23.5.26

OPINIÃO: Uma data, muitas perguntas


Para se chegar à vila de Coloane, a mais pequena e pitoresca povoação do território de Macau, atravessa-se a nova faixa de território do Cotai. Onde no passado esteve um estreito istmo, em que apenas passava um carro de cada vez, sucessivos aterros conquistaram o mar e criaram áreas construtivas para os gigantescos hotéis com casinos e lojas de luxo. Macau é, na sua escassa dimensão de enorme densidade populacional, terra de contrastes que aproveita todos os metros quadrados para crescer. Torres modernas alinham-se lado a lado com velhinhos prédios dominados por "gaiolas" de ferro, cultura e religião são definidas por misturas, novas camadas de imigração acrescentam multiculturalidade a uma história carregada dela.

Para Macau, 2049 não é apenas uma data, mas muitas perguntas. Em que medida será possível manter o princípio de "um país, dois sistemas", que papel será reservado à língua portuguesa, até que ponto o território continuará a ser usado como uma montra de abertura por um regime que lida com uma profunda crise interna, ao mesmo tempo que mede forças com Trump e Putin num quadro de mudança global.

Todos os dias, em média, 630 a 660 mil pessoas cruzam a fronteira entre Macau e a China continental. A circulação é cada vez mais fluida e a afirmação da identidade nacional vai-se fazendo sem subtilezas. Ainda assim, o carácter híbrido de Macau é uma oportunidade. A língua portuguesa resiste não apenas porque o acordo de transição assim o definiu, mas porque continua a ser vista como mais-valia por uma China que gosta de ter válvulas de descompressão. Há portas ainda abertas que Portugal, no seu clássico discurso sobre a lusofonia, nem sempre sabe cruzar. Talvez preso aos vestígios do mapa que deixou, sem se lembrar que o mapa de Macau está literalmente sempre a mudar.

Inês Cardoso – Jornal de Notícias - 20 de maio, 2026