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14.2.14

ÁLVARO SEMEDO, UM JESUÍTA NISENSE NA CHINA (II)

Apresentamos, aqui, a segunda parte do trabalho sobre uma das figuras de maior projecção cultural e religiosa que nasceram em Nisa, o padre Álvaro Semedo. Através dele se pretende fazer um pouco de luz sobre a vida e a obra deste jesuíta nisense.
 A RELAÇÃO…. Comentada por quem a reeditou
Que a Relação da Grande Monarquia da China foi (é) uma obra de importância fundamental quer para a Europa, quer no quadro das relações luso-chinesas, com 500 anos, não restam dúvidas. O valor do trabalho realizado pelo padre Álvaro Semedo em mais de 20 anos de estudo, pesquisa e análise, é enaltecido na apresentação do livro nas palavras dos editores, representando a Fundação Macau:
"(...) Ao fazê-lo, pretendemos prestar aqui uma quadrúpula homenagem:
Ao autor, em primeiro lugar, tão injustamente esquecido, que foi uma personalidade multifacetada de sinólogo brilhante, missionário sacrificado, antropólogo, escritor e tradutor (a ele se deve, por exemplo, a primeira tradução das inscrições da famosa estela dos Cristãos Nestorianos, que se encontra no museu Xi´an). Um raro conjunto de qualidades alicerçado num sólido carácter de cristão coerente e animado por uma fé viva, o qual, apesar das humilhações e dos maus tratos que sofreu (e não foram pouco!), soube sempre distinguir o trigo do joio, manifestando grande admiração pela cultura e civilização chinesas, e profunda estima pelo seu povo, com quem compartilhou 22 anos de vida.
(...) Homenagem, finalmente, aos missionários da Companhia de Jesus que criaram e mantiveram o famoso Colégio de São Paulo, a primeira Universidade de tipo ocidental no Extremo Oriente".
     Foi por ocasião e para se associarem ao 4º centenário da fundação do colégio (1594-1994), que os Serviços de Educação e Juventude da Fundação Macau, procederam à reedição da principal obra do Padre Álvaro Semedo (Relação da Grande Monarquia da China), traduzido do italiano por Luís Gonzaga Gomes.
      Esta, é uma das situações paradoxais da obra, a de se tratar de tradução portuguesa de uma versão italiana, que por sua vez, traduz um texto original português, manuscrito há mais de três séculos e meio (1637).
        Não deixa de ser curioso (e lamentável...) que, após as edições em castelhano (1642), italiano (1643,1653,1667), em holandês (1670), em francês (1645,1667) e em inglês (1665), a primeira edição integralmente editada em língua portuguesa, visse a luz do dia, apenas em 1956 e em Macau, graças ao dinamismo e labor de Luís Gonzaga Gomes, um dos grandes sinólogos portugueses deste tempo.
Esta difusão internacional da obra, mostra bem a sua importância e a envergadura, seriedade e rigor com que Álvaro Semedo levou a cabo esta tarefa e analisou, vivendo "por dentro", contactando com os povos e as instituições, a sociedade chinesa.
Ele próprio o refere: "tenho estado a ver as coisas da China, no decurso de vinte e dois anos, terei decerto visto o que escrevi, bem como o que os outros escreveram de coisas que não viram, e falarei, necessariamente, com mais acerto, posto que com menos elegância".
Mais acerto, menos elegância, ou seja, mais verdade, investigação, análise. A crueza e o rigor das situações, a sobrepor-se à fantasia, à invenção, ao folhetim novelesco.
Não admira, pois, o impacto que a sua Relação teve, no século XVII, nos meios intelectuais, políticos e religiosos europeus, a quem o Império Celeste era apresentado como algo quase fantasmagórico, em relatos de viajantes que, ao velho adágio popular "quem conta um conto...", acrescentavam não um, mas muitos pontos.
É novamente, o jesuíta nisense, no início (pág.19) que escreve: "Dos que têm escrito acerca da China verifico que alguns, deixando quase todas as verdades no olvido, se entretêm apenas com coisas que andam afastadas da veracidade, pois que, encontrando-se esse reino longínquo e, tendo sempre esquivado, com todo o empenho, à comunicação com o estrangeiro, além de guardar para si, com particular cuidado, as suas coisas como se as guardasse até de si mesmo, resultou que, fora dele, só se conhece aquilo que deixa escorrer, como por excesso, pelas faldas da região de Cantão, parte desse Império aonde chegaram os portugueses."
