28.6.19

NISA: Memória Histórica : O Estado do Concelho no alvorecer da 1ª República, segundo um documento da Comissão Administrativa do Município


Carta ao Governador Civil de Portalegre – 30 Janeiro 1911
Serviço da República – Exmo Sr.
No manifesto intuito de colher elementos que lhe permittam organizar do estado económico e social dos municípios portugueses, determinou o Governo da República em decreto de 25 de Novembro próximo findo que as Commissões Administrativas dos diversos concelhos procedam a um inquerito em que se comprehendam os pontos seguintes:
1º Exame de escripta até ao dia em que tomaram posse
R: O exame desta escripta deu-nos a convicção de que se a Administração da vereação que viemos substituir, nem sempre foi orientada por um alto espírito de justiça, ou mesmo de legalismo, nem por isso foi criminosa.
2º Inventário de todo o material existente na mesma data.
3º Arrolamento dos edifícios e bens próprios
R: Tanto o inventário como o Arrolamento estão feitos
4º Revisão dos quadros de pessoal sob os pontos de vista da sua deficiência ou super-abundância, etc., etc.
R: O pessoal empregado no serviço de saúde a despeito da sua muita proficiencia, boa vontade e grandes faculdades de trabalho, é insufficiente. O concelho é formado por nove freguezias e os numero de medicos municipaes é apenas de quatro, donde resulta que os habitantes de algumas freguezias não teem assistencia medica. Seria muito para desejar que fossem creados mais dois partidos medicos ou pelo menos um. Infelizmente a creação de mais um partido medico é incompativel com a exiguidade de recursos municipaes. Em nosso entender a futura vereação ver-se-ha compellida a aggravar a actual percentagem municipal sobre as contribuições geraes do Estado, porque só assim poderá occorrer às despezas a fazer com o serviço medico, o da limpeza e tantos outros.
Todos os empregados municipaes cumprem dignamente o seu dever e foram legalmente nomeados.
5º Estradas e caminhos vicinaes, com indicação do seu estado de conservação
R: Alguns destes caminhos encontram-se em pessimo estado e muito há que fazer para os melhorar.
6º Baldios, etc.
R: Não há
7º Produção agricola e pecuaria dominante
R: Não é facil responder com exactidão a este ponto, visto que em algumas freguezias a produção agricola mais importante é o trigo, noutras a cortiça e ainda noutras o azeite.
8º Salários correntes dos jornaleiros e artífices, etc.
R: Nos meses de Inverno, os jornaleiros recebem entre 220 e 240. No Verão, 300 reis, 360 reis, 400 reis. Os salários dos artífices vae desde 360 reis no Inverno a 500 reis no Verão.
Os arrendamentos dos predios rusticos são geralmente feitos pelo espaço de quatro anos. Não há emigração.
Emquanto às causas do atraso agricola no concelho de Niza convem signalar como uma das prinicipaes o facto de muitos dos proprietarios não administrarem directamente os seus predios, dando-os de arrendamento em geral a individuos pouco illustrados e sem capitaes que lhes permittam fazer uma exploração como seria de desejar. Em todo o caso faz-se no concelho largo emprego de adubos chimicos ainda que por uma forma verdadeiramente empírica.
Relativamente a reivindicações pelas camaras municipaes de instrução primaria elementar, etc., não lhe vemos vantagem.
10º Criação e municipalização de seguros agrícolas
R: Para quê? Se existem companhias de seguros agrícolas, que dão aos segurados garantias que as Camaras lhes não poderiam dispensar.
O mesmo não diremos emquanto à fundação de uma Caixa de Pensões e Aposentações para os trabalhadores ruraes. É este um bello ideal a realizar.
A exiguidade dos rendimentos municipaes não permittem a nomeação de pessoal technico a que se refere a alínea g) do citado Decreto de 25 de Novembro de 1910.
Julga a Commissão Administrativa do Municipio de Niza a que tenho a honra de presidir ter respondido, ainda que por uma forma muito deficiente ao inquerito que pelo citado Decreto lhe foi ordenado.
O Presidente da Commissão Administrativa do Municipio de Niza
-António Maria de Mattos Cardoso.