12.3.19

Tempo de Poesia - Olavo Bilac


Primavera
Ah! Quem nos dera que isto, como outrora,
Inda nos comovesse! Ah! Quem nos dera
Que inda juntos pudéssemos agora
Ver o desabrochar da primavera!

Saíamos com os pássaros e a aurora.
E, no chão, sobre os troncos cheios de hera,
Sentavas-te sorrindo, de hora em hora:
"Beijemo-nos! Amemo-nos! Espera!"

E esse corpo de rosa recendia,
E aos meus beijos de fogo palpitava,
Alquebrado de amor e de cansaço. .

A alma da terra gorjeava e ria...
Nascia a primavera... E eu te levava,
Primavera de carne, pelo braço!
Olavo Bilac

Fábrica de Histórias® no Alto Alentejo (Ano II)


No âmbito da candidatura da Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo "Rede de Promoção do Sucesso Escolar no Alto Alentejo" aprovada no âmbito do programa Alentejo 2020, realizaram-se, de outubro de 2018 a fevereiro de 2019, as oficinas da 2.ª edição da Fábrica de Histórias® (FdH), este ano subordinada ao tema "Percursos Pedestres".
O programa FdH, criado e desenvolvido pela CABEÇUDOS, tem como objetivo maior a promoção da leitura e das artes junto das crianças e jovens.
Nesta Fábrica de Histórias, alun@s do 3º e 4º anos associam-se e, em cooperação, dão vida a um livro. Os talentosos escritores e ilustradores deste segundo ano de atividade são alun@s de escolas dos concelhos de Alter do Chão, Arronches, Avis, Campo Maior, Castelo de Vide, Crato, Gavião, Portalegre e Sousel.

A primeira edição da FdH no Alto Alentejo culminou com a apresentação do livro “VEM CÁ - Cartas-convite das crianças do Alto Alentejo”. Desenvolvido por trezentas crianças do 3.º e 4.º anos de oito municípios do Alto Alentejo, revelaram-se artistas da ilustração e talentos da escrita. Divertiram-se, criaram, ganharam asas, acreditaram, esforçaram-se, tentaram outra vez, pintaram-se de cores, recordaram, emocionaram-se... Foi lançado em junho de 2018, na presença de alguns dos seus autores, de representantes dos Municípios, dos Agrupamentos de Escolas, da Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo, do Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar, do Turismo do Alentejo e da CABEÇUDOS. Neste livro, @s alun@s de oito concelhos do distrito de Portalegre convidaram-nos a visitar a sua terra, através de cartas-convite e com um invulgar guia das tradições e do património, recheado de sentimentos partilhados e de confidências entre amigos do coração.
Neste segundo ano, andamos em diálogos com a natureza. Estamos a passar para o papel o que vemos, o que sentimos, o que imaginamos e descobrimos. E as impressões já são muitas... estamos a adorar estar cá fora e sentir cá dentro.

NISA: I Festival de Sopas para angariação de fundos


11.3.19

NISA: Procissão dos Passos no dia 24


NISA: Poetas populares do concelho - João Marques Faustino


Dedicada a pessoa com doença contagiosa
Tenho pena, tenho pena
Tenho pena, tenho sim
Eu até chego a ter pena
De quem não tem pena de mim

Sou um homem infeliz
Com doença rigorosa
É muito contagiosa
Minha sorte assim o quis
Há muita gente que diz
A doença é pequena
Vivo nesta triste cena
De todos abandonado
Sou por todos desprezado
Tenho pena, tenho pena.

É por isso que eu digo
Que já não tenho alegria
Aonde quer que eu ia
Não tinha um inimigo
Todos falavam comigo
Agora fogem de mim
Não é por eu ser ruim
A minha infelicidade
Posso dizer que é verdade
Tenho pena, tenho sim.

Não me querem falar, não
Nem para mim querem olhar
Quando eles vão a passar
Até escarram para o chão
Dói-me logo o coração
Por haver quem me condena
Mas Deus que tudo ordena
Também os faz padecer
Quando eu os vejo a sofrer
Eu até chego a ter pena.

