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23.4.20

NISA: Contos populares e lendas (III)

Os três frades
Era uma vez uma mulher casada, muito vistosa, muito bonita. Todos gostavam dela. E ela dizia para o homem que se via perseguida por três frades. Eles diziam que queriam ir comer uma ceia com ela, ceia que eles pagariam e ela faria. O marido, ao saber disto, respondeu-lhe:
- Diz-lhes que venham, que eu fico escondido, fingindo que não estou cá.
Eles foram e estavam para cear todos contentes. E, quando foi o princípio de começarem a por a mesa, veio de lá o marido:
- Psiu! Porem aí todo o dinheiro que trazem!
E ameaçou-os com um pau. Dois deles pagaram e foram-se embora, e ao terceiro, que não tinha dinheiro, meteu-lhe o homem uma vela no rabo, para os alumiar, a ele e à mulher, enquanto comiam. A cera da vela pingava e queimava-o. Quando lhe pareceu, o dono da casa mandou-o embora.
Daí a uns dias foi a mulher à missa toda preparada. Os três frades lá estavam no coro, e disseram então a cantar:
- Aí vem a D. Maria... toda composta...
- À minha custa... nanja à vossa...
- E eu por não ter dinheiro...
- Fizeram - (de mim) me do cu candeeiro...
Conto recolhido em Nisa, em 1933 - in "Contos populares e lendas" - coligidos por J. Leite de Vasconcelos.

21.4.20

NISA: Lendas e Contos populares (I)

O frade ou a mulher ervilhada
Foi um frade a casa de uma mulher casada, e foi quando o marido estava fora, a trabalhar no campo. Este voltou mais cedo do que o costume.
A mulher não o esperava, e escondeu à pressa o frade num canto da casa. Mas, não tendo tempo de esconder os calções do frade, que estavam pendurados, o homem, que entrou e os viu, ficou mal impressionado e saiu outra vez.
A mulher foi contar a uma comadre o que tinha acontecido:
- Ai, comadre, valha-me Deus, o meu homem viu os calções do frade!
Deixa lá, que eu logo arranjo isso... Que foi que ele comeu?
- Comeu ervilhas.
- Pois amanhã levo o almoço ao campo, em teu lugar, e digo que ficaste doente na cama.
Assim fez, e para melhor se sair do negócio, vestiu os calções do frade por baixo da saia. 
Quando a comadre levou o almoço, o homem estava sozinho. Diz ela:
- Deus te salve, compadre, mais a companhia que tens ao pé.
Respondeu ele: - Ó comadre, eu estou sozinho, não tenho mais ninguém.
Logo ela: - Desculpa, compadre, comi ervilhas, ando ervilhada: uma coisa me parecem duas.
- Ó comadre, foste um Deus que aqui me apareceste. Eu ontem também comi ervilhas, e também me pareceu que vi em minha casa duas pessoas, minha mulher e outra pessoa com ela. E estava com sentido de ir matar a tua comadre...
Ela postou-se diante dele, com a saia alevantada, e viam-se os calções do frade que ela tinha vestido. E disse:
- Estás a olhar, compadre, para os meus calções? A comadre também tens uns, irmãos do meus...
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Conto recolhido em Nisa, em 1933 - in "Contos populares e lendas" - coligidos por J. Leite de Vasconcelos.