23.5.26

PRAÇA DA LIBERDADE: Portugal não precisa de visitas. Precisa de poder local


O Conselho de Ministros realizou-se ontem em Beja. O Governo anunciou que procurará realizar mensalmente estas reuniões fora de Lisboa, num esforço assumido de descentralização. Trata-se de um gesto positivo, que necessita, no entanto, de maior alcance para que se concretize a proximidade com os cidadãos. Não basta visitar o chamado país real. É preciso permanecer aí algum tempo, escutando-o e integrando-o nas decisões.

Quando no início dos anos 90 iniciei o estudo da informação televisiva, chamou-me a atenção a forma como os territórios fora das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto eram retratados. Sobressaíam essencialmente dois temas: os fenómenos disruptivos (cheias, acidentes, incêndios) e as deslocações pontuais do poder político para determinados sítios. Estes últimos sempre me suscitaram interesse. Percebi que a cobertura jornalística se desenvolvia como se estes eventos decorressem em Lisboa. As redações até deslocavam jornalistas das sedes principais, desvalorizando os profissionais que trabalhavam nas delegações regionais.

Hoje já não é assim. Os média jornalísticos passaram a confiar mais nos jornalistas que estão no terreno, reconhecendo-lhes competência para acompanhar as elites do poder. Contudo, o país político não acompanhou tal avanço. Embora nestas ocasiões sejam chamados os presidentes de Câmara, raramente lhes é concedido verdadeiro protagonismo. Os autarcas ali estão, mas desempenham mais o papel de figurantes de uma encenação de descentralização.

Sendo um país pequeno, mas profundamente assimétrico, Portugal dispensa exercícios itinerantes de visibilidade pública e mediática. Aquilo de que mais precisa é da transferência real de competências, de recursos e, acima de tudo, de poder de decisão. Se o Governo quer promover uma política de descentralização, tem de confiar mais nos atores locais, conferindo-lhes capacidade para decidir e para participar na construção de políticas públicas que atendam às idiossincrasias dos territórios. Se assim não for, continuará tudo na mesma. Os governantes podem fazer as reuniões que quiserem fora de Lisboa, mas, no final do dia, tudo continuará centralizado em S. Bento e nos gabinetes ministeriais.

O atual modelo centralizado, para além de robustecer o poder de Lisboa, aprofunda desigualdades regionais. Nem precisamos de falar de pequenas localidades. Basta mencionar algumas cidades: Beja, Portalegre, Castelo Branco, Guarda. Há extensas áreas do Portugal que somos que continuam em regressão acelerada. Se não houver aqui uma ação musculada de descentralização, esse país na prática nunca sairá do mesmo lugar. De atraso.

Felisbela Lopes – Jornal de Notícias - 1 de maio, 2026