Mostrando postagens com marcador josé gomes correia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador josé gomes correia. Mostrar todas as postagens

28.6.22

NISA: Homenagem ao poeta José Gomes Correia

Uma festa linda e comovente
A União de Freguesias do Espírito Santo, Nossa Senhora da Graça e S. Simão, promoveu no sábado, dia 25 de Junho, uma sessão evocativa do Centenário de Nascimento do poeta nisense José Gomes Correia, nascido em Nisa a 22 de Junho de 1922 e falecido na sua terra em 8 de Julho de 1983.
Uma sessão evocativa marcada pela emoção, pela convivência e saudade, bem expressas na presença de muitos amigos e antigos alunos do poeta José Gomes Correia que foi também professor no Externato D. Dinis em Nisa.
Foram alguns destes alunos que deram um cunho de reconhecimento e apreço pelo cidadão e professor, como Maria Natália Sousa, também ela professora e que por duas vezes leu poemas do seu antigo mestre, uma declamação feita com verdadeiro sentido poético e de homenagem. O mestre António Charrinho, também ele grande amigo de José Gomes Correia que lembrou como presidente da Banda Municipal de Nisa na época em que ensaiou os primeiros passos na música. António Charrinho recordou algumas passagens desse tempo e o percurso que trilhou enquanto músico. E das palavras passou à acção tocando no seu acordeão "A rosinha dos limões", com o virtuosismo que se lhe reconhece e que deliciou a assistência. Estava feita a ligação entre o poeta e a música, mas que não ficou por ali. António Charrinho porfiou em trazer à homenagem do Centenário, uma composição sua ajustada ao poema de Gomes Correia "Transforma cada espinho numa rosa..." Momento alto e não menos comovente, de elevado sentido artístico. Estava dado o mote para novas intervenções como as de José Joaquim Carmona evocando o professor, a sua amizade com a família e lembrando a existência de outros nomes de referência, nas artes, história e cultura nascidos em Nisa e que urge resgatar das trevas da memória.
Mário Mendes leu uma mensagem de António Montalvo, em seu nome pessoal e da Associação Nisa Viva, na qual recordou com especial carinho o antigo professor, a amizade que o unia à família e lembrou também o poeta que se expressava na corrente literária do romantismo.
Maria Dinis Pereira viajou até à infância para recordar o Dr. José Gomes Correia, a vida na "vila" nos anos 50 e 60, para vincar a forma determinada e decisiva como o poeta Gomes Correia ajudou na criação do Rancho Típico das Cantarinhas de Nisa, uma referência desta vila durante muitos anos e para o qual escreveu algumas modas e marchas.
O presidente da União de Freguesias, João Malpique Rufino agradeceu a presença da filha do poeta, Carlota Gomes Correia Amorim, bem como de alguns familiares e amigos, salientando o empenho da autarquia na realização desta iniciativa porque a mesma era de toda a justiça, como o era o reconhecimento a um cidadão nisense, que além de poeta com obra publicada e devidamente reconhecida, desempenhou importante papel no campo associativo, tanto na Banda Municipal como no Rancho Típico das Cantarinhas. 
A União de Freguesias, disse, "tudo fará para que, às placas toponímicas que ficam a assinalar o nome do poeta José Gomes Correia, na Urbanização das Amoreiras, outras se seguirão, porque as ruas têm nomes e é dever do poder local resolver estas situações e ao mesmo tempo evocar os cidadãos que tiveram um papel no desenvolvimento da terra e do concelho".
Seguiu-se a apresentação da 2ª edição do livro "Sonhos que morrem...Sombras que ficam", editado em 1942 e que há muito se encontrava esgotado.
Após a sessão, os participantes rumaram à Urbanização das Amoreiras onde, após a leitura do poema "À minha terra" feita por Natália de Sousa, teve lugar o descerramento da placa toponímica que fica a assinalar o nome do poeta naquela artéria, junto às piscinas municipais. Acto solene de grande simbolismo e alguma emoção por parte da filha do poeta, que viu assim concretizada uma sentida homenagem da população de Nisa, por ocasião do Centenário de Nascimento do seu pai.
Na sede da Sociedade Musical Nisense, onde decorriam as festas populares de S. João, a filha do poeta e familiares tiveram ainda ensejo de saudar e conviver com muitas pessoas amigas e "matarem" saudades de outros tempos.
Os poetas, como as pessoas, só morrem quando as esquecermos. E a poesia de José Gomes Correia que fala do amor, da saudade e do afecto à terra onde nasceu permanecerá sempre viva e imutável.
"Tu és a flor nascida entre o deserto,
És a eterna canção maravilhosa,
Que aos meus ouvidos soa qual segredo,
Que só eu compreendo, ó minha terra!"
Mário Mendes







