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11.12.23

CRÓNICAS RAIANAS: Montalvão também tem um "Portal de Nisa"

Assim que passo os olhos pelo "Portal de Nisa" assaltam-me de pronto os ditos do meu falecido pai: João José Jùlio, nome oficial; para mim Mestre João e para todos João Fartel. De contrabandista a abegão, chegou a chefiar uma vasta equipa que se ocupava da limpeza da Câmara Municipal de Oeiras. Alegre e folgazão, era mestre em alcunhar os amigos com nomes patuscos: "Atefega Sardinhas" "Faz Corpo" "Três Tetas" "Putas Pequeninas" "Tomba Lobos", que sei eu. 
Sempre que alguém passava por porta, portal ou cancela logo dizia: "Fecha/Abre aí o Portal de Nisa. Talvez porque quem se aproxima de Montalvão existe um, conjunto de tapadas, que também é conhecido por "Portal de Nisa".
Valente e destemido também se destacou como cabo de forcados do antigo Grupo de Montalvão, fazendo dupla na arte de "Bem Pegar" com o não menos conhecido Ti Bufa. Foi nesta qualidade que o "Mestre João" se notabilizou pelo atrevimento de uma "Ganda Vaca" que ao sentir-se abraçada abocanhou (tradução livre), tudo o que era saliência abaixo do umbigo, tivesse ela também dentes na queixada inferior e lá se ia o abono de família. Mas não, a coisa ficou presa por um fio e graças ao milagre da medicina, já naquela altura, que tudo foi colocado no seu devido lugar, Por tudo isto o abnegado moço de forcados se vangloriava de tão inusitado feito, ...feito por uma vaca!
Eu já tinha aflorado esta façanha numa das muitas  Estórias enviadas para o Sítio da minha Junta de Freguesia, de Montalvão, e volto a trazê-la a lume porque esta e outras passagens que ilustram e fazem a História da nossa terra -  enterrá-las é considerado crime - levaram um sumiço como queimadas nos quintos do Inferno.Por ali parece ter passado ave de rapina sem deixar pedra sobre pedra, felizmente que a passagem foi efémera. Agora temos uma nova presidente a quem auguramos um bom desempenho, parece-nos mais proactiva sendo já visíveis várias iniciativas a contento dos munícipes. Jovem e conhecedora dos meandros onde se movimenta será bom ouvir alguns montalvanenses cujo traquejo no meio, sendo alguns até apolíticos, contribuirão para o bem estar da população. Só esperamos que a presidente concelhia lhe dê as mãos, ao invés do mandato anterior cujo presidente levou sempre com os pés!
09-12-2023 - Morujo Júlio