O que nos causa perplexidade, isso sim, é o facto - mais um, na história da literatura portuguesa - de o autor, investigador e escritor de uma obra lida e estudada em todo o mundo, seja pouco conhecido no país onde nasceu, na  própria terra onde viu a luz do dia. Mais: que do seu trabalho, resultado de anos e anos a fio de investigador e observador, atento, da sociedade chinesa, tivessem outros colhidos os louros, de um edifício para o qual pouco contribuíram.
Estes e outros aspectos são referidos por António Aresta, na altura (1994) professor do Liceu de Macau, na introdução à presente edição. Aresta, licenciado em filosofia, não deixa de observar, com grande admiração, o que Álvaro Semedo escreveu sobre a educação na China.
" A descrição pormenorizada daquilo a que hoje apelidaríamos de sistema educativo chinês é notável. É um documento único e pioneiro na história da educação setecentista e no panorama da história das ideias educativas portuguesas. É uma verdadeira viagem ao interior de um império examinocrático, como muito bem lhe chamou Ernest Renan."
Álvaro Semedo e o Império Celeste
A Relação da Grande Monarquia da China (edição de 1994) tem 416 páginas e divide-se em duas partes. A primeira tem como título, Do Estado Temporal da China, onde encontramos um amplo conjunto de descrições e informações que vão desde a geografia, o ordenamento do território, o clima, as populações, a sociedade.
Uma sociedade que ele, Semedo, escalpeliza até ao mais ínfimo pormenor. Há variadíssimas informações, algumas que, pela sua profundidade constituem, como bem observou António Aresta, um autêntico tratado sobre o engenho e as artes dos chineses, a cultura, a educação, a vida familiar, as relações intra e inter-familiares. Álvaro Semedo descreve, com um soberbo espírito de observação, os usos e costumes, a etnografia e o folclore. Não deixa passar em claro a cortesia dos chineses, as ciências e as artes liberais, os jogos, os casamentos, os funerais e até a descrição das sepulturas dos chineses.
Antropólogo, escritor, historiador, assume vários papéis e ângulos de observação para bem descrever, com seriedade e rigor, tudo o que vive à sua volta. Religioso e propagador da fé cristã, tem de se multiplicar em várias funções para conseguir o melhor "retrato" da sociedade que, mesmo como "estrangeirado", integra. Essa integração permite-lhe observar e passar para o papel elementos sobre assuntos tão diversos como o enterro da rainha-mãe, as seitas, as superstições e sacrifícios na China e, depois, avançar no campo militar, político e administrativo da China, com uma descrição pormenorizada dos cargos e funções do governo, autoridades e das insígnias dos mandarins. Não esquece, tão pouco, o sistema prisional chinês e as guerras que os tártaros moveram contra a China.
Esta primeira parte, Do Estado Temporal da China, constitui, pois, um retrato em grande dimensão e com uma visão multidisciplinar, iluminista, do Celeste Império.
Percebe-se, melhor, claramente, pela sua leitura, o grande alcance, o mediático impacto que causou na Europa do século XVII esta obra, a todos os títulos pioneira, do Padre Álvaro Semedo.
A segunda parte do livro Na Qual se Trata da Cristandade da China, é um relato, circunstanciado da presença europeia, evangelizadora, na China. É a história, principalmente dos missionários jesuítas, a sua vida, as perseguições, os maus-tratos, o que tiveram de suportar por amor e dedicação a uma causa maior, razão principal das suas vidas. Mas há também registos dos progressos e das pequenas vitórias alcançadas.