24.6.22

NISA: Sessão evocativa do Centenário de Nascimento do poeta José Gomes Correia

A União de Freguesias do Espírito Santo, Nossa Senhora da Graça e S. Simão vai assinalar o Centenário de nascimento do poeta e ilustre cidadão nisense, Dr. José Gomes Correia, nascido em Nisa em 22 de Junho de 1922 e falecido em 2 de Julho de 1983.
José Gomes Correia, nasceu em Nisa, em 1922, filho António de Oliveira Correia e de Joaquina Gomes Castanho. Licenciou-se em Direito e em Nisa foi secretário judicial e professor no Externato D. Dinis. É dele o discurso de inauguração do Hospital da Misericórdia de Nisa, em Abril de 1960. Foi um dinâmico animador cultural, contribuindo para a criação do Rancho Típico das Cantarinhas de Nisa, em 1964, para o qual escreveu algumas "modas" e "marchas" e foi presidente da direcção da Banda Municipal de Nisa.
Em 1966 foi nomeado para o cargo de Delegado do Ministério Público junto do Tribunal de Trabalho de Lourenço Marques e mais tarde Conservador do Registo Civil de Inhambane, assumindo, também, as funções de Juiz, nas ausências ou inexistência do mesmo.
Reformou-se como Conservador do Registo Civil e regressou a Portugal em 1976 já depois da Declaração de Independência daquela ex-colónia em 25 de Junho de 1975, indo residir em Santarém onde, após inscrição na Ordem dos Advogados, exerceu advocacia, mas, por pouco tempo, devido a problemas de saúde.
Como poeta escreveu dois livros "Sonhos que morrem, sombras que ficam" (1942) e "Seara do bem e do mal" (1963), no qual revela o seu grande amor à sua e nossa terra, às nossas gentes e ao Alentejo. O primeiro, há muito esgotado, tem agora uma 2ª edição patrocinada pela União de Freguesias do Espírito Santo, Nossa Senhora da Graça e S. Simão. 
José Gomes Correia colaborou em jornais e revistas de cultura, nomeadamente o "Correio de Nisa" e a revista "Estudos de Castelo Branco", cidade onde estudou, entre outros.
A União de Freguesias do Espírito Santo, Nossa Senhora da Graça e S. Simão, concelho de Nisa, não quis deixar passar em claro esta data tão simbólica e vai assinalar no próximo sábado, dia 25 de Junho, com uma sessão de Evocação e Reconhecimento do Centenário do nascimento deste ilustre poeta e cidadão. A sessão decorrerá na sede da União de Freguesias e dela constará a leitura de poemas por antigos alunos do professor José Gomes Correia, a evocação do seu perfil social e humanista e o lançamento da 2ª edição do livro "Sonhos que morrem, Sombras que ficam...", há muito esgotado, seguindo-se o descerramento das placas toponímicas na rua da Urbanização das Amoreiras a que foi atribuído o nome deste poeta nisense.
Este é, na opinião do presidente da União de Freguesias, João Malpique Rufino, "um modesto contributo e um justo reconhecimento pela memória do cidadão e do poeta e uma forma de lembrar àss gerações actuais e vindouras, a sua inestimável contribuição para a cultura desta terra bordada de encantos."

O MENDIGO 
´stendendo a rôxa mão à caridade,
Lá vai de porta em porta o bom velhinho,
Cabelos cor de neve do caminho,
E nostálgicos olhos de saudade!

Também teve o ardor da mocidade,
Um braço forte no labor do ancinho,
Mas os anos passando, de mansinho,
Quebraram o vigor da tenra idade!