Estou aqui e além
Vivo no mundo sozinho
Sentando no meu banquinho
Sem carinhos de ninguém
Quem morreu já cá não vem
Para me ver dar o fim
Para que foi que nasci(m)
Para sofrer tanto agora
Choro por quem por mim não chora
De quem não tem pena de mim.
João Marques Faustino

10.3.19

Dia Internacional da Mulher - Uma canção de João Lóio


Cicatriz de Ser Mulher
Letra e música: João Lóio
Intérprete: João Lóio* (in CD "Canções de Amor e Guerra", João Lóio, 2002)


Olha, não chores, maninha,

que eu não sei se vai passar...
essa tristeza tão funda
não sei se passa a chorar!

Olha, que pena, maninha,
essa flor de malmequer,
essa tristeza tão funda,
cicatriz de ser mulher!

Lembras? Que lindo o teu homem
e que meigo o seu olhar
e como ardia o teu corpo
ao seu mais leve tocar?

Foi de repente, maninha,
como tudo se mudou:
o amante foi senhor,
o senhor tudo esmagou!

Sei que é tão frágil a flor
que brotou do coração
e dói ver um corpo bandido
desfolhá-la pelo chão!

Olha, que os homens, maninha,
andam tontos pelo mundo:
pisam com fúria tamanha
o seu berço mais profundo!

E já não falo da guerra
com soldados frente a frente:
deixam a saia sangrando,
deixam pegadas no ventre!

Dizem "quem cala consente!",
mas custa tanto falar:
o medo dentro da gente
ficou mudo de gritar!

Olha, não chores, maninha,
que eu apago, se puder,
essa tristeza tão funda,
cicatriz de ser mulher!

* [Créditos gerais do disco]:
Carlos Rocha – guitarras acústica e eléctrica
João Lóio – voz e guitarra acústica
Firmino Neiva – baixo eléctrico
Arnaldo Fonseca – acordeão
Mário Teixeira – caixa de rufo
Regina Castro e Guilhermino Monteiro – coros
Arranjos e direcção musical – Carlos Rocha, Firmino Neiva e João Lóio
Gravado por Fernando Rangel, nos Estúdios Fortes & Rangel, Porto, em Abril de 2002
Mistura – Fernando Rangel, Carlos Rocha, Firmino Neiva e João Lóio
Masterização – Fernando Rangel


8.3.19

A Vida das Mulheres (2)


Elas...
Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens, os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos para que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com o garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.
Elas...
Elas sobem para cima de um caixote, que ainda são pequenas para chegar à bancada de descamar o peixe. Elas fecham num dia as pregas de papel de mil pacotes de bolachas. Elas espremem as tetas da vaca para o balde apertado entre as pernas. Elas ouvem a matraca de dez teares enquanto a peça cresce adiante, o fio amandado de braço aberto. Elas cortam os dedos nas primeiras vinte e cinco latas até calejar bem. Elas fazem a agulha passar para cá e lá em cruz na tela do tapete. Elas vigiam a última fieira de garrafas, caladas, à espera da sirene. Elas carregam o cesto de azeitona à cabeça, já sem cantar, até que o sol se ponha.
In “Só me ensinaram a servir”
Desenho de Manuel Ribeiro de Pavia