Pela imagem documental que nos oferece da China do séc. XVII, a nível do poder, reproduzimos o Testamento do Imperador Vanlio (Página 162):
 "Testamento do nosso Imperador Vanlio*, o qual, obedecendo ao Céu, depôs o seu Império nas mãos dos pósteros
 Eu, desde criança que assumi o governo desta Monarquia, recebendo-o das mãos dos meus maiores e conservei-o durante 48 anos, tempo assaz longo. Não há, por isso, motivo para me lamentarem, por agora ter de o deixar. Logo que fui elevado a imperador me dispus pretender governar bem e imitar os meus predecessores assim como procurei, também, proceder com toda a exactidão. Porém, impedido por várias enfermidades, durante muitos anos, tive de procurar quem fizesse os costumados sacrifícios aos Céus e à Terra, mas não deixei de celebrar os devidos ofícios à memória dos meus maiores. Raríssimas vezes me assentei no trono para ponderar as coisas do reino. Demoraram-se os memoriais que me foram apresentados sem o despachar. Não me ocupou o pensamento nomear, segundo as necessidades, os magistrados do reino. Sei, porém, agora, que existem alguns de menos. Abri novas minas de oiro e prata; acrescentei e multipliquei os impostos; perturbei a paz pública com tumultos de guerra dos quais resultaram agravos para o povo e discórdias com os príncipes vizinhos. Pensando a toda a hora, dia e noite, nestas coisas, só pude sofrer a dor a dor de alma que detesta todas as culpas passadas, e, assim, principiei, finalmente, a ter melhores pensamentos, mas caí nesta enfermidade, que vai aumentando tanto, que me faz crer dever perder, rapidamente, a vida.
Portanto, resta-me a única esperança de que os meus filhos e sobrinhos hão-de emendar as minhas faltas, levando uma vida melhor.

Vós, pois, herdeiro do reino, já que não vos faltais engenho nem boa índole e porque até agora não tivestes nunca esquecido o exercício da piedade, obediência e outras virtudes, tende grande ânimo. É vossa a herança do Império Chinês. Tende, por objectivo principal, o compor a vida e os vossos costumes. Aplicai-vos com toda a diligência, ao bom governo do reino. Amai os bons; não recusai os conselhos; não tomai por mal os avisos para que possais suportar bem o grande peso deste império. Esforçai por que o vosso filho e os meus sobrinhos se apliquem aos estudos com toda a diligência. Querei bem aos vossos três irmãos; destinai-lhes compartimentos cómodos e provede bons rendimentos a cada um e mesas honradas. fazei diligência para que todos os vossos súbditos, nobres e ignóbeis, andem em paz e amem a concórdia. Tomai, logo, em mente, fazer colaos a outros supremos magistrados, porque verifico ter esquecido dois nomes, na devida ocasião, e não me esqueci de eleger os administradores régios. Estas coisas vos recomendo para que diligencieis pôr, quanto antes, em execução.
Aboli, de qualquer modo e imediatamente, os novos impostos de pontes, campos, seda, panos, vasos de argila e outras coisas que eu introduzi, recentemente. Fazei que despachem com diligência juízes escolhidos para todas as causas que se encontram nos tribunais e libertai os inocentes. Nos confins da Tartária faltam provisões para os soldados; supri-lhes, imediatamente, da tesouraria imperial (dizem que esta última coisa foi acrescentada pelo príncipe ao testamento do pai). Que sejam recomendados os soldados e os capitães que morreram na última guerra. Honrai os seus sepulcros e as suas almas com novos títulos; subvencionai as suas famílias com as pagas devidas.
Tudo isto sumariamente vos ordeno que procureis efectuar quanto antes possível.
Quanto ao meu funeral fazei que se observem as cerimónias do reino. É verdade que, por meu gosto, estimaria que, em lugar de durar, segundo o costume, 27 meses, dure, somente, outros tantos dias. Todos os magistrados, vice-reis, visitadores, capitães de guerra terão necessidade de assistir aos seus governos e administrações; não permiti que sejam chamados, por causa do meu funeral. Bastará que cada um, quando receber a notícia da minha morte, faça com que se observe, onde se encontre e durante três dias, aquilo que se há-de fazer no funeral do corpo dum rei. As pastilhas e outros perfumes que costumam enviar-se em semelhantes ocasiões poderão ser trazidas por autoridades inferiores em nome das superiores. Porém, os magistrados eleitos pelo governo para as fortalezas e presídios das cidades e das terras não virão de forma alguma. São ainda escusados os tributários estrangeiros do reino. Ordeno que esta minha última vontade seja publicada em todo o reino e que chegue aos ouvidos de todos.
