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23.6.26

UM POEMA POR DIA, BEM QUE SABIA - Manuel da Fonseca

 


Noite de Sonhos Voada

Noite de sonhos voada

cingida por músculos de aço,

profunda distância rouca

da palavra estrangulada

pela boca armodaçada

noutra boca,

ondas do ondear revolto

das ondas do corpo dela

tão dominado e tão solto

tão vencedor, tão vencido

e tão rebelde ao breve espaço

consentido

nesta angústia renovada

de encerrar

fechar

esmagar

o reluzir de uma estrela

num abraço

e a ternura deslumbrada

a doce, funda alegria

noite de sonhos voada

que pelos seus olhos sorria

ao romper de madrugada:

— Ó meu amor, já é dia!... 

Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"

 

21.6.26

UM POEMA POR DIA, BEM QUE SABIA - Manuel da Fonseca

 


Antes que Seja Tarde

Amigo,

tu que choras uma angústia qualquer

e falas de coisas mansas como o luar

e paradas

como as águas de um lago adormecido,

acorda!

Deixa de vez

as margens do regato solitário

onde te miras

como se fosses a tua namorada.

Abandona o jardim sem flores

desse país inventado

onde tu és o único habitante.

Deixa os desejos sem rumo

de barco ao deus-dará

e esse ar de renúncia

às coisas do mundo.

Acorda, amigo,

liberta-te dessa paz podre de milagre

que existe

apenas na tua imaginação.

Abre os olhos e olha,

abre os braços e luta!

Amigo,

antes da morte vir

nasce de vez para a vida.

 

Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"

 

20.4.20

ABRIL: Da Liberdade e da Esperança - Poesia (XX)


Poema para Florbela

Charneca de vida a vida
Tolhida de solidão
Névoa da água dos olhos
Triste coração pesado
Do coro de ganhões perdidos
Na sombra que cai do céu

Ladrões a comerem estradas
Entre cavalos da guarda
Para a cadeia das vilas
Bebedeira de malteses
Desgraçados e terríveis
Gritando facas de mola
Caminhos do Alentejo
Desde menino vos piso
No meu caminho para Beja

Ó navalhas de malteses!
Coro de ganhões perdidos
Emboscadas de ladrões
Ó urzes, cardos, esteveiras!
Terra bravia de fomes

Caminhos do Alentejo
Deixai-me passar em frente!
Que na Torre Alta de Beja
Florbela grita o meu nome
Sorrindo para os meus olhos
Com os seios tão redondos
Como duas rosas cheias!
Manuel da Fonseca

1.6.14

Dia Mundial da Criança (I)


Menino
No colo da mãe
a criança vai e vem
vem e vai
balança.
Nos olhos do pai
nos olhos da mãe
vem e vai
vai e vem
a esperança.

Ao sonhado
futuro
sorri a mãe
sorri o pai.
Maravilhado
o rosto puro
da criança
vai e vem
vem e vai
balança.

De seio a seio
a criança
em seu vogar
ao meio
do colo-berço
balança.

Balança
como o rimar
de um verso
de esperança.

Depois quando
com o tempo
a criança
vem crescendo
vai a esperança
minguando.
E ao acabar-se de vez
fica a exacta medida
da vida
de um português.

Criança
portuguesa
da esperança
na vida
faz certeza
conseguida.
Só nossa vontade
alcança
da esperança
humana realidade.
Manuel da Fonseca, in "Poemas para Adriano"

2.12.13

ADÁGIOS DE DEZEMBRO

DEZEMBRO
* Em Dezembro, descansa, mas não durmas.
* Se os pepinos dessem em Dezembro, ninguém os comeria.
* Dia de S. Silvestre, quem tem carne que lhe preste
* Do Natal ao Entrudo come-se capital e tudo.
* Nem no Inverno sem capa, nem no Verão sem cabeça.
* Natal em casa, Páscoa na praça.
* Pelo Natal ao jogo e pela Páscoa ao fogo.
* Inverno laborioso, Verão venturoso.
* Natal à sexta-feira, por onde andares semeia.
* Em Dezembro, treme o frio em cada membro.
* Natal ao Domingo, vende bois e compra trigo.
* Em Dezembro, lenha e dorme.
* No advento, lebre no Sarmento.
* No dia de Natal, têm os dias mais um salto de pardal.
* Ande o frio por onde andar, no Natal vem cá parar.
* Do Natal a Santa Luzia, cresce um palmo o dia.

POESIA SOCIAL DO ALENTEJO (1)
Partir
Eu vou-me embora para além do Tejo,
não posso mais ficar!

Já sei de cor os passos de cada dia,
na boca as mesmas palavras
batidas nos meus ouvidos...
- Ai as desgraças humanas destas paisagens iguais!
Abro os olhos e não vejo
já não ando, já não oiço...
Não posso mais.

Grita-me a Vida de longe
e eu vou-me embora para além do Tejo.

Passa a ave no céu bebendo azul e diz: - Vem!
O vento envolve-me numa carícia,
envolve-me e murmura: - Vem!
As ondas estalam nas praias e vão mar fora,
as mãos de espuma a prender-me os sentidos
chamam do fundo dos meus olhos: - Vem!

Camaradas, eu vou, esperai um pouco...
Ai, mas a vida nunca espera por ninguém.
E a noite chega vingadora;
O vento rasga-me o fato,
as ondas molham-me a carne
 e a ave pia misticamente no ar;
abro os olhos e não vejo,
já não ando, já não oiço,
- e fico, desgraçado de ficar.
Manuel da Fonseca