13.2.17

DO ALTO DO TALEFE (18): O Avô

Sentado á sombra do pequeno chaparro, saboreava a leitura do último “Notícias de Nisa”. O ruído de potentes motores distrai-me das letras impressas e espantado, vejo quatro adultos e uma data de miúdos e miúdas, a largar os jipes em que se transportavam e vá de olhar para o chão. Algum tempo depois, era pedras, calhaus, observados, discutidos e guardados em sacos.
Esquisito, pense, que raio de passatempo. E riam, satisfeitos. Mas, quem eram, que faziam, que prazer tiraram daquelas pequenas pedras?
Do alto do talefe, suficientemente afastado, tanto que nem se aperceberam da minha presença, não compreendi o que faziam, mas a curiosidade persistiu.
No regresso junto a um pontal, na azinhaga, dou de caras com um velho amigo que regava a pequena horta, que também se apercebeu do motivo da minha curiosidade e por sorte reconhecera os intervenientes.:
- São professores e alunos da escola secundária de Nisa, diz-me ele.
E entusiasmado, prossegue:
- O meu neto, também lá anda. E com os olhos a sorrir, acende o cigarro e atira-me:
- Sabes, é um dos melhores nas aulas, com computadores, é um barra, saiu ao avô, e riu-se...
Riu-se com a caixa toráxica que lhe resta dos muitos cigarritos queimados, mas com a alegria de quem se revê orgulhosamente feliz, num jovem despreocupado.
- Agora é que devia andar na escola – continuou a sorrir.
- Há dias o meu neto foi a Lisboa visitar o Aqueduto das Águas Livres e o Museu da Água, hoje, anda ali com colegas, professores e um geólogo da Empresa Nacional de Urânio, e conhece as rochas do nosso concelho.
Daqui a dias os colegas dele vão ao Jardim Zoológico de Lisboa e outros durante uma manhã, vão conversar sobre problemas da adolescência, com professores especializados. A minha neta mais nova, vai a Tolosa visitar uma fábrica de queijo e outros miúdos vão discutir durante um dia inteiro, sobre o racismo, o xenofobismo e a violação dos direitos humanos.
Estende o olhar para o fundo do Bacelo, retira uma fumaça e continua:
- Esta minha neta, aprendeu a andar a cavalo, no picadeiro, lá na escola, com o capitão e os soldados da GNR. No meu tempo...
Parou, acendeu o cigarro, que se tinha apagado, no calor da divagação e olhando para mim e para a minha cara de estupefacção, sorriu mais uma vez e prosseguiu:
- É como te estou a dizer; daqui a dias a minha neta vai fazer experiências de física, durante outro dia inteiro, parece que o Ministério da Ciência disponibilizou uma viatura equipada, para demonstrações de física experimental na escola, e o meu neto vai visitar as gravuras de Foz-Côa, durante dois dias.
Nesta altura, já me tinha sentado, com o Fadista, pequeno podengo, filho do SPI, o cão do Zé Saragoça, e protestou, porque inquieto como é, não aguenta tanto tempo parada, e ia-me despedir, quando ele me interpela novamente:
- Gostas de ver o céu? É que o meu neto contou-me que no dia 24 de Maio vai à escola, o Máximo Ferreira, um catedrático da Faculdade de Ciências, ensinar as estrelas com telescópios. Se quiseres ir, aparece na taberna do Chapim, que o meu neto leva-nos aos dois e apresenta-te o tal Máximo Ferreira.
Não me contive e perguntei-lhe: Escuta lá. Isso que tens estado a dizer, passa-se mesmo na escola secundária de Nisa?
- Ora, onde havia de ser! Os meus netos estudam em Nisa, homem!
Zé de Nisa – Notícias de Nisa – 30 de Abril de 1997

13.9.16

DO ALTO DO TALEFE (13): O Gato

Tenho um gato. Sena de nome, por ter nascido no mesmo dia em que um famoso corredor de automóveis morria de acidente.
Europeu de raça, este gato é afamado na caça aos ratos e aos pardais.
Tão lesto na caçada como o é na fuga diária à frente da cadela boxer, cujo instinto visceral ultrapassa a amizade que os anos de convivência pudessem ter criado.
Numa visão da sua última caçada, enquanto ele se deliciava com a presa ( um jovem pardal que experimentava a arte do voo), relembrava-me do provérbio chinês: “Não interessa a cor do Gato, interessa é que ele cace os ratos”.
Com o amortecimento da luta ideológica, muito por culpa da queda do muro de Berlim, das transformações a Leste e da coabitação do comunismo e do capitalismo na China, o pragmatismo tem-se imposto.
Os governos europeus reúnem-se em Comunidade cada vez mais alargada e as discussões de ordem económica e social tendem a fazer esquecer as ideologias.
Problemas de desenvolvimento económico e políticas de combate ao desemprego interessam mais do que a cor de quem as implementa.
Nas autarquias portuguesas, o eleitor de forma simples diz que não interessam os partidos, o que interessa é a pessoa a quem se dá o voto.
No governo do país, vemos um partido no poder iniciar grandes obras. Por exigência da rotatividade democrática outro partido que o substitui continua e conclui essas obras, em conflitos.
Culpa da ideologia consumista alicerçada nos novos templos (hipermercados e centros comerciais) e veiculada pela poderosa indústria publicitária, ou capitulação dos dirigentes políticos aos interesses mais imediatos?
Talvez as duas razões em conjunto, a verdade é que o pragmatismo invadiu o nosso dia a dia, sendo raras as excepções em que os princípios e os valores se impõem.
Será então por isso que, confrontado com a necessidade de escolher entre um gato branco e um gato cinzento, tivesse optado por este último que veio a adquirir o nome do Ayrton Sena.
Sem princípios nem valores, este gato é temível, tanto junto da comunidade pardalista como da ratícula.
De pé, junto ao talefe espraiando a vista para lá do horizonte, estremeço ao pensar que  o pragmatismo dos dirigentes possa dar continuidade ao esquecimento dos valores e dos princípios.
Zé de Nisa –Jornal de Nisa nº 8 - 29 Abril 1998

