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18.8.25

CENTENÁRIO: De Nisa para a moviola, o percurso singular de Baptista Rosa

 


Foi preciso vestir a farda de tenente para abrir a porta da carruagem e filmar a Rainha Isabel II num plano que nenhum protocolo previa. João Emílio Baptista Rosa tinha esse dom raro: o de chegar antes dos outros e captar o instante com arte, empenho e desassombro.

João Emílio Baptista Rosa nasceu em Nisa a 18 de Agosto de 1925. Filho de comerciantes, foi para Lisboa para estudar Direito e depois Letras, cursos que trocou por uma paixão maior: o cinema.

As conversas com amigos nas tertúlias lisboetas do Palladium e nos estúdios da Tóbis, a par das leituras e colaboração em jornais e revistas ligadas à arte cinematográfica, mais cimentaram o fascínio por uma arte que despontava em Portugal: o cinema.

Na qualidade de colaborador da Revista “Animatógrafo”, com direcção de António Lopes Ribeiro (1933/1941), Baptista Rosa escrevia as suas crónicas e críticas sobre o Cinema que se fazia naquela época.

Em 1941 estava como estagiário no filme “O Pai Tirano”, realizado por António Lopes Ribeiro, e, logo de seguida no filme “O Pátio das Cantigas”, realizado por Francisco Ribeiro (Ribeirinho).

Com a experiência adquirida rumou a Espanha (Madrid) no ano de 1946, tendo, então, trabalhado com o cineasta húngaro Ladislao Vajda, o qual foi durante a época de 40 e 50 um elemento fundamental do cinema espanhol, destacando-se, para o efeito, um filme que marcou a juventude Ibérica e da América Latina, “Marcelino, Pão e Vinho”.

Fundou e dirigiu a revista IMAGEM de 1954 a 1959, a qual se dedicava à divulgação da actividade cinematográfica.

A visita da Rainha Isabel II a Portugal em 1956 foi um marco fundamental do contributo de Baptista Rosa para a história do Cinema e Televisão no nosso país e que fica bem expresso no depoimento sobre este evento de Augusto Cabrita presente no Livro “50 Anos da RTP”, da autoria de Vasco Hogan Teves:

“Foram mobilizados para cobrir o acontecimento todos os ‘cameramen’ possíveis deste País” – relembrava Augusto Cabrita, acrescentando: “E eu, como só possuía máquinas fotográficas, tive que comprar à pressa uma reluzente e magnífica ‘Paillard-Reflex’. (...) O Baptista Rosa na sua farda de tenente do Exército, filmava, em grande plano, a chegada da Rainha junto ao Cais das Colunas. Eu (em ‘plongée’...), do cimo do Arco da Rua Augusta, fazia os planos de conjunto. O José Manuel Tudela, o Carlos Tudela, o Serras Fernandes, o Adriano Nazareth, o Vítor Manuel, o João Martins, o António Cunha Teles, o Walter Sampaio, o António Bernardo, o Artur Moura... e os outros membros da equipa espalhavam-se por sítios estratégicos da cidade até Queluz... Mas, após os planos de conjunto feitos do meu poleiro, ainda me lembrei de fazer um ‘extra’ (fora da planificação) que foi descer à pressa a escadaria e achar-me ao nível da rua a tempo de enquadrar Craveiro Lopes e Isabel II sob o Arco, e segui-los, numa correria doida, de máquina em punho, passando pelo Rossio, Restauradores, subir a Avenida e chegar ao Marquês, exausto como o corredor da Maratona...

Tirando o máximo partido da sua farda de oficial, Baptista Rosa infiltrou-se por quantos sítios foi possível para apanhar as melhores imagens. Quebrou alguns protocolos, mas, graças a isso, impressionou uns tantos metros de filme com imagens que ninguém mais conseguiu. Como, por exemplo, aquela do interior do coche, com os sorrisos de Isabel e Craveiro (e sabe-se como era difícil fazê-lo sorrir) em primeiríssimo plano, enquanto os seguranças, aturdidos , só se aperceberam do que se passara quando já nada podiam fazer. É que o Baptista Rosa fora demasiado rápido a abrir a porta da carruagem e a assestar a objectiva.”

No livro “Baptista Rosa”, uma edição de 1984 da Cinemateca Portuguesa, com a organização literária de José Matos-Cruz, pode ler-se na introdução: “Na galeria de autênticos profissionais do Cinema Nacional, Baptista Rosa ocupa uma posição atípica e singular. Pela sua multifacetada capacidade como técnico, pela viva experiência enquanto escritor e repórter, pelo carácter específico das Obras que assinou.

