2.5.26

OPINIÃO: Um canibal ao meu lado


A BBC tem uma série de cursos online, de escrita, culinária, música ou bem-estar. Uma das opções é ministrada pela artista sérvia Marina Abramovic, que protagonizou algumas das performances mais perturbadoras da modernidade, e chama-se "A arte de estar presente". Ao longo do curso, explora-se a ideia de viver cada momento, até ao seu tutano. Cada "aula", um vídeo curto, consiste num exercício que é, antes de mais, sobre parar e viver num determinado tempo e espaço.

Refere a artista que, numa existência em que tudo mexe, a via láctea, a terra à volta do sol, a nossa corrente sanguínea, parar é de facto o mais difícil dos desafios. Por isso, uma das propostas que faz aos alunos é que se sentem numa cadeira e fiquem a olhar para uma parede em branco durante uma hora. Ridículo? Depende da perspetiva. Difícil? Sem dúvida. Quanto tempo consegue o leitor ficar sem fazer absolutamente nada? Quanto tempo resiste sem pegar no telemóvel assim que enfrenta um momento de espera, por mais breve que este possa parecer?

Marina está certa ao dizer que a tecnologia, que nos foi apresentada como sendo uma ferramenta mágica que nos daria mais tempo para o lazer se transformou, afinal, no "maior canibal" dos nossos apressados dias.

O L. contou-me no outro dia que os seus alunos não conseguiam parar, que precisavam de estímulos contínuos, o que estava a impactar de forma negativa a sua capacidade de concentração e de aproveitamento. O alarme foi também dado pelo Conselho de Escolas que relacionou a diminuição de alunos a concluir o ensino secundário com a ligação exacerbada dos jovens com o mundo digital.

O "detox" tecnológico que Marina Abramovic propõe, mais não é que parar, quando tudo o mais parece pensado para nos manter na roda do rato.

Joana Almeida Silva – Jornal de Notícias -30 de abril, 2026