E o homem, que viveu a luta insana
Da vida, tem a paga desumana,
Contida no dizer de uma oração!...

Soldado ignoto, morrerá um dia...
E o mundo ficará sem a arrelia
De repartir migalhas do seu pão!
* José Gomes Correia

NISA: Centenário do poeta nisense José Gomes Correia


Momento de Saudade
Manhãs primaveris da minha terra amada,
Ainda sois iguais no vosso madrugar?
Alegres, joviais, em leda desfolhada,
Serenas, como a brisa em mansa caminhada,
Azuis, como em sossego, as águas sobre o mar?
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

O chão germina, irrompe, em vagas de riqueza,
Em rendas de quimera e brincos de ideal,
Como se andasse, ali, a mão da natureza
A pôr, em cada canto, um pouco de beleza,
Num sopro a dilatar-se, ardente e germinal!
Um hálito de amor perpassa de mansinho,
Sublime inspiração abraça a terra toda,
E errante, no espaço, o olor do rosmaninho
E as falas dos trigais, à beira do caminho,
São mágica harmonia e luminosa boda!

Manhãs da minha terra! O toque das matinas,
Nos céus perdendo o eco, em notas de labor,
Acorda para a vida austera das campinas,
Numa peleja heróica, as almas campesinas,
De corpos a sumir-se em bagas de suor!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Aqui, onde me encontro, avisto, sobranceiras,
Jóias de arquitectura, sonhos de escultor!
Jardins de raro encanto, ruelas traiçoeiras,
Rendilhados subtis, nas horas derradeiras,
Sobre as águas do Tejo, à hora do sol-pôr!
Paisagens de além-tudo e graça de princesa,
Na gesta secular e em rimas de cristal,
Lisboa foi amor de gente portuguesa!
Centelha sobre o mar, à beira-mar, beleza
De multissecular e grande capital!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Mas eu sinto-me só!... Arauto da planura,
Me dou, como nasci, à terra que não vejo!
Escravo da distância, amante da lonjura,
Introvertido e só... sou eu quem se procura
Em ti, meu Alentejo!

* José Gomes Correia

22.6.22

NISA: José Gomes Correia, poeta nisense, nasceu há 100 Anos!

 
A União de Freguesias do Espírito Santo, Nossa Senhora da Graça e S. Simão vai assinalar o Centenário de nascimento do poeta e ilustre cidadão nisense, Dr. José Gomes Correia, nascido em Nisa em 22 de Junho de 1922 e falecido em 2 de Julho de 1983.
José Gomes Correia, nasceu em Nisa, em 1922, filho António de Oliveira Correia e de Joaquina Gomes Castanho. Licenciou-se em Direito e em Nisa foi secretário judicial e professor no Externato D. Dinis. É dele o discurso de inauguração do Hospital da Misericórdia de Nisa, em Abril de 1960. Foi um dinâmico animador cultural, contribuindo para a criação do Rancho Típico das Cantarinhas de Nisa, em 1964, para o qual escreveu algumas "modas" e "marchas" e foi presidente da direcção da Banda Municipal de Nisa.
Em 1966 foi nomeado para o cargo de Delegado do Ministério Público junto do Tribunal de Trabalho de Lourenço Marques e mais tarde Conservador do Registo Civil de Inhambane, assumindo, também, as funções de Juiz, nas ausências ou inexistência do mesmo. Reformou-se como Conservador do Registo Civil e regressou a Portugal em 1976 já depois da Declaração de Independência daquela ex-colónia em 25 de Junho de 1975, indo residir em Santarém onde, após inscrição na Ordem dos Advogados, exerceu advocacia, mas, por pouco tempo, devido a problemas de saúde.
Como poeta escreveu dois livros "Sonhos que morrem, sombras que ficam" (1942) e "Seara do bem e do mal" (1963), no qual revela o seu grande amor à sua e nossa terra, às nossas gentes e ao Alentejo. O primeiro, há muito esgotado, tem agora uma 2ª edição patrocinada pela União de Freguesias do Espírito Santo, Nossa Senhora da Graça e S. Simão. 
José Gomes Correia colaborou em jornais e revistas de cultura, nomeadamente o "Correio de Nisa" e a revista "Estudos de Castelo Branco", cidade onde estudou, entre outros.
A União de Freguesias do Espírito Santo, Nossa Senhora da Graça e S. Simão, concelho de Nisa, não quis deixar passar em claro esta data tão simbólica e vai assinalar no próximo sábado, dia 25 de Junho, com uma sessão de Evocação e Reconhecimento do Centenário do nascimento deste ilustre poeta e cidadão. A sessão decorrerá na sede da União de Freguesias e dela constará a leitura de poemas por antigos alunos do professor José Gomes Correia, a evocação do seu perfil social e humanista e o lançamento da 2ª edição do livro "Sonhos que morrem, Sombras que ficam...", há muito esgotado, seguindo-se o descerramento das placas toponímicas na rua da Urbanização das Amoreiras a que foi atribuído o nome deste poeta nisense.
Este é, na opinião do presidente da União de Freguesias, João Malpique Rufino, "um modesto contributo e um justo reconhecimento pela memória do cidadão e do poeta e uma forma de lembrar àss gerações actuais e vindouras, a sua inestimável contribuição para a cultura desta terra bordada de encantos." 