Dividido entre afazeres e apetências, distribuindo-se por áreas e motivações frequentemente insuspeitáveis, Baptista Rosa dedicou décadas – o melhor esforço aos Serviços Cartográficos do Exército e à Radiotelevisão Portuguesa.”

Um Amor Entre Cinema e Televisão

Na obra citada, Luís de Pina, então Director da Cinemateca, escrevia:

“Conheci Baptista Rosa durante a fase heróica da Radiotelevisão Portuguesa, aí pelo ano de 1958.

Sentado a uma moviola de 16mm, com os olhos cravados nas imagens e as mãos crispadas nos comandos da máquina, utilizava um método muito pouco ortodoxo mas ainda hoje seguido, pendurando os planos do filme no pescoço, à medida que a sequência ia sendo alinhavada.

Era aquele, na verdade, o seu elemento. Mais repórter do que escritor, mais à vontade na montagem do que na realização, a tendência habitual do seu espírito fadava-o para a curiosidade insaciável por todas as pessoas e por todas as coisas. Se escrever é pensar com os dedos, como dizia um grande Jornalista, Baptista Rosa servia-se dos olhos para nos revelar o grande espectáculo, o grande Cinema da vida. A câmara e a moviola eram as companheiras de todas as horas”.

Baptista Rosa trabalhou nos Serviços Cartográficos do Exército onde atingiu o posto de tenente- coronel. Ao longo da sua curta vida, foi Guionista, Realizador, Produtor, Actor, Operador de Câmara, Montador, Jornalista e Escritor.

Fundou diversas revistas de cinema e espectáculos, entre elas a Plateia, foi director do jornal “O Benfica” e após o 25 de Abril saneado da RTP.

Baptista Rosa não desanimou e em 1978, juntamente com Odette de Saint-Maurice, Afonso Botelho, Aquilino Mendes, Pinheiro de Azevedo (ex-Primeiro Ministro), Tomás Rosa (ex-Presidente da RTP), Maria Nunes Forte, entre muitos outros, está entre os fundadores da RTI –Radio Televisão Independente, num período em que ninguém falava de Televisão privada em Portugal, sendo esta acção denominada por “Um Projecto de T.V.”

A ideia da necessidade de criação do ANIM (Arquivo Nacional das Imagens em Movimento) nasceu no início dos anos 80, tendo Baptista Rosa participado no Grupo de Trabalho então constituído para o efeito.

“Controverso e versátil, fascinante e hábil, competente e incansável, Baptista Rosa permanece – acima de tudo – como uma figura pública de insuperável relevância entre nós, com prestígio e simpatia um pouco por todo o Mundo que veio a percorrer”. Baptista Bastos

Faleceu em Lisboa, aos 57 anos, a 6 de Outubro de 1982.

 Filmografia

Tyrone Power em Portugal (1948) - Realizador

A Morgadinha dos Canaviais (1949) - Assistente de Realização

Imagens de Niza (1949-35mm-P/B) - Realização

Sonhar É Fácil (1951) - Assistente de Realização

I Exposição de Arte dos Trabalhadores (1952-35mm-P/B) - Supervisão Geral

Moderna Escultura Portuguesa (1952) - Supervisão Geral

A I Grande Concentração Nacional de Filarmónicas e Bandas de Música Civis (1952) - Supervisão Geral

Parque Desportivo Salazar (1952) - Supervisão Geral

O Natal na Arte Portuguesa (1954-35mm-P/B) - Realização

Azulejos de Portugal (1958-35mm-cor) - Realização

Fundo de Fomento de Exportação (1959-35mm-cor) - Produção e Supervisão Geral (inacabado)

Como se Fabrica a Margarina Chefe (1961-16mm-P/B) - Produção e Supervisão Geral

A Paixão de Cristo na Pintura Antiga Portuguesa (1961-35mm-cor) - Realização, Planificação e

Montagem

Alfama à Noite (1962) - Produção e Realização

O Século (1963-35mm-P/B) - Produção e Supervisão (Inacabado)

Semana Santa em Óbidos (1963-16mm-P/B) - Realização e Planificação

O Forcado (1965-16mm-P/B) - Realização e Montagem

Instituto Nacional de Educação Física (1967-16mm-P/B) - Realização

O Romance do Luachimo – Lunda, Terra de Diamantes (1968-35mm-cor) - Produção, Realização e Montagem