13.8.16

DO ALTO DO TALEFE (12): À pedrada com um penico

Encontrei o Xico Xiaton no café, onde faz deliciosos petiscos, com uma pantufa no pé direito. Sentado, de perna estendida, um trejeito de dor nos lábios, com os braços em arco abraçando o volumoso abdómen, o Xico sofria.
O meu amigo Xico sofre de gota.
Segundo a Drª Vera, do Instituto Português de Reumatologia, dentro das doenças articulares metabólicas, a GOTA, classicamente, é a mais antiga e digna representante. Doença dos reis e das classes abastadas, nada mais é do que um erro do metabolismo das proteínas que faz com que o ácido úrico aumente sobremaneira na circulação sanguínea, chegando a níveis tais que acaba por se depositar nos tecidos, preferencialmente intrarticulares. O resultado são crises realmente agudas de artrite, mais comummente do primeiro dedo do pé ou do joelho dos homens na 3ª ou 4ª décadas de vida.
Pois é verdade, o meu amigo Xico sofre de GOTA. Doença de reis e de gente abastada... Quem diria, Xico!
Quarenta anos atrás, o Xico, o Jule, o Zé de Nisa, o Tonho, o Alforedo, o Joã, e outros de pé descalço e calção aberto para mais rapidamente se aliviarem, corriam desalmadamente pelas ruas e azinhagas de Nisa.
Sem doenças de reis, brincavam em grupos de vizinhos com brinquedos de pobres. Sendo que, um dos divertimentos mais populares era a guerra das pedras. A Fonte da Cruz contra a Devesa, a Fonte da pipa contra a Vila. “Quem não é da minha rua, merda para a sua”, era um dos gritos de guerra.
Mais rapidamente do que hoje, com ténis Nike ou Adidas, era vê-los: os pés descalços, com solas mais rijas que o aço, as canelas cheias de crostas de feridas que nunca cicatrizavam, os dedos dos pés com unhas que de tantas topadelas dificilmente cresciam, a correr por entre poças de água, pelos pastos, ou em grande algazarra a descer ao escorregão pelas pedras junto à Praça de Touros, ou na Azinhaga do Depósito da Água.
Mas, era à pedrada que a adrenalina inundava a juventude naquele tempo.
Na Devesa, era difícil porque os locais se defendiam atrás das inúmeras carroças, que estacionavam no largo; na Fonte da Pipa eram as paredes de pedra que os protegiam.
De vez em quando, o azar batia à porta, mais propriamente à cabeça de algum mais descuidado.
Cabeça aberta, o sangue a pingar, um choro envergonhado, e vai de correr para casa para o regaço da mãe, fazer o curativo antes que o pai chegasse e ralhasse.
Ora, entre os artistas da pedrada havia um, que não esquece, nem ao Xico nem a nenhum dos que com ele conviveram: era o Xico Carneiro.
Canhoto, era temível pela pontaria aos gatos, aos pássaros e às cabeças dos adversários. E se no aspecto físico era idêntico aos outros nas mazelas que exibia, de uma coisa se podia orgulhar: nunca lhe partiram a cabeça.
Porque era esquivo? Por inépcia dos adversários? Nada disso. Tão simplesmente porque o nosso homem, sempre que tocava a reunir, corria a casa pegava num penico e zás: com a asa para trás, enterrava o penico na cabeça, qual guerreiro medieval.
A sua aparição infundia respeito, e não raros eram os que, mal vislumbravam a asa do penico, logo debandavam em precavida retirada estratégica.
De entre tantos companheiros desse tempo, não me lembro de quem lhe tivesse partido o penico, quanto mais a cabeça.
Já agora Xico, o tratamento da GOTA é feito com sintomáticos com o os anti-inflamatórios, além do allopurinol que irá controlar o metabolismo proteico, sendo que a opinião de um reumatologista é imprescindível.
Mas, quando a malta se juntava quem é que queria saber disto?
Um destes dias vou fazer-te uma visita, se me prometeres preparar um maranho, um pão do ti Virgílio e uma magnífica garrafinha de vinho Chelse, do tal...
E, não te esqueças de comprar uns cartuchos; é que as rolas estão aí, estão a chegar. Entretanto, toma lá um abraço amigo, do
Zé de Nisa - Julho de 1998