À MINHA TERRA 
I
Qual namorado, que na campa estreita,
Onde descansa uma mulher amada
Encosta a fronte num sonhar distante
E deixa perpassar visões diversas,
Também eu, ao longe, ó minha terra,
Sinto meus olhos pobres de te verem,
De contemplar, à tarde, os teus vergéis
E a boca sequiosa dos teus beijos!
II
Aqui, longe de ti, ó berço amado,
Não há canções em bocas campesinas,
Nem contos de rainhas ao luar
A ruminar na mente das crianças!
É inverno em abril... e quando as flores
Vêm por graça algumas nas janelas,
Distrair nosso olhar neste vazio
Mais se aviva em meu peito a saudade!
III
E quando busco o pálido reflexo
Da tua formosura, ó Nisa minha,
Julgo encontrá-lo em terras ignoradas,
Em mundo que ninguém jamais verá!...
Tu és a flor nascida entre o deserto,
És a eterna canção maravilhosa,
Que aos meus ouvidos soa qual segredo,
Que só eu compreendo, ó minha terra!
* José Gomes Correia



13.6.22

NISA: Evocação do Centenário de Nascimento do poeta nisense José Gomes Correia (1922 - 1983).

 
EU E TU... 
(Dedicado a uma ilustre e infeliz poetisa)
Ao ler teus versos que o amor ditou
E que a desgraça quis chamar a si,
Eu sinto ser mesquinho o que sofri,
Ser pequenina a dor que me tocou...

Inebriou-me a lira que cantou
O sofrimento atroz, que nunca vi...
Trouxe-me à mente o pouco que vivi,
Tamanha vida de quem tanto amou!

Mas vejo, agora, quanto a tua sorte
Obedeceu, fiel, à mão de Deus,
Pois tens consolação no teu sofrer: --

-- A glória de cantar a tua morte!
E que tenho eu? Somente os erros meus
E alguém que se ri do meu querer!
* José Gomes Correia

13.4.20

NISA: Hoje é segunda -feira, dia de Nossa Senhora da Graça






                                                 Nossa Senhora da Graça
I
Ermidinha alva, acolá, distante,
Alumia o monte com o seu sorrir,
Faz lembrar-me um anjo, que vagueia, errante,
Branco, muito branco, que não quis partir!
II
Oh! Que canto simples da mansão celeste,
Que tesouro rude de fé e de amor...
Em redor, buscando, nosso olhar se veste
De miragens lindas da mais viva cor!
III
Lá dentro repousa, num dormir sem fim,
A senhora Nossa que o meu povo adora,
Santa já velhinha, cheirando a alecrim,
Querida, bem querida pela vida fora...
IV
Está tangendo o sino... oh! como ele corre...
Saltita, contente, no labor de Deus!
Oh! Cantar sublime que à distância morre,
Oh! Canção de amor, que se eleva aos céus!
V
E os moços acorrem ao festim do monte,
Anciãos caminham, trôpegos, cansados...
Todos vão beber na piedosa fonte,
Alguns vão lembrar os dias já passados!...
VI
E ao cair da tarde na divina estança
Cada peito aspira a ambição dos céus...
O mundo é distante... Todo o olhar se lança,
Em ardente prece para os pés de Deus!