A Arte dos Povos da Lunda (1969-35mm-cor) - Produção, Realização e Montagem

Cartografia, Arte e Técnica (1969-35mm-cor) - Realização

Cartografia, Arte e Ciência (1970-35mm-cor) - Realização

Hello Jim (1970) - Produção (Prémio Paz dos Reis)

Fundação Gulbenkian-Doze Anos de Actividade (1972-16mm-P/B) - Produção e Supervisão Geral

A Pintura de Vieira da Silva (1972-35mm-cor) - Produção e Realização (Inacabado)

Televisão

Visita da Rainha Isabel II a Portugal (1956)

Viagem do Presidente da República, general Craveiro Lopes aos Açores (1957)

Viagem do Presidente da República, general Craveiro ao Brasil (1957)

Morte e Funeral do Papa Pio XII (1958)

Eleição do Papa João XXIII (1958)

Cinema (1958)

Exposição Internacional de Bruxelas (1958)

Inauguração do Cristo Rei (Lisboa-1959)

Esta Semana Aconteceu (1959)

Desfile dos Espectáculos (1959)

Visita do Ministro da Presidência à Índia (1960)

Visita do Ministro da Presidência a África (1960)

Festival de Cinema de Berlim (1960)

Exposição Henriquina (1960)

O Forcado (1965)

Cinema 65 (1965)

Óbidos e a Semana Santa (1966-Representante da RTP no Festival Internacional de Televisão de

Monte Carlo)

Cinema sem Estrelas (1967)

Horizonte (1967)

Notícias do Espectáculo

Zip-Zip (1969) - Guionista

Curto-Circuito (1970) - Guionista e Produtor

Viagem do Presidente da República ao Brasil (1972)

Taco-a-Taco

Este Século em que Vivemos

Volta a Portugal em Bicicleta (Várias)

Mensagens Natalícias de Militares em serviço na Guiné, Angola, Moçambique e Goa

Condecorações

Medalha de Mérito Militar (1969)

Grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1972)

Medalha de Prata de Serviços Distintos (Fevereiro de 1974)

Medalha de Mérito D. João VI (Rio de Janeiro, 1980)

Como Júri

Prémio Itália de Rádio e Televisão (Florença-1970)

XXIV Festival Internacional de Cinema de Berlim (Julho de 1974)

Festival Internacional do Filme Publicitário de New York (1981)

Prémios

Em Nisa (1975) na festa de "Artilheiros" - 50 anos

Prémio Laranja – Área Televisão (1967-Diário Popular)

Prémio de Imprensa (1968-Horizonte, Programa de Televisão)

Denominação de Prémio

Prémio Baptista Rosa (1982-Atribuição feita pelo jornal brasileiro “ O Globo”

Livros publicados

Chamava-se Júlia e Fazia Flores (1984)

Cargos

Chefe da Divisão de Fotografia e Cinema dos Serviços Cartográficos do Exército

Chefe de Serviço de Produção Cinematográfica (1959)

Chefe de Serviço de Programas Especiais (1963)

Adjunto da Direcção-Geral de Programas da RTP (1969)

Director da Agência Portuguesa de Revistas

Chefe de Redacção da Revista “Filmagem”

Director e Editor da Revista “Imagem” (reaparecimento em 1950)

Director da Revista “Plateia”

Director do Semanário “O Benfica” (1969 a 1971)

Colaborador como Jornalista nos jornais “Diário Popular”, “O Século” e “Diário de Lisboa”, “Record”, assim como nas Revistas “Eva” e “Século Ilustrado”

Presidente da Casa do Pessoal da RTP

Correspondente da BBC, Visnews, Reuter e Révue du Cinéma

Direcção do Grémio Nacional da Imprensa Não-Diária (1973-1975)

Fontes

Livro “Baptista Rosa”, edição Cinemateca Portuguesa (Coordenação José de Matos-Cruz - 1984); História da Televisão em Portugal (1955/1979) de Vasco Hogan Teves (Editora TV Guia-1998); Nunes Forte (Medalha comemorativa e Livro “Dossier RTI”); Revista Grande Plano da CoopTV; Revista Plateia; Jornal “O Benfica”; Revista Rádio & Televisão, Blogue Santa Nostalgia e memória do biógrafo.

