3.5.26

EM MAIO, O FLORIR DE ABRIL - Baptista Bastos


Contar de Abril

Contarás de Abril o assombro, o desassossego, as súbitas visões de beleza longamente sonhadas, a hora vesperal; o renascer, meu e teu. Contarás de Abril instantes serenos, salivados de paz, o perfil de casas, as ruas docemente nossas que rimam connosco, as ternuras vagabundas, a utilidade dos gestos, o murmúrio discreto e comovido.

Contarás de Abril os gritos, as imprecações, as cóleras, o idioma ressurrecto na fraternidade de frases efusivas, no estertor.

Contarás de Abril aquele haver viagem, aquele cheiro antigo de chuva de infância, a peca sombra, o chouto curto, o bêbado de rua que te assustou, temulento, a frugal manhã.

Contarás de Abril o lado esquerdo da madrugada; cíclicos, os sismos: o chão em fissuras laceradas; devagarosa, a capa da terra a recobrir o oco, as galerias naturais do ódio, onde rebramia o mar, sobre o qual haviam colocado o pinho e a pedra e reconstruído a cidade, longa história de uma frustração.

Contarás de Abril os passos.

Contarás de Abril os sons, ínsitos na paisagem nocturna, nas betesgas.

Contarás de Abril que me viste trajado de estrelas, seteira ao ombro, num baixel de antigamente, soletrando palavras felizes, sem direcção nem sentido, como tudo o que é feliz.

Contarás de Abril, aos meus filhos, filhos teus, que os meus olhos míopes, ardidos, urbanos, ficaram cheios de um ofício de dizer coisas singelas, humildes e absurdas: como amor, liberdade.

Contarás de Abril os idos e os que voltaram; os que ficaram e ficam.

Contarás de Abril as pequenas pilhas de palavras, armazenadas numa necessidade que inventei; e as nossas almas ledas e limpas; e os braços que se estendem a outros abraços; e a cordialidade de anotarmos um nome, um número, numa flor; e os balaios sem reticências de mágoas, cheios, os balaios, de trissos de aves, de pássaros remotos de que ignoramos a voz ou havíamos esquecido o toque e a fímbria.

Contarás de Abril que na nossa terra já não apodrecem as raízes e que já não adiamos o coração; e que nascem crianças insubmissas e claras e livres; que já não nos dói a velhice e que os rios são todos nossos e íntimos e que já não perdemos a infância e que nascem crianças insubmissas e claras e livres.

Contarás de Abril a espessura mágica, o punho reflexo, o dia d'água, a lágrima, a vontade de sermos e de estarmos, o límpido grito, a forma inconsútil, o beijo proliferante, o vermelho e a brisa, as bambinelas vagantes nos sopros, o livor das coisas, a maravilha discreta de assear a vida, o caminhar, os semideiros, os rostos nesta dócil pausa e neste imenso perdão.

Contarás de Abril as casas de mil sóis, a imponderável descoberta dos sussurros, a brancura inadiável da perseverança, o resplendente varar dos dias, a feira alvoroçada das horas.

Contarás de Abril a visão e o visto.

Contarás de Abril as mãos dadas. Contarás de Abril o renascer da essencial frescura.

Contarás de Abril. Contarás, meu amor.

Baptista-Bastos