Mán-Lek, (Vân-Li), (1573-1620)
IMAGENS
1 - Imagem de Álvaro Semedo
2 - Rua da Misericórdia ou dos Chouriços - actual Rua Cap. Pais de Morais, onde nasceu o padre Álvaro Semedo
3 - Zona F do Bairro da Cevadeira, artéria proposta para receber o nome do Padre Álvaro Semedo.
4 - Ruínas da Igreja de São Paulo (Macau) onde foi sepultado o Padre Álvaro Semedo
NOTAS
1- Palomo, Federico, - Fazer dos campos escolas excelentes - “Os jesuítas de Évora e as missões do interior em Portugal (1551-1630)
2 – Guillemou, Alain – Os Jesuítas
3- Moura, Motta e – Memória Histórica da Notável Vila de Nisa
4- Semedo, Álvaro – Relação da Grande Monarquia da China
5 – Oliveira, Fernando Correia de – 500 Anos de Contactos Luso-Chineses
ANEXO
Deliberação camarária por cumprir
A Câmara Municipal de Nisa, na reunião de 7 de Junho de 2006 aprovou por unanimidade a atribuição do nome do Padre Álvaro Semedo à (ainda) actual Zona F do Bairro da Cevadeira.
Tarda a perpetuar com a honra e o brio que merece, o nome de Álvaro Semedo na toponímia de Nisa. Para que não restem dúvidas transcrevemos a parte da acta referente ao ilustre nisense:
Acta 12 – Reunião de 7 de Junho de 2006
Relativamente ao assunto a que acima se faz referência, tendo em conta o número de novas edificações erigidas, bem como a criação de algumas urbanizações, tanto em Nisa como um pouco por todo o concelho e tendo-se a consciência que é necessário disciplinar a toponímia e conforme conteúdo da Informação/ Proposta Nº 145/06, datada do dia 8 de Março do ano em urso, da Divisão de Projectos e Urbanismo, cuja cópia fica arquivada em pasta anexa à presente acta, a Câmara reunida aprova, por unanimidade e após pareceres das respectivas Juntas de Freguesia, a atribuição de nomes e numeração de polícia às ruas, largos, praças e urbanizações das localidades a seguir indicadas:
(...) Na Urbanização da Cevadeira (...) à actual Zona F, será atribuído o nome de “Rua Padre Álvaro Semedo”.
Oito anos passados esta deliberação e muitas outras referentes a nomes de ruas estão por cumprir. Até quando?
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 29/1/2014

4.2.14

ÁLVARO SEMEDO: Um jesuíta nisense na China (I)

Apontado como o “introdutor do chá na Europa”
É uma das figuras de maior projecção cultural e religiosa que nasceram em Nisa, ainda hoje, infelizmente, desconhecida de grande parte dos filhos desta “terra bordada de encantos”. O presente trabalho, dividido em duas partes, mais não pretende do que fazer um pouco de luz sobre a vida e o percurso oriental deste nosso conterrâneo.
 O jesuíta e orientalista
Álvaro Semedo, nasceu em Nisa, vila do Alto Alentejo, na rua da Misericórdia, no ano de 1585. Foram seus pais, Fernão Gomes e Leonor Vaz que lhe deixaram grande fortuna, acrescida ainda pelos bens do tio, Álvaro Semedo, o Velho. Podia, por isso, gozar os prazeres de vida fácil, mas preferiu-lhes os atractivos dos estudos e as superiores aliciações do saber e do conhecimento.
Ruma a Évora, com apenas 17 anos e ingressa na Companhia de Jesus (Jesuítas). Estuda no colégio da Ordem, e em 1608, contando 23 anos, seguiu para a Índia, onde conclui os seus estudos teológicos, em Goa. Em 1613, foi enviado para a China onde adopta o nome nativo de Sé Mou – Iôk e se fixa em Nanquim, cidade na qual começa a dedicar-se ao estudo da língua chinesa, conhecimento que lhe seria indispensável para poder prosseguir com êxito o seu trabalho de evangelização.
Em Nanquim, no ano de 1617, os elementos da nova cristandade foram alvo de feroz perseguição e sobre o seu catequizador mais se encarniçou a fúria demoníaca. Álvaro Semedo, doente, foi encarcerado e submetido a tratos desumanos. Chegaram a encerrá-lo numa gaiola de ferro, onde não podia estender e acomodar o corpo, nem mudar de posição. Nessa gaiola o fizeram seguir para Cantão e dali para Macau. Mas, logo que recuperou alento, volta a Nanquim, disposto a continuar a sua missão de evangelizador.
