10.3.23

OPINIÃO: Perdoai-lhes, Senhor

Já não dá para dizer que não se deve confundir o padre com a paróquia. Os casos são muitos. O encobrimento transversal. A reação vergonhosa. No mínimo. Salvo raríssimas exceções, como a do bispo de Angra do Heroísmo, nos Açores, que decidiu afastar dois padres cujos nomes constam da lista de suspeitos de abusos sexuais de menores, a Igreja Católica portuguesa tem mostrado aquilo em que se transformou: uma casta de gente que se acha acima do comum dos mortais, para quem tudo vale e sem qualquer ligação a um sentido de humanidade, quanto mais ao divino.
Isto num momento histórico único, em que a instituição é liderada por um Papa que tem lutado contra o apodrecimento, o definhamento, o conservadorismo, os vícios, as sombras e os escândalos que a corrompem.
Não perceber a violência do sofrimento causado a vítimas cuja única culpa foi serem crianças, não perceber que este é o momento do ato de contrição, de fazer mais do que um pedido de desculpa, ou, pior, de encher a boca com o pedido de perdão para os algozes é destruir de vez os laços de confiança que unem as comunidades.
Viver a fé, sentir o religioso, tem muitas dimensões, todas elas individuais, mas com sentimentos de pertença, em muitos casos de vinculação a práticas comunitárias que são o único cimento social a que muitos se podem agarrar.
Quando nos entregamos, quando entregamos os nossos filhos a pessoas sem escrúpulos, ungidas pelo horror dos seus atos e não fazemos nada, não nos revoltamos, estamos a praticar o mesmo mal. E é por isso hoje tão urgente a denúncia dos vícios, a separação do trigo do joio. É essa coragem que se exige da Igreja, a começar e a acabar na hierarquia.
Não o fazer é perder a credibilidade da palavra. Mas sobretudo da fé. E votar ao abandono séculos de referência moral, que, sejamos ou não crentes, enformam muitos dos valores civilizacionais que conquistámos.
* Domingos de Andrade in Jornal de Notícias - 9.3.2023