Vamos acreditar que foi para nosso bem, que o Ministério das Finanças
está a agir proativamente. Ou então vamos deixar de ser ingénuos. Teria sido
mais honesto reconhecer que, com uma cobrança fixa no início do ano, o Estado
encaixa uns largos milhões de euros de receita no arranque do exercício
orçamental, o que permite acomodar melhor as despesas ao longo do tempo. E,
claro está, dar uma folga maior para acorrer a imprevistos. E isso não teria
mal nenhum, uma vez que o pagamento de impostos é das poucas certezas que temos
na vida. Escusavam era de nos atirar areia para os olhos. Dispensamos o
exercício doutrinário.
Não é de agora que o Estado assumiu o papel de paizinho dos cidadãos,
revelando um paternalismo impositivo que tendemos a normalizar, sobretudo
quando está em causa a relação dos portugueses com os impostos. A agenda fiscal
continua a ser usada pelos governos como um poderoso afrodisíaco político, com
o IRS e a devolução que na verdade não é devolução nenhuma à cabeça.
Vicissitudes de quem se alimenta com pouco e vê nas migalhas um faustoso
banquete.
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Pedro Ivo Carvalho – Jornal de Notícias - 15 de
novembro, 2025
