Refere a artista que, numa existência em que tudo mexe, a via láctea, a
terra à volta do sol, a nossa corrente sanguínea, parar é de facto o mais
difícil dos desafios. Por isso, uma das propostas que faz aos alunos é que se
sentem numa cadeira e fiquem a olhar para uma parede em branco durante uma
hora. Ridículo? Depende da perspetiva. Difícil? Sem dúvida. Quanto tempo
consegue o leitor ficar sem fazer absolutamente nada? Quanto tempo resiste sem
pegar no telemóvel assim que enfrenta um momento de espera, por mais breve que
este possa parecer?
Marina está certa ao dizer que a tecnologia, que nos foi apresentada
como sendo uma ferramenta mágica que nos daria mais tempo para o lazer se
transformou, afinal, no "maior canibal" dos nossos apressados dias.
O L. contou-me no outro dia que os seus alunos não conseguiam parar,
que precisavam de estímulos contínuos, o que estava a impactar de forma negativa
a sua capacidade de concentração e de aproveitamento. O alarme foi também dado
pelo Conselho de Escolas que relacionou a diminuição de alunos a concluir o
ensino secundário com a ligação exacerbada dos jovens com o mundo digital.
O "detox" tecnológico que Marina Abramovic propõe, mais não é que parar, quando tudo o mais parece pensado para nos manter na roda do rato.
Joana Almeida Silva – Jornal de Notícias -30 de abril, 2026