SAÚDE - A grávida com doença crónica: Diabetes Mellitus


Dia Internacional da Mulher assinala-se a 8 de março
Todas as mulheres com doenças crónicas, como hipertensão arterial, asma, diabetes, obesidade, epilepsia, lúpus ou depressão, devem pedir apoio ao seu médico quando planeiam engravidar. Sejam os médicos de família, os internistas (médicos que diagnosticam e seguem uma grande parte das mulheres com doenças crónicas nos hospitais) ou outros especialistas que sigam as pessoas com doenças crónicas, devem ser equacionados os riscos para a mulher e para o bebé, nomeadamente a possibilidade da doença complicar o curso da gravidez, da gravidez descompensar a doença e, em particular, os eventuais riscos da medicação.Durante a gravidez e amamentação há medicação que se sabe que é segura (ou seja, que não faz mal ao bebé) e pode mesmo ser essencial, mas há igualmente medicação que não deve ser tomada. Nestas situações, os médicos devem ser capazes de esclarecer e ajudar as mulheres a decidir, ou encaminhá-las para colegas que o façam. Há casos em que a mulher deve ser aconselhada a esperar pelo melhor controlo da doença, outros em que quanto mais adiar, pior o prognóstico, e ainda casos, muito raros, em que a gravidez ou a amamentação devem ser mesmo contraindicadas, sendo que estas situações devem ser bem discutidas e esclarecidas com a mulher e família, e se necessário, com o parecer de vários médicos.

A Vida das Mulheres (1) - Romeu Correia


A Menina Rosa é madrugadora. Muito antes das suas costureiras pegarem ao serviço, já ela percorre as várias dependências do seu primeiro andar, a preparar o começo de vida daquele dia.
Um pouco antes da oito da manhã, quinze mulheres das mais variadas idades e estados vão chegando, espaçadas.
Na cozinha, a Menina Rosa tesoura a ganga em pedaços, sobre o tampo de um mesa. À sua volta, aguardando o talhe de aviamentos dos “macacos”, as costureiras falam de tudo e de todos.
No compartimento contíguo, a casa de jantar da Mestra, os móveis envernizados estão sobrecarregados de utensílios e adornos caseiros: estatuetas, vasos com flores, pratas, vinhos finos, loiça vistosa, etc. Uma telefonia, um relógio de parede e uma fruteira a transbordar de frutos dão actualidade ao ambiente. Na parede, três retratos familiares sorriem. As portas de madeira da varanda, semicerradas, escurecem a dependência.
Os olhos das operárias cobiçam todo aquele recheio. Uma a uma recebem os aviamentos e sobem para o sótão. Sob telhas e barrotes toscos, dez máquinas de costura estão reunidas a meio da mansarda.
Romeu Correia

Dia Internacional da Mulher - Poesia e música de José Afonso



Maria
Maria
Nascida no monte
À beira da estrada
Maria
Bebida na fonte
Nas ervas criada

Talvez
Que Maria se espante
De ser tão louvada
Mas não
Quem por ela se prende
De a ver tão prendada

Maria
Nascida no trevo
Criada no trigo
Quem dera
Maria que o trevo
Casara contigo

Prouvera
A Maria sem medo
Crer no que lhe digo
Maria
Nascida do trevo
Beiral do mendigo

Maria
De todas a primeira
De todas menina
Maria
Souber a cigana
Ler a tua sina

Não sei
Se deveras se engana
Quem demais se atina
Maria
Sol de madrugada
Flor de tangerina

José Afonso – Cantar de novo

5.3.19

SALAVESSA (Nisa) preserva a tradição da Chocalhada

A Comissão de Festas da Salavessa, aldeia  a 14 Km de Nisa , Distrito de Portalegre vem pelo presente modo apresentar a V. Exas. o seu comunicado de imprensa referente à Tradição da  Chocalhada  que se realiza pela Páscoa e este ano terá lugar a 20 de Abril.
Tradição com bem mais de 100 anos, que esta Aldeia continua anualmente a realizar para que mesma não se perca.
A tradição em causa terá ainda resquícios da tradição pagã que subsistiu até aos dias de hoje.
Consideramos que se trata de uma tradição a manter e que devemos dar a conhecer a toda a região do Alentejo e a todo o País.
As características desta  Chocalhada  são diferentes de todas as que conhecem no País pois é realizada pelo campo em redor da própria Aldeia.
Convidamos V. Exas. a estarem presentes na  Chocalhada  da Salavessa, um evento da Aldeia da Salavessa e do próprio Concelho de Nisa.