José Gomes Correia (1922-1983)
Fotos: Mário Mendes - 6/4/2015

27.8.19

NISA: Memória poética - José Gomes Correia

 JOSÉ GOMES CORREIA nasceu em Nisa, no dia 22 de Junho de 1922, e, com ele, Nisa começou a ser, também, uma terra de poetas. De um, pelo menos. Dele. Licenciou-se em Direito e foi funcionário público, durante toda a vida: anos e anos na terra natal, que não queria deixar. A sua obra poética está toda ela contida nos dois livros, que publicou: "Sonhos que morrem, sombras que ficam" (1942) e "Seara do bem e do mal" (1963). Pouco. Muito pouco. Infelizmente, para nós. Pouco, não só porque entre a publicação dos dois livros, aconteceu um longo intervalo de vinte anos mas também porque, quando devia ter chegado a hora, o Tempo lhe não deu tempo para mais. Digo isto porque, quando o poeta faleceu, na sua terra natal, em 2 de Julho de 1983, estava cumprido outro ciclo de vinte anos: era chegado o tempo do terceiro livro, que não chegou a vir, e o poeta contava, então, apenas, sessenta e um anos de idade. Novo. Bastante. Talvez por isso, a sua morte foi, digamos, uma morte sem despedidas: brutal, como sempre é a morte, e escalafriante, porque se não fez anunciar. Foi como que aquela fuga para a frente que ele, aliás, de há muito tinha anunciado. "Por isso fujo e fugirei liberto / e é na solidão que me pertenço / que faço do meu peito um campo aberto/ onde posso gritar tudo o que penso".
           Carlos Tomás Cebola - in "Folha de Montemor" (Abril de 1996)

A meus pais
P´la lágrima de mãe enriquecida
Dum rosário de tanta desventura,
P´la gota de suor dum pai vertida
Por distante ideal a que procura...

Por esforços que mudam a vida
E me levam - mesquinha criatura,
Por titânico exemplo e dura lida
Que uma graça de Deus se me afigura,

A vossos pés, meus Pais, grato deponho
O meu, que foi também o vosso sonho,
Como penhor da minha gratidão...

Sonhar de dezanove primaveras,
A viagem ao mundo das quimeras,
A oferta integral dum coração!
José Gomes Correia

29.12.17

O NATAL, num poema (quase) inédito de José Gomes Correia

SAUDADE...

É noite de Natal... Lá fora a neve branca
Cai silenciosamente; e todo o povoado
É um canto de luz, um ninho abençoado,
Uma ardente oração a Deus sublime e franca!

Sorrisos de alegria emanam dos casais,
Uma onda venturosa esparge em cada lar
Uma chama de amor, brilhando em cada olhar,
Carícia de Jesus nas almas imortais!...

Só ele o pobre velho, o órfão de carinhos,
Treme de frio; e a fome empresta amargo pranto
Ao seu cansado olhar, que busca em cada canto
O seu saudoso lar de fogos pobrezinhos!

Nascera lá na serra havia muitos anos...
Ali passara sempre a vida descuidada,
Ali crescera e amara a moça mais prendada,
Triste manancial de tantos desenganos!

Um dia, ela morreu... tocavam as trindades...
O vento soluçava e as aves nos beirais
Pareciam chorar... e as vozes dos trigais
Eram sentida prece, um hino de saudades!

Depois... ele partiu! Levava para longe
As mil recordações dos tempos que passaram,
Correra o mundo inteiro e nunca se acabaram
As lágrimas de dor no seu viver de monge!

Sentia-se vélhinho... iria prós oitenta...
Q´ria ver outra vez a terra, onde nascera,
Q´ria sentir ainda o gozo da quimera...
Um frémito de amor o peito lhe acalenta!

Sentia-se já perto... eram as mesmas águas
Correndo mansamente, as mesmas casas velhas,
O mesmo tilintar de guisos das ovelhas,
A mesma campa em flor, jardim das suas mágoas!

