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21.9.17

VIDAS - António Polido: As fontes que venceram o sono

A vida de António da Graça Polido, como todas as vidas da gente do povo, dava para escrever um livro.
Aos 78 anos, este antigo funcionário da Junta Autónoma das Estradas, descobriu a arte e o jeito para esculpir peças em madeira, como resposta a uma sugestão da filha para combater, imagine o leitor, o sono.
Os seus trabalhos, reproduzindo o acervo magnífico das fontes de Nisa pode ser apreciado na Biblioteca Municipal até princípios de Setembro.
Reformado desde os 64 anos, António Polido arranjou um bocado de terreno e dedicou-se à agricultura, pois, “parar é morrer” e vida é uma palavra de que este nisense conhece bem o valor, já que aos 42 anos teve um enfarte.
Vendida a parcela de terreno, um novo dilema se lhe colocou: o que fazer?
Um problema de difícil solução, para mais confrontado, devido à medicamentação, com uma apetência desmesurada para dormir.


A filha, professora em Portalegre, sugeriu-lhe que arranjasse uma ocupação e que se dedicasse a fazer pequenas peças de artesanato, como forma de vencer a sonolência.
Que não tinha jeito, respondeu-lhe o pai. Mas, entre a insistência da filha e os pesadelos que não o largavam, António Polido ganhou força, encheu-se de brio e meteu mãos à obra. Muniu-se de madeira apropriada, experimentou fazer pequenas peças (garfos, colheres, tarros), enfim, é ele quem o diz: “tomei-lhe o gosto”.
A sugestão inicial deu lugar a um desafio: “… e se eu fizesse as fontes de Nisa?” A primeira foi a que tinha logo ali à mão, a do Largo do Mártir, onde reside.
Seguiram-se outras, sempre apoiado e entusiasmado pela filha, até à peça mais arrojada: a Fonte do Rossio.
Foi vê-la, uma e outra e outra vez. Mirou-a e remirou-a, tirou apontamentos, fez desenhos e esboços, e do papel a Fonte saltou para uma peça magnífica em madeira de faia, esculpida a golpes de navalha, de orgulho e de prazer.
Como um menino que aprendeu as primeiras letras, António Polido fala com indisfarçável orgulho dos seus trabalhos.
“Nunca pensei fazer peças como estas e muito menos fazer uma exposição, pelo que agradeço às pessoas que me têm apoiado, em primeiro lugar à minha filha, pois foi ela a principal responsável. Consegui fazer o que nunca supus ser capaz e agora até durmo melhor. Por isso quero agradecer a toda a gente que me apoiou."Quanto às peças, todas me têm dado prazer. Utilizo madeira de faia, com plátano ou freixo dá mais trabalho, mas a peça fica mais perfeita. Todo o trabalho é feito à mão, a navalha ou canivete. A peça mais trabalhosa foi a Fonte do Frade, mas a Fonte do Rossio foi um desafio e a que me apliquei com maior afinco e entusiasmo, até para responder àqueles que me diziam: ”essa não é para as tuas barbas!”.”
Mas foi e de que maneira. As dúvidas, se as houvesse, ficaram desfeitas com ao acervo artesanal que mostrou em exposição realizada na Biblioteca Municipal de Nisa.
O ti António Polido já nos deixou há alguns anos, mas este registo de Vidas fica como exemplo de que, seja em que idade for, desistir não é o caminho. Há sempre uma nova esperança à nossa frente para tornar os dias menos negros e amargos, reaprendendo, de novo, a sorrir.