25.2.19

OPINIÃO: Mais recetores do que dadores

Em contraponto com o sangue derramado em guerras estúpidas, movidas por interesses económicos, os Dadores Benévolos de Sangue combatem numa outra frente sem tréguas e sem trincheiras para salvar vidas.
Com exércitos de voluntários, anónimos por esse mundo fora, o sofrimento e o risco de vida são atenuados, porque uma minoria de gente generosa, dá um pouco de si para que outros possam viver, ou ter melhor qualidade de vida. É uma questão de consciência cívica, que infelizmente rareia e contrasta com muito egoísmo e futilidade.
Ainda me recordo do tempo em que pela falta de sangue se morria, existindo a necessidade de procurar um familiar, um amigo, ou alguém, que a troco de uma gratificação desse sangue. Hoje, felizmente e graças ao trabalho voluntário e à solidariedade dos Dadores, ainda vão existindo reservas para garantir que o sangue não falte. Mas da parte dos governantes subsiste pouco interesse, para promover a Dádiva e os constrangimentos são cada vez maiores.
Graças ao avanço da ciência, o sangue tem outra dimensão e no seu fracionamento é possível um aproveitamento integral, sendo que, pela primeira vez, este ano, já estão disponíveis medicamentos plasmáticos, com plasma oriundo das colheitas em Portugal. Infelizmente, somos o único país europeu dos ditos desenvolvidos, que não aproveita na totalidade o plasma recolhido.
Com apenas de 30 mil litros de plasma aproveitado em 2018, o Estado português poupou quatro milhões de euros e podia ser muito mais, pois tanta falta faz ao nosso Sistema Nacional de Saúde, que depois de depenado pelos privados, já está preso por arames e até nisso coloca em causa a dádiva de sangue.
O número de Dadores está a diminuir, alguns dirigentes estão a braços com a renovação e enquanto isso, a política europeia, está mais preocupada em salvar Bancos e banqueiros, do que em salvar vidas. No geral, o movimento associativo e o voluntariado depara-se com várias dificuldades e a título de exemplo, temos a complicada ou falta de disponibilidade das pessoas.
É um facto de que as pessoas dispõem de menos tempo livre, não são donos desse tempo e são vítimas de um ritmo laboral, que as deixam cada vez mais exaustas e vítimas de stress. Tudo isto, porque os ritmos de trabalho, a flexibilidade, a precariedade e leis exploradoras, deixam as pessoas sem margem para o associativismo, para o voluntariado e até para a dádiva. Esta situação obriga os poucos que conseguem alguma disponibilidade, a um esforço maior e os riscos de garantir este trabalho voluntário, agravam-se com o tempo.
Resolver esta situação, não é nenhum quebra-cabeças, é uma questão de consciência cívica e vontade política. É preciso apoiar o associativismo e o voluntariado, sem jogos de interesses e a vergonhosa interferência política. A mudança de leis laborais e o combate à precariedade, também, seriam um sinal de progresso e de interesse pelas causas sociais.
A diretiva europeia do sangue em desenvolvimento devia regulamentar melhor, o apoio financeiro necessário e as regras de funcionamento às organizações ligadas à dádiva de sangue. Também, à Organização Mundial de Saúde (OMS), não basta ter o desiderato de querer até 2020, a dádiva benévola e altruística em todo o mundo; tem de trabalhar para isso e aplicar a sua influência, porque os riscos de termos o contrário, estão bem presentes.
O sangue não se fabrica, é universal e em Portugal são necessárias entre 900 a 1000 dádivas por dia. Só os doentes oncológicos precisam de cerca de metade dessas colheitas, em função dos seus derivados. Todos os anos, só com crianças, registam-se cerca de 400 novos casos de cancro pediátrico.
Se alguém pensa que tudo o que estive a descrever é um problema secundário, a sua opinião vai mudar um dia que precisar, ou conhecer alguém necessitado de um voluntário ou de uma dádiva. Por várias razões, existem casos em que as pessoas não podem, não querem ou não conseguem participar no voluntariado, ou na dádiva, mas sempre podem apoiar, nem que seja a passarem a mensagem.Com uma esperança média de vida de 80 anos, existem 75% de possibilidades de todos virmos a necessitar de sangue, ou dos derivados; por isso, somos todos responsáveis por essa resposta. Os problemas com a saúde agravam-se e a nossa “guerra” é desigual, porque temos mais recetores do que dadores.
Paulo Cardoso - Crónica /22-02-2019 - Programa "Desabafos" / Rádio Portalegre

