5.3.20

8 de Março - A MULHER NA POESIA (I)

ROTINA
A mulher não serve só p´ra trazer o filho no ventre
Ter um marido chefão a mandar na vida da gente
Entregar a juventude, o corpo belo que tinha
Dar amor puro e sincero, ilusões de uma menina
E o tempo foi passando e a menina já é mulher
Ergue cedo pela manhã, a todos dá de comer
Faz a cama, limpa a casa, a pobre anda num sarilho
Prega botão na camisa, ralha à filha, grita ao filho
Lava a roupa, engoma roupa, tem costuras p´ra fazer
Vai ás compras, faz o comer
Chega à noite está estoirada, vai prá cama sem prazer
Até que um dia abre os olhos e tira o avental da frente
Gritando bem alto: isto assim não é ser gente!
Eu assim não quero viver, quero amar e ser amada
No que digo, respeitada, quero cantar, fazer poesia
Ir ao campo colher flores, quero rir, quero chorar
E ter muito amor para dar
Quero gritar liberdade que Deus me deu ao nascer
Quero dar sem me obrigarem, quero ter o meu viver
Por favor não quero mais estar viva por ver viver
Quero amar a toda a gente sem ter nada a temer
Só assim serei Mulher, só assim serei feliz
Gritando a todos bem alto, vivi a vida que quis.

Rosa Dias - Poetisa popular alentejana
Capa da edição nº 103 do "Jornal de Nisa" - 6 Março 2020