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13.12.15

POESIA SOCIAL DO ALENTEJO (1)

Os bêbados (1908)  
Os bêbados passam cantando nas ruas
Desertas da aldeia;
Recebem contentes, ao sábado, as jornas
E vão derretê-las à boca das dornas,
De noite, nas tascas, à luz da candeia.

Em chusmas, unidos, é vê-los no escuro
- Que até fazem dó! –
Espectros da fome, sair das tavernas,
Borrachos, cantando, cambadas as pernas,
Os olhos mortiços e as bocas em ó...

Um canta em voz alta; respondem-lhe os outros,
E cresce, enche o ar
Um coro arrastados, soturno, indolente,
E a alma do povo, parece que a gente
A sente cá dentro do peito a chorar!

Trabalham, mourejam de dia, e à noite,
Coitados, lá vão,
Fugidos à gleba, libertos do ancinho,
Embora haja fome, beber, porque o vinho
Alegra e é por isso melhor do que o pão.

Nas praças desertas abraçam-se em grupos,
Meu Deus, que tristeza!
E os braços lhes pesam mais leves nos ombros,
Que o lenho das dores, por esses escombros
Dos rudes calvários, nos ombros lhes pesa.

Os bêbados choram nas noites caladas,
Cantando em segundas,
As queixas doridas, os ais e os lamentos
Que às vezes se escutam na leva dos ventos,
Na voz, no marulho das águas profundas.

O génio das coisas soluça naquelas
Tristezas ocultas,
E os tristes borrachos, cantando nas praças,
Sugerem tragédias, acordam desgraças
Que, ó génio das coisas, na treva sepultas!

Um canta em voz alta; respondem-lhe os outros,
E cresce, enche o ar
Um coro arrastados, soturno, indolente,
E a alma do povo, parece que a gente
A sente cá dentro do peito a chorar!
Conde de Monsaraz
(Musa Alentejana, Lisboa, 1908)
Pintura "Os Bêbados" - José Malhoa - 1907

24.5.15

Poesia Social do Alentejo (I)

O cavador (1909)
Sol-posto. Enxada ao ombro, para a aldeia,
Volta da cava, taciturno e lento
O velho cavador. No espaço anseia
Uma angústia febril, na ânsia do vento...

Vem morto de fadiga e sofrimento;
Cai na vasta paisagem que o rodeia
Frio e noite; vão dar-lhe paz e alento
A mulher andrajosa e a magra ceia:

Comem ambos agora ao pé do lume...
Toda a sua ventura se resume
Na comunhão dessa hora benfazeja.

A mulher, finda a ceia, num conforto,
“ Louvado seja Deus!”, murmura, e, absorto,
Responde o cavador: “Louvado seja!”
Conde de Monsaraz

(Lira de Outono – Poemas do Alentejo – livro incluído em Musa Alentejana, ed. do centenário do autor, Lisboa, 1954)

2.12.13

ADÁGIOS DE DEZEMBRO

DEZEMBRO
* Em Dezembro, descansa, mas não durmas.
* Se os pepinos dessem em Dezembro, ninguém os comeria.
* Dia de S. Silvestre, quem tem carne que lhe preste
* Do Natal ao Entrudo come-se capital e tudo.
* Nem no Inverno sem capa, nem no Verão sem cabeça.
* Natal em casa, Páscoa na praça.
* Pelo Natal ao jogo e pela Páscoa ao fogo.
* Inverno laborioso, Verão venturoso.
* Natal à sexta-feira, por onde andares semeia.
* Em Dezembro, treme o frio em cada membro.
* Natal ao Domingo, vende bois e compra trigo.
* Em Dezembro, lenha e dorme.
* No advento, lebre no Sarmento.
* No dia de Natal, têm os dias mais um salto de pardal.
* Ande o frio por onde andar, no Natal vem cá parar.
* Do Natal a Santa Luzia, cresce um palmo o dia.

POESIA SOCIAL DO ALENTEJO (1)
Partir
Eu vou-me embora para além do Tejo,
não posso mais ficar!

Já sei de cor os passos de cada dia,
na boca as mesmas palavras
batidas nos meus ouvidos...
- Ai as desgraças humanas destas paisagens iguais!
Abro os olhos e não vejo
já não ando, já não oiço...
Não posso mais.

Grita-me a Vida de longe
e eu vou-me embora para além do Tejo.

Passa a ave no céu bebendo azul e diz: - Vem!
O vento envolve-me numa carícia,
envolve-me e murmura: - Vem!
As ondas estalam nas praias e vão mar fora,
as mãos de espuma a prender-me os sentidos
chamam do fundo dos meus olhos: - Vem!

Camaradas, eu vou, esperai um pouco...
Ai, mas a vida nunca espera por ninguém.
E a noite chega vingadora;
O vento rasga-me o fato,
as ondas molham-me a carne
 e a ave pia misticamente no ar;
abro os olhos e não vejo,
já não ando, já não oiço,
- e fico, desgraçado de ficar.
Manuel da Fonseca