Tão bem desempenhou as suas funções que foi nomeado Procurador da sua Ordem em Roma e por esse motivo regressou a Portugal a fim de receber instruções que o habilitassem ao desempenho do novo e honroso cargo.
Cumprida a missão que o levara à Cidade Eterna, partiu para a China mais uma vez, mas, agora, incumbido de nova e mais importante missão, a de Provincial e Visitador de todas as Missões.
E, nessas longínquas paragens, onde S. João de Brito colheu a palma do martírio, se finou o ínclito filho de Nisa, a 6 de Maio de 1658, com setenta e três anos de idade, e quarenta e seis de missionário.
Está sepultado em Macau (Cemitério Velho), segundo informa o padre Philipe Couplet no “Catalogus Societatis Jesu...”, pág.17, nº XXV.
Álvaro Semedo era muito versado em assuntos de história e teologia. Orador de grande mérito, possuía uma variada gama de recursos de persuasão, que utilizava com saber e medida para dominar os auditórios.
João Soares de Brito, no Teatro Lusitano, e António de Leão, na Biblioteca Oriental, descrevem-no, fisicamente, como “homem de baixa estatura, cheio de cara, olhos castanhos”, etc.
As obras que deixou à posteridade, dão público testemunho da sua erudição, nomeadamente, Cartas Anuais”, escritas no ano de 1622, em Nanquim, sobre as missões na China; a História do Império da China, a sua obra mais conhecida e que conheceu vários títulos, tendo de permeio, a sua publicação, uma outra história com ressaibos de “atribulada”, como explicaremos mais adiante.
A História do Império da China ou A Relação da Grande Monarquia da China, foi traduzida em castelhano (e apresentada como obra escrita nesta língua) por Manuel de Faria e Sousa, em italiano por Hermano Schens, em francês pelo Pe. Luís Cullon, e ainda em inglês.
A morte surpreendeu Álvaro Semedo quando tinha já bastante adiantados os dicionários Sínico-Lusitano e Lusitano-Sínico, talvez a primeira grande tentativa de sistematizar o léxico usado pelos dois povos, europeu e asiático.
Referem-se de forma altamente elogiosa a este notável e sábio missionário, Diogo Barbosa, na Biblioteca Lusitana; Manuel de Faria e Sousa, na Ásia Portuguesa; o Pe António de Gouveia, na Ásia Extrema; e João Soares de Brito, António de Leão e Manuel Severim de Faria, nas obras já citadas.
A introdução do chá na Europa
Para além dos méritos como missionário, investigador e escritor, ao Padre Álvaro Semedo é ainda atribuída a introdução do chá na Europa. Vários historiadores defendem este ponto de vista e Joaquim de Montezuma de Carvalho, num interessante artigo publicado no jornal Figueirense (Figueira da Foz, 26/7/1988), refere:
“Antes de D. Filipa de Lencastre reinar no tôsco reduto de nossos hábitos, comia-se à mão... Diz um irmão meu que foi D. Filipa que introduziu na corte lusa o simples garfo. Acredito. Há que temperar, assim, o juízo peremptório de Aquilino Ribeiro no seu retrato sobre El-rei D. João III, quando escreve: - “No reinado de D. Manuel tirava-se ainda comida das prateiras e almofias com os cinco dedos, e para limpar as mãos enlabuzadas lá estavam à beira dos convivas os alões, podengos e fradilqueiros de pêlo felpudo”. O reinado de D. Manuel ocorre um século depois do reinado de boas maneiras de D. Filipa de Lencastre... Cem anos não tinham bastado para o garfo se espetar bem nos hábitos nossos?
Diz-se que foi a Infanta D. Catarina quem levou para Inglaterra a “moda” de tomar chá... De concreto, não se sabe. Mas sabe-se, isso sim, que uma das primeiras referências ao comércio do chá, em Inglaterra, se encontra numa carta de um comerciante para o seu agente em Macau, datada de 1615.
Sobre o chá, escreveu, também, numa edição japonesa intitulada “O Culto do Chá” (Kobe, Japão, 1905), um dos “nossos” primeiros sinólogos: Wenceslau de Morais, a quem chamavam, o “Portugaru-San” (ou seja, o Senhor Portugal).
