Para Macau, 2049 não é apenas uma data, mas muitas perguntas. Em que
medida será possível manter o princípio de "um país, dois sistemas",
que papel será reservado à língua portuguesa, até que ponto o território
continuará a ser usado como uma montra de abertura por um regime que lida com
uma profunda crise interna, ao mesmo tempo que mede forças com Trump e Putin
num quadro de mudança global.
Todos os dias, em média, 630 a 660 mil pessoas cruzam a fronteira entre Macau e a China continental. A circulação é cada vez mais fluida e a afirmação da identidade nacional vai-se fazendo sem subtilezas. Ainda assim, o carácter híbrido de Macau é uma oportunidade. A língua portuguesa resiste não apenas porque o acordo de transição assim o definiu, mas porque continua a ser vista como mais-valia por uma China que gosta de ter válvulas de descompressão. Há portas ainda abertas que Portugal, no seu clássico discurso sobre a lusofonia, nem sempre sabe cruzar. Talvez preso aos vestígios do mapa que deixou, sem se lembrar que o mapa de Macau está literalmente sempre a mudar.
Inês Cardoso – Jornal de Notícias - 20 de maio, 2026