·       * Mário Mendes

 – Texto adaptado do que foi publicado no “Alentejo Ilustrado – Agosto 2025

16.2.25

CARLOS PAREDES: O sonhador de amigos


"Um homem tem todas as idades, desde que o mundo existe, desde que a vida surgiu."
                                                                                                               Carlos Paredes
Um homem está debruçado sobre a cidade, sereno e tranquilo e atento a todas as imagens e às outras que não estão lá, e nos seus olhos há um sonho que se constrói com mãos e com alma, como é próprio das coisas belas. É um alguém urgente, de cabeça solta no delírio dos pássaros que estrebucham no rasto de loucos espalhado pela cidade à sua frente. Ali em volta rodopiam mulheres quase invisíveis de cabelos luminosos como nos poemas banais, e ouve-se um som ligeiro, definido apenas quanto baste para ilustrar as lembranças duradouras dos mundos todos que o homem traz dentro da cabeça.

Sobre a cidade paira um fogo enorme de que apenas este homem atento e debruçado se dá conta. E olha em volta, mas quem passa leva mais em que pensar, pode ser o gás, a luz e o telefone, as facturas com três meses, um amor por consumar, ai de nós quando morrer a esperança e o fogo se extinguir. Diz o que diz, nunca fala por falar, porque sabe que há coisas que é preciso dizer, porque o silêncio mais terrível é quando o rumor da memória se apaga na mudez do esquecimento.

O homem sabe que há muito mais coisas no mundo do que aquilo que os olhos podem ver e os dedos podem tocar, cinco sentidos são poucos para tanta coisa extraordinária. É por isso que ao falar se perde e se encontra nos sentidos todos das palavras, porque as palavras nunca são simples conjuntos de letras ordenadas em conformidade com a morfologia e a sintaxe, as palavras são a expressão e a vida de todo o ser ou coisa, e tanto assim é que mesmo deus só existe porque podemos nomeá-lo.

O homem pensa tudo isto de modo desordenadamente claro, e sobre a cidade sorri ao mundo, para disfarçar a tristeza. Tempos houve em que amou mais do que aos humanos é consentido, sabe quão infinitos são os mistérios e as agruras do amor, melhor seria arrancar um braço como o poeta, e no entanto sabe também que desistir de amar seria apenas uma forma cobarde de desistir de viver e por isso preferirá dizer que amou até à exaustão, até ao desespero

– Até somente ser possível amar tudo sabendo ele e sabendo nós que estas são palavras de homem sábio, palavras com o amor por dentro, os passos em volta e infinitos espantos pela rua, e por isso são com certeza mais verdadeiras do que as palavras comuns.

O homem está debruçado com a naturalidade de quem sempre soube de todas estas coisas, vivendo no meio de quem nunca deu por nada. Não se espantará pois se uma desconhecida o abordar e lhe pedir um beijo. Sem pretexto nem razão, apenas porque sim. Talvez altere o rumo dos planos para esse dia, talvez não vá ao encontro marcado para as seis, talvez endoideça e se deixe ir, atrás do beijo e do sorriso da mulher.

Ou talvez não. Provavelmente vai beijá-la como quem diz adeus e serenamente sussurrar-lhe com voz de mar e névoa há quanto tempo não nos vemos, e ela dirá se calhar nunca nos vimos, e ele pois não mas quem dera fosses Aquela por quem estive sempre à espera, e seguirão cada um o seu caminho

– Até tudo poder ser reencontrado por dentro do amor, e esta história não acaba nunca porque é a mais bela de todas as histórias de paixão, total e redentora

– Tomai, isto é o meu corpo e porque assim é, não sei por onde começar. Poderia dizer-lhe que tantas foram as vezes em que falámos destas coisas tão pequenas e tão simples e tão óbvias, que às vezes parece que ainda o vejo aqui mesmo à minha mesa, ou ali à frente, no meio da rua, tacteando a realidade impura dos homens sem ficar contaminado, deslumbrando-se perante um gesto, um sorriso anónimo, uma paisagem ou um som distante. Dizem que o homem, esse homem debruçado sobre a cidade de quem lhe falo, dizem que é músico. Outros dizem que é um ser fantástico, divinumano, julgando com isto explicar o que não tem explicação.

Pois quem poderá aferir a vida de uns e de outros, os seus actos e omissões, os seus feitos e os seus defeitos? Há muito mais perguntas do que respostas, o amigo sabe bem que nem todos os que olham são capazes de ver o que há do lado de dentro das coisas.

Quando o prenderam, por excesso de sonhos, o homem grande sorria. E continuou a sorrir, gesticulando sozinho na cela, dirigindo uma invisível orquestra de guitarras que pairava no seu cérebro. Os companheiros levaram tempo a perceber que se tratava de música, os polícias nunca entenderam que aquele homem seria sempre mais livre do que qualquer deles ou todos juntos. Porque a vida são mais do que cinco sentidos, o meu amigo sabe. E era por isso que o homem continuava a sorrir nessa tarde, tantos anos depois, em que voltou a debruçar-se sobre a cidade.