Não sabemos se Wenceslau de Morais cita o Padre Álvaro Semedo... Há quem defenda que se deve ao padre Gaspar da Cruz, missionário português, a primeira menção sobre o chá, na Europa, numa publicação do ano 1560.
Por outro lado, o juízo mais corrente é o de que o comércio e introdução do uso da bebida do chá na Europa deve-se, especialmente, a ingleses e holandeses. O que conhecemos é que, em tudo, até nos hábitos há sempre um princípio. E aqui é que funciona a primor o padre Álvaro Semedo.
Este português de extraordinário mérito nasceu na Vila de Nisa, Alentejo, em 1585 e faleceu em Cantão, China, em 18 de Julho de 1658, mas achando-se o seu corpo enterrado em Macau. Fez estudos humanísticos na Universidade de Évora e largou como missionário, para o Oriente. Goa, aonde chegou em 1608, foi o primeiro campo de ensaios. Depois, experiente, em 1613, avançou este jesuíta rumo à imensidão do Império da China. Era um dos que queria evangelizar o Dragão. E, para estudar o Dragão, teve olhos que fatigaram os mais inadvertidos esconderijos daquela maneira de ser uma tão diversa civilização. Viu, escreveu. O resultado foi um fascinante livro de realidades que se pareceram com o sonho e que o findar deste século deveria redescobrir agora que os povos da iniciativa pretérita estão a apresentar seus saldos... Este positivo saldo com a China poucos concorrentes tem.
O Padre Álvaro Semedo, lá no Oriente, andava saudoso de Portugal. Tinha de ir a Roma. Em 1640 chega a Lisboa e, em 1642, a Roma. Ao passar por Madrid, conhece o português Manuel de Faria e Sousa (1590 – 1649), polígrafo relacionado com todo o mundo culto e as imprensas. O convívio entre ambos foi frutuoso. O Padre Semedo era o manancial, trazia papéis. Creio, porém, que foi Faria e Sousa quem lapidou o diamante bruto, o ordenou, tendo sempre a seu lado, num trabalho a dois, o dialogante padre Semedo. É que Faria e Sousa ao explicitar que o livro é “sacado de las notícias del padre Alvaro Semedo”, está a enunciar o seu trabalho de revisão que não apenas o de tradutor de língua portuguesa (a do manuscrito) para a língua castelhana. Ou antes, trabalho de co-autoria já que o verbo é passado de realidade. Quer o prólogo de Padre Semedo quer o de Faria e Sousa apontam para essa estreita colaboração entre os dois. A obra não deixa, assim, de ser também de... Faria e Sousa! E pressinto um árduo trabalho entre os dois, um trabalho a vapor: que o Padre Semedo desejará levar o livro, impresso, para Roma! E tudo bate certo. O laborioso Faria e Sousa não desapontava ninguém. O livro é impresso, em Madrid, no ano de 1641. Se no amorfo original se intitulava “Relação da Propagação da Fé no Reyno da China e outros adjacentes”, em castelhano conhecido ficará por “Imperio de la China y Cultura Evangelica en el, por los religiosos de la Compañia de Jesus. Sacado de las noticias del padre Alvaro Semedo de la propria Compañia, por Manoel de Faria y Sousa, cavallero de la Orden de Christo, y de la Casa Real”.
É um continente de imensos dados sobre a história, a geografia, os povos e os costumes da plural China. Sei como Faria e Sousa trabalhava. Tinha um poder genial de coordenar as matérias, situá-las, aparentá-las. Daí que no final dos seus trabalhos (os editados, os que só existem em manuscritos) surjam essas lapidares radiografias que são as “tablas”, os elucidativos índices. Nesse continente de dados não nos perdemos e, muito pelo contrário, rapidamente se alcança o desejado. Parece que Faria e Sousa adivinhava o preguiçoso futuro.
Em 1641, a língua imperial era o castelhano. A obra sai em castelhano... Porém, logo em 1643 é traduzida para o italiano. As traduções francesas começam a surgir depois de 1667. As inglesas haviam iniciado o seu circuito em 1655... O livro de Padre Semedo e Faria e Sousa, teve uma afamada e merecida auréola de larga difusão no mundo ávido de conhecer mais mundo. Na própria Espanha, a obra é reeditada em 1642.
