O SOS Racismo manifesta o seu profundo pesar e indignação perante a
morte de Umo Cani, uma mulher negra, imigrante e trabalhadora, vítima de uma
dupla violência: a negligência médica e o racismo institucional que a alimenta.
Umo Cani não era “a grávida”, como a Ministra da Saúde repetidamente se
referiu a ela. Umo Cani tinha nome, rosto, história e sonhos.
Tinha 38 semanas de gestação. Morreu no Hospital Amadora-Sintra e o seu
bebé morreu no dia seguinte. Morreu porque o Estado que deveria protegê-la não
o fez nem logrou defender a sua dignidade.
As declarações da Ministra da Saúde, Ana Paula Martins, são
inaceitáveis, falsas (desmentidas pela própria família de Umo)1 e revelam uma
visão desumanizadora e profundamente racista. Ao afirmar, sem confirmação, que
Umo Cani “não tinha acompanhamento” e que “há mulheres que vêm a Portugal
apenas para fazer o parto”, a Ministra reproduziu um discurso racista e
xenófobo, um discurso que falta à verdade, um discurso que culpabiliza as
vítimas e que legitima o abandono e desresponsabiliza o governo na sua missão
primordial de garantir o bom funcionamento dos serviços públicos e a
integridade e dignidade humana em qualquer circunstância nos mesmos..
Este não é um caso isolado. A violência obstétrica é um calvário a que
as mulheres racializadas estão submetidas há décadas. Denúncias disso não
faltam, mas nunca foram levadas a sério. É o reflexo de um sistema de saúde
marcado por desigualdades estruturais, onde mulheres negras e imigrantes são
frequentemente invisibilizadas, desacreditadas e maltratadas. É o espelho de um
país que ainda tolera que a cor da pele e a origem determinem quem vive e quem
morre.
O SOS Racismo exige:
-Um inquérito independente e célere às circunstâncias da morte de Umo
Cani e do seu bebé; -A demissão da ministra da saúde pela sua responsabilidade
política e institucional nos erros cometidos e pelas declarações de cariz
racista;
-A responsabilização de todas as pessoas envolvidas na cadeia de comando
que resultara na negligência que custou a vida à Umo e ao seu bebé;
-A implementação urgente de políticas antirracistas no Serviço Nacional
de Saúde, com formação obrigatória em igualdade racial, de gênero e direitos
humanos;
-Que o nome de Umo Cani seja lembrado e respeitado, como símbolo de
todas as mulheres racializadas que o Estado português continua a violentar e a
desproteger.
Umo Cani não morreu por acaso.
Morreu porque o racismo mata, até nos hospitais onde se devem salvar
vidas. O Estado que não protege a vida de uma pessoa por ser negra é um Estado
cúmplice da barbárie racista!
SOS RACISMO
4 de novembro de 2025
