Mostrando postagens com marcador textos de jorge pires. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador textos de jorge pires. Mostrar todas as postagens

14.10.18

AMIEIRA DO TEJO: Progresso ou desencanto?

Quem visitar hoje Amieira do Tejo, poderá pensar que a nossa terra atravessa uma grande onda de progresso devido à acumulação de obras públicas que estão em curso na Praça Nun´Álvares, na rua do Arrabalde e Lar de Acolhimento.
No sector privado foi inaugurado há pouco tempo o Turismo Rural no Chão do Prior, único no concelho.
De facto e embora não queira tomar uma posição de derrotismo, o que é verdade é que o desencanto está hoje, mais do que nunca, na mente daqueles que preferem enfrentar a realidade futura, cada vez com menos soluções humanas para fazer face a eventuais tempestades que nos possam atormentar.
No entanto, uma luz ao fundo do túnel parece agora trazer nova esperança a este burgo, com a criação de uma nova associação com um projecto único em Portugal e que dá pelo nome de RURAT.
Trata-se de uma organização composta por gente idónea e responsável, será, pois, importante para a nossa terra que este projecto não siga o exemplo de muitos outros que acabaram, pura e simplesmente, por abortar. É nosso dever como amieirenses, apoiar estes homens que apesar da crise tiveram a coragem de, voluntariamente, abraçar este projecto cujo objectivo é valorizar o património dos seus associados, através de intervenções de beneficiação (obras, cultivos, criação de actividades) arrendamento ou venda.
Esperemos agora que o povo de Amieira entenda a palavra associação e não comece a inventar adjectivos, muitas vezes com a costumada intenção destrutiva.
É preciso pensarmos que Amieira, como a maior parte das terras do interior, está cada vez mais deserta e a grande responsabilidade de tudo isto é das cegonhas que antigamente traziam meninos às carradas e agora, nem vê-los...
Se calhar já estão ricas ou, então, é por causa dos combustíveis!...
Jorge Pires in "Jornal de Nisa" nº 263 – Set. 2008

1.10.18

AMIEIRA DO TEJO: Terra de olivais, sobreiros e pinhais

Amieira do Tejo, terra de olivais, sobreiros e pinhais. Era assim que até há cerca de 40 anos.
Pastores que dormiam no campo, no seu chôço que eles consideravam o seu palácio. Milhareiros que vigiavam as investidas dos texugos que, naquele tempo, causavam grandes prejuízos aos seareiros e respectivos donos dos terrenos e, ao mesmo tempo, aproveitavam a fresquidão da madrugada para a rega do milho, melancias e feijoais.
Naquela época, pelo Verão e na Primavera sempre havia gente à noite pelo campo, ao contrário de hoje que, nem de dia se vislumbra uma alma penada. Que tristeza!
Desde então e como por encanto, tudo se foi modificando, de tal maneira, que chegámos aos nossos dias sem uma grande parte daquilo que mais nos identificava.
Que saudades eu tenho da minha linda Amieira! Que saudades eu tenho daquelas descamisadas em que nós, na flor da idade, não olhávamos a distâncias para estarmos junto daquelas moças maravilhosas e cantar com elas, até altas horas da madrugada.
Era um tempo em que apesar da pobreza, as pessoas tinham alegria, eram participativas, frontais e solidárias.
Até a indústria do barro que noutros tempos deu cartas, fechou portas, não por falta de encomendas, mas sim porque o seu proprietário adoeceu gravemente, não podendo, por isso, estar à frente do negócio que era uma das referências desta terra, cada vez mais ignorada e mais desabitada.
Pelo meio, aconteciam episódios tristes, provocados pelas graves carências dessa época.
Lembro-me perfeitamente de assistir na minha infância, a espectáculos que naquela época me deixavam bastante irritado, ao ver as servas daquelas senhoras mais abastadas, com o prato na mão atrás dos meninos dos patrões, prometendo-lhes toda a espécie de coisas para conseguirem que eles engolissem uma simples colherzinha de sopa.
E eu ali, cheio de larica, a apreciar aquele espectáculo, pensando para comigo na injustiça deste mundo cruel que teima em seguir os erros do passado.
Tenho bem presente na minha memória, episódios protagonizados por gente egoísta e sem coração, mas também aconteciam factos bastante positivos, entre os quais um, que, enquanto eu viver, não mais esquecerei.
Quando eu era ainda criança, a pobreza em Amieira era quase geral e como eu, havia muitos carentes. Então, um belo dia, fomos almoçar no quintal de um lavrador, creio que essa refeição foi partilhada com a oferta de géneros dos restantes lavradores, à qual assistiram, como é óbvio, as suas digníssimas senhoras, que se deliciavam, incrédulas, a observar o apetite devorador daquelas pobres crianças.
Até que, a certa altura, uma dessas cujo seu menino tanto trabalho davam para engolir a tal colherzinha de sopa, saiu-se com esta frase de espanto: Venham cá ver este menino, tão bem que ele come!
Esse menino, era eu. Pudera! Ao ver tanta comida, tentei comer o mais possível. Só que, o meu debilitado estômago vazio como estava, nem deu tempo que eu acabasse a refeição, que era muito forte (batatas com carne).
Deu-me uma tal dor de barriga, que tive de correr a bom correr para não borrar as calças. Moral da história: como de costume, fiquei na mesma, com o estômago vazio...
- Jorge Pires - in "Jornal de Nisa" nº 248