As palavras são como os sonhos, têm os significados que lhes damos e os outros, e até deus deixaria de existir se trocássemos as palavras, e onde está deus passasse a estar diabo, o mundo nunca mais seria o mesmo. Pena é que sejam tão poucos os que se deixam prender pelas palavras certas, e menos ainda os que entendem as infinitas sem-razões do amor, de amar assim, sem nada em troca, sonhando amigos. Pode alguém viver feliz com tanta dor em volta, tanta mágoa, tantas lágrimas?

Na cidade há um fogo imenso, mas quem passa leva mais em que pensar, o gás, a luz, o telefone, um amor que ficou pelo caminho, ai de nós quando morrer a esperança. Diz o que diz, mesmo sabendo que está tanto por dizer, que está tudo por fazer. Um dia, murmura, um dia virá em que os homens poderão viver como homens, e toda a gente descobrirá que o prazer de dar é maior que o de receber, mas até lá só nos resta o sonho feito com mãos e com alma.

Mãos, dedos, toques e magias – assim se vai desenhando a alma das coisas que o homem vê, do mundo que respira, dos amigos sonhados que surgem pelo caminho, sempre com música em redor e uma ilusão por perto. O que falhou no mundo melhor que quis ajudar a fazer, não sei.

– Sei que não passo de um homem, cidadão de todas as cidades, e trago comigo a única certeza de que a arte só existe com as pessoas por dentro, por isso gosto de abraçar a música como se abraça alguém que se ama. E se a música e a realidade estivessem em lados diferentes de mim, então estaria a viver uma ilusão, uma falsa música ou uma falsa realidade.

Digo: não sou um homem de palco, mas também não me chega ser um homem de plateia. Gosto de ver, sentir, partilhar. Em palco, as mais das vezes só vemos as luzes à nossa frente, e é como se o brilho cegasse, deve vir daí essa imensa solidão angustiada do artista. Foi por isso que nunca quis ser mais do que um arquivista de retratos, maravilhas da técnica, milhares de fotografias tiradas por dentro dos corpos, e é pelo corpo que se chega à alma, eu sei. Só se pode olhar para os outros a partir deles próprios, e eu podia vê-los por dentro, aos nobres e aos pobres, ricos e plebeus, todos igualmente frágeis e verdadeiros. E o amigo não imagina quanto se pode viajar numa simples sombra, o que uma imagem elementar a duas cores nos dá a conhecer de um homem.

Poderia falar uma vez mais de amigos, doidos de paixão, adolescendo no amor que tudo explica. Pois que a idade de um homem não são cinquenta, nem duzentos, nem dez mil anos, a idade é o tempo todo que houve e haverá. É este o meu mundo, o universo que quis construir à imagem e semelhança do homem que reencontro nesta cidade

– Este é o meu sangue como se fosse eu próprio, como se tudo fosse sempre tão simples como estar aqui. O homem debruçado sobre o mundo não tem como esconder um raio de tristeza no olhar atento, os dias não correm de feição para os poetas, mas é só uma questão de tempo. Dias virão em que o mundo aprenderá de novo o valor das coisas simples, como um sorriso, uma melodia de mendigos, um beijo.

À sua volta rodopiam mulheres iluminadas como nos poemas banais e ouve-se um som definido apenas o necessário para acender as lembranças dos mundos todos que o homem traz dentro da cabeça, solta no delírio dos pássaros que estrebucham na cidade à sua frente. Espera, talvez, que alguém o aborde somente para dizer há quanto tempo não nos vemos. E seguirão a pé o resto do caminho, lado a lado, como pássaros tacteando a realidade e os sentidos das palavras e das coisas.

In Movimentos Perpétuos - Textos para Carlos Paredes

Textos de Clara Pinto CorreiaEduardo LourençoEduardo Prado CoelhoFernando AlvesGonçalo M. TavaresJacinto Lucas PiresJorge Silva MeloJosé Carlos VasconcelosJosé Eduardo AgualusaJosé Jorge LetriaJosé Luís PeixotoJosé SaramagoLuís OsórioManuel Alegre, Manuela GonzagaMia CoutoPedro MexiaPedro TamenPossidónio CachapaRegina LouroRui ZinkSarah AdamopoulosSérgio GodinhoUrbano Tavares RodriguesVasco Graça MouraViriato Teles e Y.K. Centeno