SAÚDE: Médicos de Portalegre estão "desesperados"

O bastonário da Ordem dos Médicos (OM), Miguel Guimarães, afirmou-se hoje preocupado com a carência de profissionais na Unidade Local de Saúde do Norte Alentejano (ULSNA), alertando que os médicos existentes estão "desesperados".
"Desesperados porque estão há anos a lutar para ter melhores condições, estão há anos a vestir a camisola e a ajudar esta população, têm promessas continuadas que as coisas vão melhorar, que as coisas vão mudar, que para o ano vai haver mais médicos nesta ou naquela especialidade e não veem nada concretizar-se", afirmou o bastonário da OM.
O responsável, que falava à agência Lusa à margem de uma visita ao hospital de Portalegre, inserido na ULSNA, onde reuniu com médicos e com a administração, considerou que, "com o tempo a passar", os profissionais de saúde começam a "não acreditar no sistema, na estrutura e no Governo".
"Neste momento, não estamos a ter equidade no acesso aos cuidados de saúde em Portugal. As pessoas têm melhor ou pior acesso consoante o seu código postal, isto é, consoante a região do país onde vivem. Nós temos que mudar este paradigma", disse.
Na reunião com os clínicos da ULSNA, segundo Miguel Guimarães, foi revelado que existem médicos que "atingiram a linha vermelha" no que diz respeito à segurança clínica, estando em "sofrimento ético" por terem de trabalhar em condições que não são as adequadas, principalmente na área da medicina interna.
"Isto causa uma perturbação imensa, causa uma depressão enorme nas pessoas, causa problemas graves, causa, de facto, uma desmotivação muito grande", sublinhou.
Considerando que o Governo tem de "fazer alguma coisa diferente", o bastonário da OM referiu que o Executivo não pode "continuar a desprezar" as regiões mais periféricas e carenciadas.
"O Governo tem de valorizar mais as pessoas que cá trabalham. Todas as pessoas que trabalham neste hospital merecem ser valorizadas e respeitadas naquilo que é a sua função", defendeu.
Miguel Guimarães exigiu ao Governo que mude a "gestão da política" no país, nomeadamente dando "mais flexibilidade e autonomia" às unidades de saúde para "poderem contratar" especialistas.
"Tem que dar mais capacidade para que os próprios serviços tenham uma gestão melhorada daquilo que são os seus próprios recursos e tem que permitir que as pessoas que acabam cá a especialidade fiquem cá a trabalhar se assim o desejarem", acrescentou.
No final da visita, o presidente do Conselho Regional do Sul da OM, Alexandre Lourenço, disse à Lusa que a ULSNA "precisa desesperadamente" dos poucos médicos que querem fixar-se no interior e que "não é facilitada" a sua colocação.
"A pediatria tem quatro médicos no quadro, todos eles com idade de não fazer urgência, todos fazem. A ginecologia/obstetrícia tem dois médicos em idade de reforma, prolongam os contratos para continuarem a trabalhar", denunciou.
O presidente do Conselho Regional do Sul lamentou também que o hospital de Portalegre não possua "autonomia" para poder gerir as suas necessidades.
"Este é um dos hospitais que mais contrata serviços médicos avulso, que são médicos que veem de outras regiões, estão aqui um dia e vão embora, não estabelecem laços nem continuidade de serviços", lamentou.
A ULSNA gere os hospitais de Portalegre e Elvas e os 16 centros de saúde existentes nos 15 concelhos do distrito de Portalegre.
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