Ora o dr. Bretschneider afirmou no seu estudo “Early European Recerche in tho the flora of China” (Xangai, 1881, pg. 7) que foi o Padre Semedo o primeiro de todos os europeus que deu a conhecer o chá, a sua preparação e a sua utilidade.
Até prova em contrário (pelo menos a nível de prova impressa) há que reputar o Padre Semedo como o primeiro de todos os europeus que, na verdade, presta cuidada atenção ao chá como bebida nacionalizada pelo costume no Império da China e lhe aponta a graça dos benefícios, quase ao estilo publicitário dos nossos dias. O Padre Álvaro Semedo parece fazer o reclamo do produto, tal a virtude das excelências que lhe aponta.
O famoso “Império de la China Cultura Evangelica em el” teve reedição, em Portugal, em 1731 (Lisboa Occidental, el la officina Herreriana. MDCCXXXI. Con las licencias necessarias). Com a cota 11-39-6 fui encontrar o precioso e esquecido exemplar (quem o mergulhará no banho da língua portuguesa?) na biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa. O bem conservado exemplar pertenceu à Livraria do Convento de Nossa Senhora de Jesus, de Lisboa. Com a obra na mão, pude verificar que o Padre Semedo dedica a obra ao Padre Xavier e que Faria e Sousa o faz a D. Marcelino de Faria y Guzman. No seu breve prólogo escreve Faria e Sousa: - “es el Padre Alvaro Semmedo, português de nacion; y de noble nacimiento, como lo promete el apellido, que es de aquel valeroso Cavallero Giraldo Sempavor...”
Foi fácil encontrar o chá nesta obra de mil dados do padre Semedo... No índice lá vem referido “chá, yerva notable, 19”. Na página 19 lá vem o texto que deixamos na íntegra, com uma advertência: chá em castelhano diz-se e escreve-se té, que é uma forma de pronunciar o tscha em certas províncias chinesas. A curiosa advertência está em que Faria e Sousa não traduz chá para té (sinal de que em Espanha ainda não existia o costume de beber...té?). Eis parte do trecho:
Desta misma Provincia sale otra cafila para el Reyno del poderoso Tibet. Lleva cosas varias, y en particular telas de seda, porcelana, y chá. Chá es hoja de um arbol parecido al Arrayan, pero en algunas Provincias del tamaño de uma Albahaca, y en otras como Granados pequeños. Secanla sobre el fuego en caços de hierro, adonde se une, y congloba. (…)
Na recente obra “Viagens na Ásia Central em demanda do Catraio: Bento de Goes e António de Andrade”, com introdução e notas de Neves Aguas (ed. Pub. Europa- América, Lisboa, 1988, 126 pgs.) vem a ligeira referência (a pág. 66) à “Relação da Grande Monarquia da China” do Padre Álvaro Semedo, I volume, traduzido do italiano por Luís G. Gomes, Noticias de Macau, 1956. Com este laconismo, julgamos tratar-se da tradução parcial do “Império de la China”, depois do castelhano ter sido castigado no italiano...
Sim, impõe-se que o livro que se conserva na Academia das Ciências de Lisboa seja inteiramente vertido do castelhano (aportuguesado de Faria de Sousa!) para o português deste findar de século e comemorações...
 O filho de Nisa, este andarilho Padre Álvaro Semedo (regressaria à China em 1645), não é o último imperador da China, o dos relatos primorosos, mas o primeiro: com a larga noticia sua sobre o chá, ganhou ele perdurável trono na estima da memória que sabemos ser o rio na torrente plural das coisas.”
E, mais não disse Montezuma de Carvalho.
 Mário Mendes in "Alto Alentejo - 15/1/2014
Identificação das imagens
1 - Imagem de Álvaro Semedo
2 - Ruínas da Igreja de S. Paulo (Macau) em cujo cemitério foi sepultado o padre Álvaro Semedo
3 - Estela nestoriana descoberta por Álvaro Semedo, conforme descrição de Oliveira Martins no site do Centro Nacional de Cultura.
4 - Interior de "Imperio de la China i Cvltvra Evangelica" (título em castelhano da "Relação..."