Sentia que  revivia a sua mocidade,
O seu corpo de velho à luz sentimental
Do abençoado ninho em noite de Natal,
Á sombra enganadora e vã da realidade!
- José Gomes Correia (poeta nisense)

18.12.17

O Natal visto pelos poetas nisenses (5)

Os três Reis Magos
Nas trevas cerradas da noite invernosa,
Lá vão ansiosos, pisando os caminhos,
Os Reis do Levante de incensos e arminhos,
Seguindo uma estrela nos céus luminosa...

Vão crentes buscando, a sonhar, dolorosa
Visão desmedida de encantos mesquinhos!
Humildes os Reis, a rezar, pobrezinhos,
A prece de graças a Deus fervorosa!

Caminham cansados e de olhos nos céus,
Errando na noite, soberbos e réus,
Seguindo essa estrela que os leva a Jesus...

Chegados, enfim... ao menino ofertaram
Tesouros de Fé e ali adoraram
O Deus-pequenino, dos homens a Luz!
José Gomes Correia in “Sonhos que morrem, Sombras que ficam” (1942)

31.5.17

A Primavera na poesia popular de Nisa



Quando Chega a Primavera...
I
Quando chega a Primavera,
Com seu manto de quimera
De soberba feiticeira
E um vestido de mil cores,
Vem cobrir a terra inteira,
Sua imagem graciosa
Se retrata em cada rosa
A sorrir-me...
II
Quando uma manhã de Abril
Vem tocar o peitoril
Da já morta fantasia,
Meu pensamento esvoaça
E recorda a sua graça,
Uma lembrança sombria!
Cada gorjeio de andorinha
É uma fala só minha,
Que vem dela...
III
Mas quando o Sol já declina
E a beleza campesina
Deixa sebes e valados
E uma voz de cotovia
Já não canta todo o dia
Pela verdura dos prados,
Também morre na minha alma
A doce voz, que me acalma,
Porque é dela...
IV
Ao ver a terra despida
Entregar-se, adormecida,
Aos triunfos outonais
E ao calar-se o rouxinol,
De manhã ao pôr do sol,
Nos meandros dos choupais,
Só vejo a campa sagrada,
Onde dorme descuidada,
Quem eu amo!...
José Gomes Correia

29.4.17

NISA: Lembrando o poeta nisense José Gomes Correia





À minha terra
I
Qual namorado, que na campa estreita,
Onde descansa uma mulher amada
Encosta a fronte num sonhar distante
E deixa perpassar visões diversas,
Também eu, ao longe, ó minha terra,
Sinto meus olhos pobres de te verem,
De contemplar, à tarde, os teus vergéis
E a boca sequiosa dos teus beijos!
II
Aqui, longe de ti, ó berço amado,
Não há canções em bocas campesinas,
Nem contos de rainhas ao luar
A ruminar na mente das crianças!
É inverno em abril... e quando as flores
Vêm por graça algumas nas janelas,
Distrair nosso olhar neste vazio
Mais se aviva em meu peito a saudade!
III
E quando busco o pálido reflexo
Da tua formosura, ó Nisa minha,
Julgo encontrá-lo em terras ignoradas,
Em mundo que ninguém jamais verá!...
Tu és a flor nascida entre o deserto,
És a eterna canção maravilhosa,
Que aos meus ouvidos soa qual segredo,
Que só eu compreendo, ó minha terra!
José Gomes Correia (Nisa 22/6/1922 - 2/7/1983


