Quando no início dos anos 90 iniciei o estudo da informação televisiva,
chamou-me a atenção a forma como os territórios fora das áreas metropolitanas
de Lisboa e do Porto eram retratados. Sobressaíam essencialmente dois temas: os
fenómenos disruptivos (cheias, acidentes, incêndios) e as deslocações pontuais
do poder político para determinados sítios. Estes últimos sempre me suscitaram
interesse. Percebi que a cobertura jornalística se desenvolvia como se estes
eventos decorressem em Lisboa. As redações até deslocavam jornalistas das sedes
principais, desvalorizando os profissionais que trabalhavam nas delegações
regionais.
Hoje já não é assim. Os média jornalísticos passaram a confiar mais nos
jornalistas que estão no terreno, reconhecendo-lhes competência para acompanhar
as elites do poder. Contudo, o país político não acompanhou tal avanço. Embora
nestas ocasiões sejam chamados os presidentes de Câmara, raramente lhes é
concedido verdadeiro protagonismo. Os autarcas ali estão, mas desempenham mais
o papel de figurantes de uma encenação de descentralização.
Sendo um país pequeno, mas profundamente assimétrico, Portugal dispensa
exercícios itinerantes de visibilidade pública e mediática. Aquilo de que mais
precisa é da transferência real de competências, de recursos e, acima de tudo,
de poder de decisão. Se o Governo quer promover uma política de descentralização,
tem de confiar mais nos atores locais, conferindo-lhes capacidade para decidir
e para participar na construção de políticas públicas que atendam às
idiossincrasias dos territórios. Se assim não for, continuará tudo na mesma. Os
governantes podem fazer as reuniões que quiserem fora de Lisboa, mas, no final
do dia, tudo continuará centralizado em S. Bento e nos gabinetes ministeriais.
O atual modelo centralizado, para além de robustecer o poder de Lisboa,
aprofunda desigualdades regionais. Nem precisamos de falar de pequenas
localidades. Basta mencionar algumas cidades: Beja, Portalegre, Castelo Branco,
Guarda. Há extensas áreas do Portugal que somos que continuam em regressão
acelerada. Se não houver aqui uma ação musculada de descentralização, esse país
na prática nunca sairá do mesmo lugar. De atraso.
Felisbela Lopes – Jornal de Notícias - 1 de maio, 2026
