir – deve assinalar o início de uma mudança, não o fim de um processo. Para ter impacto, deve ser seguido de medidas concretas: um embargo de armas, suspensão de privilégios comerciais, aplicação de decisões legais internacionais e garantias de direitos a pessoas refugiadas. O reconhecimento pode ser um ponto de viragem – mas apenas se for sustentado por uma pressão real que provoque mudanças no terreno.

Perante a inércia dos governos ocidentais, a crescente indignação pública e a solidariedade crescente com o povo palestiniano em todo o mundo são visíveis e comoventes. Devem ser alimentadas e incentivadas para se tornarem mais eficazes e estratégicas, pois o seu sucesso será medido pela capacidade de encontrar formas de desafiar e mudar políticas governamentais que, durante décadas, apoiaram Israel independentemente das suas ações. As campanhas lideradas, sobretudo, por organizações da sociedade civil, instituições de ensino e organizações comerciais do setor privado devem focar o seu discurso em princípios universais concretos: liberdade, justiça, dignidade e responsabilização.

Ligar lutas pela liberdade em todo o mundo à luta do povo palestiniano é uma das formas mais eficazes de alargar o movimento, garantindo a sua inclusão e caráter internacional. Do mesmo modo, a sustentabilidade de qualquer solução deve assentar na justiça – tanto na reparação de injustiças históricas como no avanço para novas realidades políticas –, acima de tudo, na implementação do direito de retorno e na criação de soluções justas para os refugiados palestinianos.

Os palestinianos não são filhos de um Deus menor. O seu direito a viver com dignidade – não apenas como indivíduos, mas também como nação e povo indígena – é fundamental. Setenta e sete anos após o início da Nakba – o processo de desumanização, subjugação e colonização do povo e da sua terra que continua até hoje – devemos lutar para proteger e restaurar o respeito pela humanidade do povo palestiniano.

Depois da destruição em curso em Gaza e o assassinato do seu povo terminar, será necessário fazer uma reavaliação. Devemos continuar a falar sobre a responsabilidade pelo que foi feito. É necessário questionar o porquê, onde e – sobretudo – quem. O mundo exigirá, com razão, inquéritos independentes. As provas devem continuar a ser recolhidas. Devemos ser firmes em levar à justiça aqueles que cometem genocídio. Devemos isso às vítimas, onde quer que estejam, mas também a nós próprios – pois a luta por justiça definirá o mundo que deixaremos aos nossos filhos.

O momento atual é sombrio e o sangue continua a ser derramado – mas devemos manter o nosso compromisso com aquilo que é, inquestionavelmente, uma luta justa e moral. A Palestina tornou-se num teste decisivo para a humanidade. Devemos orgulhar-nos de fazer parte de uma luta que inclui todos, um movimento único que une pessoas independentemente da religião, etnia, género ou cultura. Os palestinianos estão a abrir novos caminhos de libertação nacional que vão além do nacionalismo, abraçando o reconhecimento universal de princípios e valores que são intrinsecamente globais e humanos.

MAHMOUD MUNA  - LIVREIRO PALESTINIANO in www.fumaca.pt

3.9.25

NISA: A MORTE DE ANTÓNIO PEQUITO

António de Oliveira Caixado Pequito é o decano dos oleiros nisenses. Anda há mais de 70 anos a “atirar o barro à parede”, a fazer ginástica com os pés e as mãos, agitando a roda com que vai moldando cada peça de barro. Começou a actividade mal saiu da escola e só a interrompeu para cumprir o serviço militar, com passagem por Angola. Pela sua oficina na antiga rua do Depósito da Água passaram milhares de pessoas, gente letrada e outras nem tanto, umas e outras movidas pela vontade de aprender ou de perceber a génese e o funcionamento da olaria pedrada de Nisa. À custa de dar ao pedal e de mover a roda de oleiro, percorreu o país de lés a lés, em feiras de artesanato, em iniciativas do poder local ou convidado para programas televisivos. Participações quase sempre acompanhado pela esposa, Joaquina da Graça Mendes, uma vida inteira a plantar flores na moleza do barro e a incrustá-las, dando-lhe um vivo relevo, de pequeninas pedras em quartzo. Uma vida a dois, a que se juntou vinda dos filhos e netos. Uma história de vida, dedicada à olaria pedrada de Nisa e que merece ser reconhecida."

NOTA

Este pequeno texto escrevi-o, como nota final, num artigo que foi publicado no "Alentejo Ilustrado" sobre a "Nova Vida da Olaria Nisense".  O Mestre Oleiro, António Pequito, faleceu esta madrugada, após uma vida activa e dedicada à olaria nisense. Era o mais antigo oleiro, um veterano, após mais de 75 anos a atirar o barro à parede e a calcorrear o país na divulgação de uma das artes mais tradicionais de Nisa.

A sua actividade artística, o seu labor, a divulgação que fez das artes tradicionais na moldagem do barro, os conhecimentos que proporcionou a todos quantos se lhe dirigiram, inclusive, estudantes universitários para a elaboração dos seus estudos académicos, encontraram nele e na sua esposa, Joaquina Mendes, o melhor acolhimento, a disponibilidade, o gesto amigo e estimulante de quem sentia verdadeira alegria na transmissão de conhecimentos, da sua longa experiência, a trabalhar numa arte, quase em vias de extinção. Digo quase, porque foi ali na modesta oficina da rua do Depósito das Águas, que uma nova esperança de revigoramento desta arte tradicional de Nisa encontrou o apoio e o estímulo para inovar e projectar-se como esperança de futuro.

Este o maior legado que deixa à vila onde nasceu.

Descanse em paz, primo António Pequito.

