10.11.25

OPINIÃO: O nome dela era Umo Cani!


As vítimas de racismo e xenofobia têm nome, desta vez foi a Umo Cani!

O SOS Racismo manifesta o seu profundo pesar e indignação perante a morte de Umo Cani, uma mulher negra, imigrante e trabalhadora, vítima de uma dupla violência: a negligência médica e o racismo institucional que a alimenta.

Umo Cani não era “a grávida”, como a Ministra da Saúde repetidamente se referiu a ela. Umo Cani tinha nome, rosto, história e sonhos.

Tinha 38 semanas de gestação. Morreu no Hospital Amadora-Sintra e o seu bebé morreu no dia seguinte. Morreu porque o Estado que deveria protegê-la não o fez nem logrou defender a sua dignidade.

As declarações da Ministra da Saúde, Ana Paula Martins, são inaceitáveis, falsas (desmentidas pela própria família de Umo)1 e revelam uma visão desumanizadora e profundamente racista. Ao afirmar, sem confirmação, que Umo Cani “não tinha acompanhamento” e que “há mulheres que vêm a Portugal apenas para fazer o parto”, a Ministra reproduziu um discurso racista e xenófobo, um discurso que falta à verdade, um discurso que culpabiliza as vítimas e que legitima o abandono e desresponsabiliza o governo na sua missão primordial de garantir o bom funcionamento dos serviços públicos e a integridade e dignidade humana em qualquer circunstância nos mesmos..

Este não é um caso isolado. A violência obstétrica é um calvário a que as mulheres racializadas estão submetidas há décadas. Denúncias disso não faltam, mas nunca foram levadas a sério. É o reflexo de um sistema de saúde marcado por desigualdades estruturais, onde mulheres negras e imigrantes são frequentemente invisibilizadas, desacreditadas e maltratadas. É o espelho de um país que ainda tolera que a cor da pele e a origem determinem quem vive e quem morre.

O SOS Racismo exige:

-Um inquérito independente e célere às circunstâncias da morte de Umo Cani e do seu bebé; -A demissão da ministra da saúde pela sua responsabilidade política e institucional nos erros cometidos e pelas declarações de cariz racista;

-A responsabilização de todas as pessoas envolvidas na cadeia de comando que resultara na negligência que custou a vida à Umo e ao seu bebé;

-A implementação urgente de políticas antirracistas no Serviço Nacional de Saúde, com formação obrigatória em igualdade racial, de gênero e direitos humanos;

-Que o nome de Umo Cani seja lembrado e respeitado, como símbolo de todas as mulheres racializadas que o Estado português continua a violentar e a desproteger.

Umo Cani não morreu por acaso.

Morreu porque o racismo mata, até nos hospitais onde se devem salvar vidas. O Estado que não protege a vida de uma pessoa por ser negra é um Estado cúmplice da barbárie racista!

SOS RACISMO

4 de novembro de 2025