26.3.24

NISA, Branca e Alentejana (VI)

 
Nisa e o seu artesanato no olhar de uma jovem *
Maria de Lourdes Paralta acha que estes trabalhos também mereciam umas quadras e solta a sua veia poética (1).
“ Ó raparigas de Nisa-a-Nova
As vossas mãos valem ouro
Quem com vocês casar
Leva consigo um tesouro

Vocês fazem obras primas
Lindos cobertores bordados
Bonitas rendas de bilros
E os célebres alinhavados

O Centro de Artesanato Regional de Nisa trabalha para que a perfeição da arte aplicada à máquina se mantenha, e é com perfeição que nascem os inúmeros trabalhos em feltros tão bem divulgados.
Ana Maria de 36 anos trabalha desde os 14 anos nesta actividade, desde que saiu da escola. Portanto, há 22 anos que as suas mãos conhecem todos os pontos e as voltas que a tesoura dá.
Neste Centro podem ser adquiridas bases para copos, colchas, pegas, saias de camilha, cobertores, miudezas, marcadores para livros, jogos de coctail, almofadas para fixar as agulhas, as famosas saias vermelhas com o rameado preto (já referidas anteriormente) e é com esta peça de vestuário, juntamente com o xaile branco bordado que se forma o traje mais conhecido de Nisa, custando a saia dezassete contos e quinhentos. Para além desta saia, existem outras peças de vestuário normais como capas, saia e casaco.
A D. Ana Maria explicou-nos então o processo de realização de uma peça de feltro. Sobrepõem-se duas partes de tecido (feltro), alinhava-se o papel vegetal que contém o desenho, em cima dos tecidos, vai à máquina e coze-se por cima do desenho. Depois tiram-se os alinhavados assim como o papel vegetal e os restos deste, pois com a máquina de costura ao cozer, não saem. Recorta-se o tecido à volta da parte da máquina, tendo cuidado em não o cortar, caso contrário o trabalho fica danificado. É desta forma que temos uma peça feita. Pode ser feita uma pega em quinze minutos, enquanto que um cobertor ocupa dois ou três dias.
Neste centro todas as pessoas trabalham numa peça, tendo cada pessoa a sua função. Os preços variam e vão desde uma base para copos de centoe quarenta escudos a uma capa de trinta e cinco contos. Quanto às vendas, é conforme a estação doa no. No Verão vendem-se mais “miudezas"; no Inverno mais vestuário e camilhas.
Este artesanato também esteve patente em muitas exposições, entre elas, as do Casino Estoril e um pouco por todo o país, enviando mesmo peças para o estrangeiro.
Na revista “Casa Viva” e na televisão estes trabalhos já tiveram o seu “direito de antena”.
Nove horas diárias são ocupadas com os trabalhos em feltro, que se desaparecerem será triste, pois já são uma tradição muito antiga, mas mesmo assim a D. Ana Maria não aconselha esta actividade às filhas, o que quer realmente para elas é o estudo.
Vários prémios já foram alcançados por este Centro e se os receberam é porque os mereciam!
* Patrícia PortoFev. 1997
NOTA
(1)Paralta, Maria de LourdesMemorial em verso da notável Vila de Nisa, sua história, gentes, usos e costumes – Edição da autora, com o apoio da Câmara Municipal de Nisa e da Assembleia Distrital de Portalegre - 1982