22.4.08

Município homenageia quatro cidadãos do concelho

O Município de Nisa vai homenagear no próximo dia 25 de Abril, quatro cidadãos residentes no concelho e que se destacaram como exemplos a serem seguidos, em diversos domínios da actividade humana.
Quatro cidadãos e exemplos de dedicação à Comunidade

Celestino Ventura Rodolfo ou simplesmente o Doutor Celestino, é o único dos homenageados que não nasceu em Nisa, mas no vizinho concelho de Marvão (Porto da Espada).
Em Nisa desenvolveu, durante mais de 30 anos, uma profícua, esforçada, competente e meritória acção social e humanitária, exercendo a profissão de médico e fazendo da sua actividade, um exemplo de seriedade e discrição, de ajuda ao próximo, não olhando à condição social do doente e não fazendo do seu mester uma profissão de horário certo.
Após a aposentação, continuou a dar um contributo inestimável à Liga dos Amigos do Centro de Saúde de Nisa de que fora um dos fundadores, sendo presidente da direcção, até que os problemas de saúde o impediram de um contributo mais assíduo.

Pedro da Piedade Mendes Mourato, jardineiro e aposentado da administração local, dedicou uma grande parte da sua vida a contribuir para minorar a dor alheia, como dador de sangue e como bombeiro. Foram mais de 60 as dádivas de sangue com que, não contabilizando aquelas que careceram de registo, contribuiu de forma voluntária e gratuita, para tornar mais viva a esperança daqueles que do sangue careciam.
Uma sucessão de gestos e de dedicação a uma causa humanitária que a própria Associação de Dadores de Sangue do Distrito de Portalegre já reconhecera, atribuindo-lhe a Medalha de Ouro e que o Município agora reforça e complementa.

António Maria de Oliveira Charrinho, ou o Mestre António Maria desempenha há mais de 25 anos o cargo de Mestre e ensaiador dos agrupamentos da Sociedade Musical Nisense, como a Banda Filarmónica, Grupo de Metais, Orquestra Ligeira e Escola de Música, como antes o grupo de música popular “Canto do Corrupio”.
É também músico e instrumentista destes grupos, por ele passando uma grande parte da projecção e do reconhecimento alcançado pela Sociedade Musical Nisense. Músico versátil e de vários instrumentos, António Maria Charrinho pertence também à galeria dos executantes mais antigos e em actividade na nossa região, conforme reconheceu a Federação de Bandas Filarmónicas do Distrito de Portalegre ao atribuir-lhe o galardão comemorativo de um percurso de meio século ligado à música.
Um percurso e uma actividade que, no caso de Nisa, contribuiu não apenas para dinamizar no plano cultural o concelho, como também teve repercussões nas escolhas que fizeram muitos dos jovens que hoje detém um palmarés invejável no campo das artes musicais, tanto a nível nacional como além-fronteiras.

José Maria Casimiro (Conicha) foi (é) um desportista de eleição e esta homenagem representa um reconhecimento, algo tardio, por todo um percurso futebolístico de muitos anos, em representação de colectividades do concelho e particularmente do Sport Nisa e Benfica, pelo qual foi, diversas vezes, campeão distrital e defendeu em competições a nível nacional.
Com mais de 60 anos, o futebol continua ainda a ser uma das suas paixões e é vê-lo aos sábados, com o entusiasmo dos tempos da juventude, a jogar pela equipa de Veteranos do Benfica de Nisa
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São estes os cidadãos e os percursos de mérito, exemplos de vida, que o Município decidiu enaltecer e reconhecer publicamente.
Em poucas vezes na nossa terra, tal decisão terá sido tão justa e abrangente. Os homens que vão ser homenageados no próximo dia 25 de Abril (aqui, apenas uma sugestão: estas homenagens teriam melhor cabimento no Feriado Municipal) são-o por mérito próprio, sem favores de emblema ou capela.
Dedicaram uma parte substancial das suas vidas em favor dos outros, da comunidade a que pertencem. Trabalharam, deram o melhor de si, como médico, voluntário, desportista ou músico em favor do concelho e não – é preciso que isto seja dito – em favor de alguém em particular ou da propaganda de quem quer que fosse.
Os seus objectivos, as suas bandeiras, foram as do concelho e a contribuição para um futuro mais justo e mais radioso. Para todos.
E, quando assim é, há lá homenagens mais bonitas...!

Mário Mendes - in "Jornal de Nisa" nº 253 - 16/4/08