5.6.16

POETAS NISENSES: José Gomes Correia

 "JOSÉ GOMES CORREIA nasceu em Nisa, no dia 22 de Junho de 1922, e, com ele, Nisa começou a ser, também, uma terra de poetas. De um, pelo menos. Dele. Licenciou-se em Direito e foi funcionário público, durante toda a vida: anos e anos na terra natal, que não queria deixar. A sua obra poética está toda ela contida nos dois livros, que publicou: "Sonhos que morrem, sombras que ficam" (1942) e "Seara do bem e do mal" (1963). Pouco. Muito pouco. Infelizmente, para nós. Pouco, não só porque entre a publicação dos dois livros, aconteceu um longo intervalo de vinte anos mas também porque, quando devia ter chegado a hora, o Tempo lhe não deu tempo para mais. Digo isto porque, quando o poeta faleceu, na sua terra natal, em 2 de Julho de 1983, estava cumprido outro ciclo de vinte anos: era chegado o tempo do terceiro livro, que não chegou a vir, e o poeta contava, então, apenas, sessenta e um anos de idade. Novo. Bastante. Talvez por isso, a sua morte foi, digamos, uma morte sem despedidas: brutal, como sempre é a morte, e escalafriante, porque se não fez anunciar. Foi como que aquela fuga para a frente que ele, aliás, de há muito tinha anunciado. "Por isso fujo e fugirei liberto / e é na solidão que me pertenço / que faço do meu peito um campo aberto/ onde posso gritar tudo o que penso".
Carlos Tomás Cebola - in "Folha de Montemor" - Abril de 1996


4.6.15

OLHAI! Os poetas da nossa terra (1)

JOSÉ GOMES CORREIA (1922-1983) I
À minha terra
I
Qual namorado, que na campa estreita,
Onde descansa uma mulher amada
Encosta a fronte num sonhar distante
E deixa perpassar visões diversas,
Também eu, ao longe, ó minha terra,
Sinto meus olhos pobres de te verem,
De contemplar, à tarde, os teus vergéis
E a boca sequiosa dos teus beijos!
II
Aqui, longe de ti, ó berço amado,
Não há canções em bocas campesinas,
Nem contos de rainhas ao luar
A ruminar na mente das crianças!
É inverno em abril... e quando as flores
Vêm por graça algumas nas janelas,
Distrair nosso olhar neste vazio
Mais se aviva em meu peito a saudade!
III
E quando busco o pálido reflexo
Da tua formosura, ó Nisa minha,
Julgo encontrá-lo em terras ignoradas,
Em mundo que ninguém jamais verá!...
Tu és a flor nascida entre o deserto,
És a eterna canção maravilhosa,
Que aos meus ouvidos soa qual segredo,
Que só eu compreendo, ó minha terra!

29.5.15

Poema (quase) inédito de José Gomes Correia

AGUARELA
No livro da natureza
Quis Deus que as coisas mais belas,
Porque grandes... fossem elas
Um hino de singeleza!

Tudo tão simples... tão breve!
Diz-se num sopro, num grito:
Terra! Mar! Céus! Infinito!
Flor de sangue ou flor de neve!

Flor vermelha ou de outra cor
Mistério doce e profundo
Jóias de eterno escultor
Vós sois a graça do mundo!

Que a terra seria toda
Mais que despida quimera,
Não fosse o fato de boda,
Que lhe traz a Primavera!

Até o meu Alentejo,
Mar calmo de espigas loiras,
Se casa bem, ao que vejo,
Com o rubro das papoilas!

Na vossa simplicidade,
Flores do campo, em desatino,
Sois mil versos de humildade,
De sabor quase divino!...

Cingida aos pés do Senhor
Na tua muda expressão,
És um poema de amor,
Que nos fala ao coração!

E se a tua formosura,
Branca flor, a campa invade,
Mais do que amor... és ternura!
Mais que ternura... és saudade!

Eu sei lá o que se sente
Na tua presença, enfim!
Cabe em ti Deus, certamente,
Como tu cabes em mim!
José Gomes Correia
"Aguarela" é um poema quase inédito de José Gomes Correia. Foi publicado no livro "Flores" - Inéditos sobre a flor dos nossos poetas contemporâneos - numa edição das Conferências de S. Vicente de Paulo de Portalegre e integrado - cito - "no seu movimento de Cultura, Recreio e Caridade, representa a contribuição de alguns do nossos Poetas contemporâneos - Consagrados e Novos - para uma obra de protecção às crianças órfãs - as florinhas abandonadas nos canteiros da Vida. "
Não se conhece a data de edição do citado livro, apenas que do poema do nisense José Gomes Correia foi feita uma pequeníssima brochura, de onde retirámos o texto que damos a conhecer, gostosamente, aos visitantes do "Portal de Nisa".
Por alguma razão se diz que "Maio é o mês das Flores"!