Prefácio de Jorge Sampaio | Ed. Oficina do Livro, Lisboa, 2003

Áudio: leitura de Sandra Bernardo no programa Filhos da Madrugada
Emissora das Beiras, 16.Fev.2006

12.11.23

LISBOA: Grande espectáculo musical encerra celebrações dos 100 anos da Casa do Alentejo

O espetáculo comemorativo do centenário da Casa do Alentejo: “Por Amor ao Alentejo”, que decorre no dia 19 de novembro, no Fórum Lisboa, vai encerrar as iniciativas que esta instituição promoveu ao longo de 2023, com o objetivo de comemorar os seus 100 anos de existência.
Paulo Ribeiro e convidados, Vitorino Salomé, Inês Duarte, Grupo Coral e etnográfico “Os Camponeses de Pias” e “Em Cantos do Alentejo”, Grupo Coral e etnográfico “Os Rouxinóis do Alentejo”, Maria João Luís e Moços da Viola Campaniça de Castro Verde são os artistas convidados para este espetáculo, que será apresentado por José Russo.
A entrada é livre, mas sujeita à lotação da sala. Os bilhetes podem ser levantados na Casa do Alentejo, até à véspera do grande dia, e no Fórum Lisboa, no próprio dia do espetáculo, entre as 14h00 e as 15h30.

4.11.23

CASA DO ALENTEJO: Apresentação de livro celebra Centenário

 
O Salão Victor Santos, na Casa do Alentejo, em Lisboa, acolhe a apresentação do livro “Casa do Alentejo – Cultura, Liberdade e Solidariedade – 100º Aniversário”.
O lançamento desta obra, acontece no dia 10 de novembro, a partir das 17 horas, integra-se nas Comemorações do Centenário da fundação da Casa do Alentejo. O livre teve a coordenação de Rosa Calado e Fernando Mão de Ferro.
A apresentação da obra estará a cargo de Ana Paula Amendoeira, Diretora Regional de Cultura do Alentejo e Santiago Macías, Diretor do Panteão Nacional.
Este livro é um contributo de cerca de 50 investigadores para um melhor conhecimento do Alentejo e da sua histórica “Embaixada Cultural” em Lisboa. 

6.9.23

ESTREMOZ assinala centenário de nascimento de Natália Correia

Durante o mês de setembro comemoram-se 100 anos do nascimento de Natália Correia e a Biblioteca Municipal de Estremoz assinala a data, com uma pequena mostra biobibliográfica sobre a escritora e poetisa.
Natália Correia nasceu na Fajã de Baixo, São Miguel, Açores, a 13 de setembro de 1923. Poetisa, ficcionista, contista, dramaturga, ensaísta, editora, jornalista, cooperativista, deputada à Assembleia da República, foi uma das vozes mais proeminentes da literatura e da cultura portuguesas na segunda metade do século XX, tendo resistido energicamente ao Estado Novo e aos radicalismos do pós-25 de Abril. Interveio politicamente ao nível da cultura e do património, na defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres.
Morreu em Lisboa, a 16 de março de 1993.
Visite a Biblioteca Municipal de Estremoz e conheça mais sobre quem foi Natália Correia.

19.7.23

PORTALEGRE: Exposição evoca Centenário da Liga dos Combatentes

Exposição "1923-2023 Centenário da Liga dos Combatentes".
Patente ao público no Centro de Artes do Espectáculo, de 18 a 29 de julho, de 2ª a 6ª feira, das 14h30 às 19h00.


15.11.22

PORTALEGRE: Secundária de São Lourenço assinala centenário de José Saramago com leituras coletivas

A obra de José Saramago vai entrar pelas salas de aula da Escola Secundária de São Lourenço, em Portalegre, esta quarta feira, 16 de novembro, dia em que o Nobel da Literatura português faria 100 anos.
A iniciativa do departamento de Português, no âmbito do projeto “Ler Mais” integra a leitura de excertos da obra de José Saramago nas salas de aula e um momento alto, marcado para as 11:00, na Biblioteca da escola, onde será apresentada a biografia do Nobel.
Segundo Luísa Moreira, professora responsável pela iniciativa, o objetivo de assinalar esta efeméride é, para além de lembrar Saramago, “mostrar aos alunos que ler pode ser uma troca de experiências e que ler coletivamente faz sentido”.
A docente sublinhou ainda a importância de trabalhar a leitura com os jovens, porque “uma sociedade que não lê é uma sociedade que não vê”.
José Saramago faria 100 anos esta quarta feira, dia 16 de novembro de 2022, efeméride que a Escola Secundária de São Lourenço vai assinalar com leituras coletivas.