Mário Mendes

2.9.25

NISA: Conheça os poetas do concelho (XLIX) - Joaquim Marques

 


INFÂNCIA 

Infância longe ficaste...

Já nebulosa no tempo

Mas na memória presente:

Os serões das histórias,

Sem pesadelos nem glórias.

No inverno á lareira!

Vida simples, verdadeira...

 

Infância longe ficaste...

Momentos de brincadeira,

Ao sol, ao luar, na ribeira...

Aquela raiada bola,

Som do cano de cebola,

O descobrir de um ninho,

Jogar o pião de azinho...

 Infância longe ficaste...


Cadernos, livros, sacola,

O caminho da escola...

Dos velhos o ensinamento,

Do sábio conhecimento,

Que sustenta a amizade...

É imensa a saudade!

 

Infância longe ficaste...

Saudade dos locais,

Daquilo que não volta mais:

Saudade desses tempos,

Saudade dos ausentes,

Saudade dos que ficaram,

E de tantos que já partiram....

 

Joaquim Marques

Fanqueiro, 20 de Maio de 2001

 

 

MONTALVÃO (Nisa): Touradas regressam às Festas da Vila


A Associação Sector 5 Montalvão organiza no próximo fim-de-semana duas touradas à vara larga na Praça de Touros local com gado gentilmente cedido pela ganadaria Godinho & Simão de Póvoa e Meadas. As touradas têm início pelas 17 horas quer no sábado quer no Domingo.

A tourada de Domingo dia 7 de Setembro será abrilhantada pela banda da Sociedade Musical Nisense.

A organização informa que haverá prémios para todas as pegas e que todos os lucros da iniciativa reverterão a favor das obras de requalificação e melhoramento da Praça de Touros de Montalvão.

1.9.25

Alpalhão acolhe duas dúzias de dadores de sangue




Nisa é concelho do Alto Alentejo com área considerável e por onde se espalham múltiplas povoações. Uma delas é a terra onde nasceu o nosso fundador, António Eustáquio. Assim, é sempre motivo especial pisarmos terras de Alpalhão. Fomos recebidos no centro cultural para mais uma brigada conjunta da Associação de Dadores Benévolos de Sangue de Portalegre – ADBSP – e da Unidade Funcional de Imunohemoterapia da ULSAALE.

Em termos de presenças, compareceram 24 pessoas, sendo sete do sexo feminino.

Um dos inscritos não pode completar todas as etapas, por razões clínicas. De Alpalhão saíram 23 unidades de sangue total, o que é de se destacar.

Estrearam-se a doar sangue duas pessoas do sexo masculino, particularidade a considerar.

A Junta de Freguesia de Alpalhão apoiou a realização do almoço convívio que sorriu a quem tornou possível esta dádiva de sangue.



Aniversário Grupo Motard Novo Milénio

A 20 de setembro, numa jornada aberta a toda a população, estaremos no kartódromo de Portalegre, em mais um aniversário – o 26.º – do Grupo Motard Novo Milénio. Uma semana depois, a 27 de setembro, temos encontro marcado na sede do Rancho Folclórico de Arronches. Sempre em sábados de manhã.

35.º aniversário

A 06 de setembro a ADBSP vai apagar 35 velas, com comemorações em Portalegre.

Pelas 10h00 será celebrada Missa na capela do hospital. A sessão solene terá lugar pelas 12h00 no pavilhão do NERPOR - AE. Segue-se o almoço convívio.

Mais informações em: https://www.facebook.com/AssociacaoDadoresBenevolosSanguePortalegre/

JR

OPINIÃO: O bom bombeiro Tiago


O Hugo Rodrigues é jornalista do Sul Informação, site de que gosto muito e por onde passo todos os dias. Desta vez, não resisto a transcrever o texto, são e escorreito – como deve ser toda a escrita jornalística – que serviu como nota de abertura ou resumo da edição do dia.

Bom dia!

Desde que sou miúdo, tenho um bom amigo, o Tiago.

O Tiago não teve uma infância/adolescência fácil, longe disso.

Era um rapaz “forte” - o que lhe valeu a alcunha de Tiago Gordo -, tinha um pai ausente e uma mãe que também não lhe dava muita atenção (em ambos os casos, confesso que não sei exatamente porquê).

Foram os avós do Tiago, um casal fantástico e muito simpático, que o criaram.

Quando tinha esses 14 ou 15 anos, eu e mais dois amigos, que na altura éramos inseparáveis, "adotámos" o Tiago, que é mais novo que eu, e tornámo-nos, de certa forma, os irmãos mais velhos dele.

Nessa altura, o Tiago já era bombeiro voluntário, vocação que cedo abraçou e, muitas vezes, em vez de vir para a farra com os outros putos, ia para a corporação, trabalhar em prol dos outros, sem ganhar nada por isso.

Sim, porque o Tiago, como indica o nome, era voluntário.

Mais tarde, o meu amigo começou a fazer serviço remunerado, nomeadamente como tripulante de ambulância. Hoje, é bombeiro profissional e graduado.

Sempre admirei o Tiago - com o qual não estou, infelizmente, há muito tempo - por esta abnegação. Mas, na verdade, para ele era algo natural, uma vez que sempre foi um miúdo impecável, generoso e atencioso para com os outros, mesmo os que gozavam com ele.

Como o Tiago, há muitos outros Bombeiros Voluntários que dão tudo de si, mesmo que nem sempre tenham as melhores condições para cumprir a sua missão.

Daí que me deixe feliz a notícia que lhe trazemos esta manhã, de um reforço de meios para o Bombeiros da Cruz Lusa de Faro, graças à generosidade de uma benemérita.

·         Hugo Rpdrigues in www.sulinformacao.pt  - 1.09.2025