in Rádio Portalegre - 15/11/2022

28.6.22

NISA: Homenagem ao poeta José Gomes Correia

Uma festa linda e comovente
A União de Freguesias do Espírito Santo, Nossa Senhora da Graça e S. Simão, promoveu no sábado, dia 25 de Junho, uma sessão evocativa do Centenário de Nascimento do poeta nisense José Gomes Correia, nascido em Nisa a 22 de Junho de 1922 e falecido na sua terra em 8 de Julho de 1983.
Uma sessão evocativa marcada pela emoção, pela convivência e saudade, bem expressas na presença de muitos amigos e antigos alunos do poeta José Gomes Correia que foi também professor no Externato D. Dinis em Nisa.
Foram alguns destes alunos que deram um cunho de reconhecimento e apreço pelo cidadão e professor, como Maria Natália Sousa, também ela professora e que por duas vezes leu poemas do seu antigo mestre, uma declamação feita com verdadeiro sentido poético e de homenagem. O mestre António Charrinho, também ele grande amigo de José Gomes Correia que lembrou como presidente da Banda Municipal de Nisa na época em que ensaiou os primeiros passos na música. António Charrinho recordou algumas passagens desse tempo e o percurso que trilhou enquanto músico. E das palavras passou à acção tocando no seu acordeão "A rosinha dos limões", com o virtuosismo que se lhe reconhece e que deliciou a assistência. Estava feita a ligação entre o poeta e a música, mas que não ficou por ali. António Charrinho porfiou em trazer à homenagem do Centenário, uma composição sua ajustada ao poema de Gomes Correia "Transforma cada espinho numa rosa..." Momento alto e não menos comovente, de elevado sentido artístico. Estava dado o mote para novas intervenções como as de José Joaquim Carmona evocando o professor, a sua amizade com a família e lembrando a existência de outros nomes de referência, nas artes, história e cultura nascidos em Nisa e que urge resgatar das trevas da memória.
Mário Mendes leu uma mensagem de António Montalvo, em seu nome pessoal e da Associação Nisa Viva, na qual recordou com especial carinho o antigo professor, a amizade que o unia à família e lembrou também o poeta que se expressava na corrente literária do romantismo.
Maria Dinis Pereira viajou até à infância para recordar o Dr. José Gomes Correia, a vida na "vila" nos anos 50 e 60, para vincar a forma determinada e decisiva como o poeta Gomes Correia ajudou na criação do Rancho Típico das Cantarinhas de Nisa, uma referência desta vila durante muitos anos e para o qual escreveu algumas modas e marchas.
O presidente da União de Freguesias, João Malpique Rufino agradeceu a presença da filha do poeta, Carlota Gomes Correia Amorim, bem como de alguns familiares e amigos, salientando o empenho da autarquia na realização desta iniciativa porque a mesma era de toda a justiça, como o era o reconhecimento a um cidadão nisense, que além de poeta com obra publicada e devidamente reconhecida, desempenhou importante papel no campo associativo, tanto na Banda Municipal como no Rancho Típico das Cantarinhas. 
A União de Freguesias, disse, "tudo fará para que, às placas toponímicas que ficam a assinalar o nome do poeta José Gomes Correia, na Urbanização das Amoreiras, outras se seguirão, porque as ruas têm nomes e é dever do poder local resolver estas situações e ao mesmo tempo evocar os cidadãos que tiveram um papel no desenvolvimento da terra e do concelho".
Seguiu-se a apresentação da 2ª edição do livro "Sonhos que morrem...Sombras que ficam", editado em 1942 e que há muito se encontrava esgotado.
Após a sessão, os participantes rumaram à Urbanização das Amoreiras onde, após a leitura do poema "À minha terra" feita por Natália de Sousa, teve lugar o descerramento da placa toponímica que fica a assinalar o nome do poeta naquela artéria, junto às piscinas municipais. Acto solene de grande simbolismo e alguma emoção por parte da filha do poeta, que viu assim concretizada uma sentida homenagem da população de Nisa, por ocasião do Centenário de Nascimento do seu pai.
Na sede da Sociedade Musical Nisense, onde decorriam as festas populares de S. João, a filha do poeta e familiares tiveram ainda ensejo de saudar e conviver com muitas pessoas amigas e "matarem" saudades de outros tempos.
Os poetas, como as pessoas, só morrem quando as esquecermos. E a poesia de José Gomes Correia que fala do amor, da saudade e do afecto à terra onde nasceu permanecerá sempre viva e imutável.
"Tu és a flor nascida entre o deserto,
És a eterna canção maravilhosa,
Que aos meus ouvidos soa qual segredo,
Que só eu compreendo, ó minha terra!"

Mário Mendes







27.6.22

NISA: Ecos de uma festa linda e comovente












Como é gratificante  sentir que as pessoas, ao fim de tantos anos, ainda recordam, com carinho, o homem alegre e bem disposto, o homem dos discursos, o amigo, o Professor amigo dos seus alunos, o Homem sempre  disponível  para colaborar em todas as actividades culturais da sua Terra - NISA.
Carlota Amorim - filha do poeta José Gomes Correia


24.6.22

NISA: Sessão evocativa do Centenário de Nascimento do poeta José Gomes Correia

A União de Freguesias do Espírito Santo, Nossa Senhora da Graça e S. Simão vai assinalar o Centenário de nascimento do poeta e ilustre cidadão nisense, Dr. José Gomes Correia, nascido em Nisa em 22 de Junho de 1922 e falecido em 2 de Julho de 1983.
José Gomes Correia, nasceu em Nisa, em 1922, filho António de Oliveira Correia e de Joaquina Gomes Castanho. Licenciou-se em Direito e em Nisa foi secretário judicial e professor no Externato D. Dinis. É dele o discurso de inauguração do Hospital da Misericórdia de Nisa, em Abril de 1960. Foi um dinâmico animador cultural, contribuindo para a criação do Rancho Típico das Cantarinhas de Nisa, em 1964, para o qual escreveu algumas "modas" e "marchas" e foi presidente da direcção da Banda Municipal de Nisa.
Em 1966 foi nomeado para o cargo de Delegado do Ministério Público junto do Tribunal de Trabalho de Lourenço Marques e mais tarde Conservador do Registo Civil de Inhambane, assumindo, também, as funções de Juiz, nas ausências ou inexistência do mesmo.
Reformou-se como Conservador do Registo Civil e regressou a Portugal em 1976 já depois da Declaração de Independência daquela ex-colónia em 25 de Junho de 1975, indo residir em Santarém onde, após inscrição na Ordem dos Advogados, exerceu advocacia, mas, por pouco tempo, devido a problemas de saúde.
Como poeta escreveu dois livros "Sonhos que morrem, sombras que ficam" (1942) e "Seara do bem e do mal" (1963), no qual revela o seu grande amor à sua e nossa terra, às nossas gentes e ao Alentejo. O primeiro, há muito esgotado, tem agora uma 2ª edição patrocinada pela União de Freguesias do Espírito Santo, Nossa Senhora da Graça e S. Simão. 
José Gomes Correia colaborou em jornais e revistas de cultura, nomeadamente o "Correio de Nisa" e a revista "Estudos de Castelo Branco", cidade onde estudou, entre outros.
A União de Freguesias do Espírito Santo, Nossa Senhora da Graça e S. Simão, concelho de Nisa, não quis deixar passar em claro esta data tão simbólica e vai assinalar no próximo sábado, dia 25 de Junho, com uma sessão de Evocação e Reconhecimento do Centenário do nascimento deste ilustre poeta e cidadão. A sessão decorrerá na sede da União de Freguesias e dela constará a leitura de poemas por antigos alunos do professor José Gomes Correia, a evocação do seu perfil social e humanista e o lançamento da 2ª edição do livro "Sonhos que morrem, Sombras que ficam...", há muito esgotado, seguindo-se o descerramento das placas toponímicas na rua da Urbanização das Amoreiras a que foi atribuído o nome deste poeta nisense.
Este é, na opinião do presidente da União de Freguesias, João Malpique Rufino, "um modesto contributo e um justo reconhecimento pela memória do cidadão e do poeta e uma forma de lembrar àss gerações actuais e vindouras, a sua inestimável contribuição para a cultura desta terra bordada de encantos."

O MENDIGO 
´stendendo a rôxa mão à caridade,
Lá vai de porta em porta o bom velhinho,
Cabelos cor de neve do caminho,
E nostálgicos olhos de saudade!

Também teve o ardor da mocidade,
Um braço forte no labor do ancinho,
Mas os anos passando, de mansinho,
Quebraram o vigor da tenra idade!

E o homem, que viveu a luta insana
Da vida, tem a paga desumana,
Contida no dizer de uma oração!...

Soldado ignoto, morrerá um dia...
E o mundo ficará sem a arrelia
De repartir migalhas do seu pão!
* José Gomes Correia